Por Inglês de Sousa (1891)
Os rapazes amigos do noivo vieram logo apertar a mão à noiva e dar um abraço àquele felizardo. Cazuza agradecia dizendo:
— Olha lá, não fartes ao baile.
Macário procurou o Chico Fidêncio, e não o viu. Ter-se-ia ido embora. Seria uma felicidade!
Havia um grande reboliço entre o povo. Preparavam-se todos para sair, acompanhando os noivos à casa do Bernardino Santana. Mas padre Antônio, de simples batina negra e barrete de quina, assomou de súbito ao púlpito.
Era a surpresa. Pararam todos. Macário, sorrindo, viu o Neves Barriga, o Costa e Silva, o Valadão e o Mapa-Múndi voltarem-se muito admirados. O professor Aníbal Americano entrava nessa ocasião, de óculos de tartaruga, de sobrecasaca abotoada, muito formalizado. Não quisera faltar ao dever de vir cumprimentar o seu antigo discípulo, na ocasião do seu casamento. O professor estacou em meio da nave, contrariado, concertando os óculos.
— É uma atenção delicada, disse o capitão Fonseca para o Neves Barriga. S. Rev.ma vai fazer uma prática sobre o sacramento do Himeneu. É para agradecer.
O Neves deu a entender com a cabeça que agradecia a atenção de S. Rev.ma. Mas padre Antônio de Morais, descansando o barrete sobre o parapeito do púlpito, trovejou contra a falta de devoção do povo de Silves, condenando, numa eloqüência cálida e correta, o amor do lucro que o levava a abandonar pelos negócios o caminho da salvação, em tão boa hora começado, e desfiou um longo rosário de argumentos colhidos em Doutores da Igreja. Levantando o gesto, e dando à voz entoações lúgubres, carregando os supercílios e apertando os olhos, os belos olhos pretos, para não ver o quadro horrendo que descrevia aos ouvintes atônitos e surpresos, fez uma pintura viva e colorida das torturas preparadas na outra vida para os que nesta se descuidam de Deus por amor do mundo. S. Rev.ma mostrou nada haver de mais contrário ao ensinamento cristão, às eternas verdades da Lei, do que essa ardente preocupação pelos bens terrenos que levava as suas ovelhas queridas a abandonarem o serviço do Senhor, para irem, na sôfrega ambição de ganhar dinheiro, perverter a alma no ermo dos castanhais, onde todos os anos se reproduziam cenas muito pouco dignas de gente católica, apostólica e romana.
— O bem mais precioso desta vida é a tranqüilidade da consciência. E, depois, pausadamente, perguntou com solene intimativa, com que consciência se deixava deserta a igreja, despovoava-se o culto santo da Mãe Santíssima dos homens pelos prazeres e divertimentos mundanos.
E percorreu os olhos pela nave, por sobre as cabeças apinhadas em redor da tribuna, nas proximidades do altar-mor. Aquela gente viera, alegre e curiosa, para presenciar um espetáculo agradável, e não sabia como responder à inesperada pergunta, começava a deixar-se impressionar pela suave sombra da igreja, pelo cheiro de incenso, pelo silêncio, pela nobre figura daquele mancebo, vestido de negro, cuja fronte alva e espaçosa brilhava de inteligência e cuja voz simpática atraía os corações.
— Loucos! bradou de repente o padre, sacudindo as mãos, no desespero de convencer os matutos resistentes. Loucos, não sabeis que a morte não se faz anunciar nunca! E que dum momento para outro, nas festas dos castanhais, quando ao balcão contardes os lucros da colheita, e vos entregardes descansados aos ganhos do negócio ou aos prazeres insípidos do mundo, ela vos pode levar para a infinita dor com a alma cheia de pecados, embalde arrependida!
Aquela evocação da idéia da morte, quando todos se preparavam para os divertimentos duma festa, e trajando os melhores vestidos, as senhoras desafiavam os olhares dos homens, ávidos dos gozos da vida, causou uma espécie de arrepio geral, como se um inseto repugnante os perturbasse a todos no repouso cômodo do corpo, roçando-lhes a epiderme. O plano formado por S. Rev.ma surtia bom efeito.
Macário estava satisfeito.
Entretanto alguns espíritos fortes, o Mapa-Múndi e o Costa e Silva protestaram com um gesto e com o olhar contra aquele recurso empregado pelo vigário. O professor Aníbal, que se achava perto do Macário, disse ao ouvido de José Pereira, que no interesse de sua opinião, padre Antônio não duvidara entristecer os seus paroquianos. Era malfeito, principalmente numa ocasião daquelas.
Sem notar o protesto, sem ouvir a censura, com sincera compaixão na voz e no rosto, erguendo os belos olhos ao teto escurecido do templo, baixando-os depois para percorrer a nave com um olhar amoroso de pai que compreende a desgraça dos filhos rebeldes, o padre continuou:
— Ah! meus irmãos, não sabeis que, morrendo em pecado, perdemos a Deus, e que o perdemos para sempre 'e' sem remédio? E quereis, filhos e irmãos amados, arruinar por bens que não são mais do que males, por uma fortuna que é pó, cinza e nada, a salvação eterna da vossa alma imortal?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.