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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

— Homem, francamente, confesso-te que não o conheço. Dizem ser um tal Guedes, vulgo Pombinha, um sujeito reles, troca-tintas, um miserável que nem vale a pena de um escândalo...

— Não vale a pena? Quebro-lhe a cara, ora se quebro... Onde fica a tipografia do jornaleco?

— Na rua de São Bernardo, creio eu, uma espécie de toca imunda com ares de latrina.

— Guedes (Pombinha)... rua de São Bernardo. Muito bem!

E o Zuza tomou nota do seu canhenho, guardando-o resolutamente.

— Diabos me levem se eu não fizer uma estralada hoje.

Mudando de tom:

— Quero que publiques hoje o meu soneto A Volta; deve sair hoje infalivelmente.

— É dedicado à mesma?

— Certamente. Sabes que eu sempre fui muito correto nos meus amores. A pequena está pelo beicinho. Há de cair como uma mosca, eu te garanto.

— Um divertimento, hein?

— Não sou muito capaz de casar. Aquele arzinho ingênuo, aqueles olhos de madona traduzindo uma alma cheia de sentimentos bons... — tudo nela enfim, agrada-me.

— Mas é uma pobretona, filho. Aquilo é para a gente namorar, encher de beijos e — pernas para que te quero! És muito calouro ainda nisso de amores. Aproveita a tua mocidade, deixa-te de pieguismo, menino. A vida é uma comédia, como lá disse o outro...

Então o Zuza, acendendo um cigarro, disse que estava aborrecido de mulheres que se entregavam facilmente. Em Pernambuco namorara a filha de um barão, e, se não fosse esperto, àquelas horas estaria talvez às voltas com o minotauro de que fala Balzac. Era uma rapariga esplêndida, mas tão depravada, tão impoluta que acabou fugindo com um jóquei do Prado pernambucano, um negro!

Quanto às mulheres de vida alegre, detestava-as; tinha gasto muito dinheiro, precisava casar, mas casar com uma menina ingênua e pobre, porque é nas classes pobres que se encontra mais vergonha e menos bandalheira. Ora, Maria do Carmo parecia-lhe uma criatura simples, sem essa tendência fatal das mulheres modernas para o adultério, uma menina que até chorava na aula simplesmente por não ter respondido a uma pergunta do professor! Uma rapariga assim era um caso esporádico, uma verdadeira exceção no meio de uma sociedade roída por quanto vício há no mundo. Ia concluir o curso, e, quando voltasse ao Ceará, pensaria seriamente no caso. A Maria do Carmo estava mesmo a calhar: pobrezinha, mas inocente...

— É o que tu pensas, retorquiu o outro. Hoje não há que fiar em moças, pobres ou ricas. Todas elas sabem mais do que nós outros. Lêem Zola, estudam anatomia humana e tomam cerveja nos cafés. Então as tais normalistas, benza-as Deus, são verdadeiras doutoras de borla e capelo em negócio de namoros. Sei de uma que foi encontrada pelo professor de história natural a debuchar um grandíssimo falo com todos os seus petrechos...

— O quê, homem?

— É o que estou a dizer-te, por sinal acabou amigando-se com um bodegueiro de Arronches e lá vive muito bem com o sujeito. Creio até que já tem filhos.

— Ó senhor, então, ao que me vai parecendo, está muito adiantada a nossa pequena sociedade! exclamou o Zuza muito admirado, cavalgando o pince-nez. Pois olha, eu supunha isto aqui uma santidade.

— É que há muito tempo não vinhas ao Ceará. Por cá também se dão escândalos, como em Pernambuco, e escândalos de pasmar a um sacerdote da moral, como o filho de meu pai.

O escritório da Província estava quase deserto. Apenas o José Pereira e o estudante conversavam amigavelmente, sentados defronte um do outro à mesa dos redatores, fumando enquanto lá dentro, nos fundos onde ficavam as oficinas, os tipógrafos compunham atarefados a matéria do dia.

Seriam duas horas da tarde. O calor abafava.

Um rapazinho raquítico, em mangas de camisa, com manchas de tinta no rosto e um ar amolentado, veio trazer as provas do expediente do governo.

— Falta matéria? perguntou José Pereira, encarando-o. “Não sabia, não senhor, ia ver.” E saiu voltando imediatamente: que o jornal estava completo.

— Bem, disse o Zuza levantando-se, vou à casa do Sr. Guedes. Preciso acabar com isso.

— Mas olha, recomendou o redator, não vás fazer asneiras, hein? — Não, não. A coisa é simples. Addio.

E retirou-se fazendo piruetas com a bengala no ar.

— É um criançola esse Zuza, murmurou José Pereira molhando a pena.

Imediatamente entrou o Castrinho, outro colaborador da Província, também poeta e amigo particular de José Pereira, autor das Flores Agrestes publicadas há dias e que tinham sido muito bem recebidas pela crítica indígena. Vinha trazer a resposta ao crítico do Cearense que o chamara — plagiador de obras alheias.

— Então temos polêmica? perguntou José Pereira sem levantar a cabeça, revendo as provas.

— Por que não! Hei-de provar à evidência que não preciso plagiar ninguém. Aqui está o primeiro artigo. É de arromba!

O Castrinho sacou do bolso do paletó de alpaca um calhamaço de tiras de papel gordurosas e sacudindo-as, como quem toma o peso a alguma coisa:

— Aqui está: hei-de rebater uma a uma, sem dó nem piedade, todas as asserções do meu invejoso contendor.

(continua...)

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