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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

Às vezes faço coisas!... Veja: estou arrependido... do que fiz..." Estava quase acocorado junto de mim. "Só o que falta - resmunguei, soluçando mais forte – é mandar-me surrar pelos seus vaqueiros com um nó de peia." - "Perdoa, coração – continuou, tentando ainda me abraçar – Eu não sou mau, mas o ciúme me tira o juízo. Esqueça tudo, minha cunhãzinha da minha alma... Prometo nunca mais te ofender. Pede o que quiseres, benzinho; serei teu escravo..." E, suspendendo-me do chão, levou-me ao colo como uma criança... Todo ele tremia; eu sentia-lhe o baticum do coração; suava e bufava como um novilho... Eu, nem como coisa: zangada, gemendo e soluçando. No outro dia, enquanto ele se derretia e se babava em agrados e promessas, eu imaginava no moço e no Cazuza que, lá do céu, me pedia vingança...

— Você não abandonou logo esse malvado?!...

— A falar a verdade, não era de todo mau. Fiquei por medo e por não ter coragem de começar a vida de novo... Já tinha padecido tanto, que mais um pouco não me fazia mossa. Mal com ele, pior sem ele, que, tirante as venetas de ciúme, era bom para mim; dava-me tudo: era só pedir por boca, como dona de casa... Maridos, casados na igreja, batem nas mulheres, quanto mais... Ora, deixei-me estar, mas pensando sempre que o meu adorado Cazuza nunca me havia maltratado, e que eu devia, mais cedo ou mais tarde, tomar desforra; porque, apesar de franzina, ninguém mas faz, que não as pague, tão certo como Deus estar no céu.

— Vingou-se então?...

— Ora, ora, ora!... Eu lhe conto. Seu Berto (ele se chama Bartolomeu, mas todos o tratavam assim) foi em fins d’água fazer a ferra em uma fazenda dos Crateús. O outro parece que soube disso, e se apresentou uma tarde, debaixo de um pé d'água, que se diria vir o céu abaixo. Eram relâmpagos e trovões de encandear e ensurdecer a gente. Aboletou-se e passou a noite. Soube, então, que era um tal capitão Bentinho, de família muito rica e poderosa. Trajava bem, gibão, guarda-peito, e perneiras de coiro de capoeiro, muito macio, bordados de flores, pospontadas à sovela, com abotoadura e esporas de prata. Não imagina como tinha a cor fina e branca, e uma barba parecida, comparando mal, com a de Jesus Cristo. Como estou falando com o coração aberto, não tenho vergonha de confessar que me engracei dele, acho que por capricho ou por ser em tudo diferente do outro. De madrugada, ainda chuviscando e antes que a gente da casa acordasse, arrumei algumas peças de roupa e meti-as em sacos com alguns patacões dados pelo Berto; e fugimos: ele montado num possante quartau pedrez, eu à garupa. Arre! que foi uma viagem de arrebentar. Tivemos de atravessar muitas léguas de sertão, passando rios a nado, dormindo no mato e comendo de alforje até chegarmos a uma povoação, perto da fazenda onde moravam os pais dele. Aí fui aboletada em casa de uma velha. Passamos três dias como noivos: ele, fino como seda; eu, cheia de denguices e manhas, como rapariga donzela. E contudo, Luzia, você não é capaz de acreditar que, amimada pelo Bentinho, todo delicadezas e cerimônias, tinha saudades do Berto com o seu sangue na gueira, aqueles olhos devoradores, aquela brutalidade...

— É possível?!... Pai do céu!...

— Você não sabe de quanto o bicho mulher é capaz, quando vira a cabeça.

— Anda; conta o resto.

— Eu fazia idéia da fúria, da danação dele, quando deu por falta de mim, da cunhãzinha russa. Imaginei os berros, os despropósitos, as pragas, que me irrogou, as ameaças de desforra, pois sabia que não era homem para se conformar com o roubo da mulher. Meu dito, meu feito. Um dia chegou Bentinho muito assustado, recomendando que me escondesse, porque lhe haviam inculcado gente do Berto nos arredores da povoação. Fiquei mais morta do que viva. Não me podia levar para a fazenda, porque a família, que tudo ignorava, não consentiria nisso. A velha que quase não dava fé de mim e vivia muito ocupada na criação, entrou a tomar precauções para ninguém suspeitar a minha estada em sua casa. Um dia, era dia de, feira, e eu tinha um desejo doido de ver a reunião de gente de uma redondeza de vinte léguas, vendendo legumes, farinha, rapadura e outras produções da lavoura; mas a megera não consentiu que eu botasse o nariz de fora. Ali por volta de meio-dia, ouvimos tiros de bacamarte e uma algazarra dos demônios, um bate-boca desadorado. Pouco depois soubemos que houvera um pega entre cangaceiros, desconhecidos no lugar, e a gente do Bentinho, e que já havia morrido um homem... Que seria?... Fiquei numa aflição, tremendo de susto, mas experimentava uma secreta satisfação que fosse por minha causa a briga e o sangue derramado.

— Que horror!...

(continua...)

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