Por Aluísio Azevedo (1880)
Desesperou-se o pequeno, e, conhecendo a nulidade de seus esforços, arremessou com toda a delicada força de seus bracinhos uma pancada no ombro de Miguel, acompanhando-a dos epítetos mais engraçados e injuriosos que pode dizer uma criança.
Por outro lado, a mãe dos garotos também apresentava, com muita brandura de gestos e delicadeza de palavras, as suas sinceras oposições; e delas, vendo a virtuosa senhora o nenhum êxito, volvia a aconselhar o amigo de seus filhos, com tais carinhos e meiguices de mãe, como se aos próprio filhos o fizesse.
A mãe revela em tudo a maternidade, seja ela a mãe de Cristo ou a de um leão; entre a brandura celestial da santa e a ferocidade mundana da leoa está esse sentimento sublime, esse amor incomparável que tudo pode, tudo vence, tudo desbarata para salvar o filho. Penda para uma das extremidades, penda para outra, seja divina ou seja bestial, há de ser mãe — ora comove pedras com as lágrimas do anjo, ora vence gigantes com as garras da fera; ora pede de joelhos, ora ameaça com as unhas; ora suplicante, ora ameaçadora; mas sempre imponente, sempre sublime, sempre mãe!
Miguel despediu-se da mãe dos seus discípulos sumamente comovido; ela fê-lo chorando e chorando dependurou-lhe do pescoço uma medalha de cobre com a imagem da Madona.
— É para que o proteja e ajude, disse a boa senhora abençoando-o, e, distribuindo depois pelos filhos objetos de uso, como pentes, escovas, lenços e gravatas, disse-lhes:
— Vamos, meus filhos, dêem esses mimos ao seu mestre e peçam a Deus que o abençoe e acompanhe.
As crianças, quase em coro, repetiram automaticamente as palavras da mãe.
O senhor L... ofereceu-se ainda uma vez ao viajante para escrever a alguns amigos de sua confiança, recomendando-o; ao que se opôs reconhecido Miguel, protestando parecer-lhe isso nimiamente desnecessário.
— Então, repito-lho, meu amigo, vá e não se esqueça de nós.
— Seria preciso ser muito ingrato, disse Miguel, abraçando-o pela última vez, o que foi fazendo por todos até sair, depois de beijar repetidas vezes os discípulos, que se conservaram imperturbáveis e sérios.
Quando Miguel desapareceu, os pequenos desataram a chorar ruidosamente.
Decorreu para a família L... um dia comprido e triste.
TERCEIRA PARTE
CAPÍTULO I
Nas terra pequenas, onde as ambições e egoísmo são relativos ao tamanho do lugar, são entretanto os corações extraordinariamente maiores que nas grandes capitais.
Penso que esse órgão diminui na razão inversa do engrandecimento de uma cidade; quanto maior for a terra, mais ridículo e corrupto é o coração de seus filhos.
Ele é como o barômetro da civilização, que o sufoca e amesquinha.
Cada vez acreditamos mais que a inocência anda de par com a ignorância, como a lealdade e a franqueza com a inexperiência, como o progresso com a desconfiança, como a glória com o egoísmo, como a ambição com a desvergonha e finalmente como a riqueza com a miséria.
Os milhões e as misérias degradantes são o patrimônio das cortes, como a mediocridade de haveres e a ausência de absoluta miséria são o das pequenas cidades - acumulam-se de um lado os bens para faltar do outro - acumulam-se mais, mais ainda, exageradamente mais, e mina pelo outro lado a miséria degradante, inconcebível, sem nome.
Esse desequilíbrio da fortuna produz o equilíbrio da balança social, o equilíbrio das classes. Do contraste das circunstâncias, nasce a indústria e o comércio; estes são o progresso e a civilização.
E o que fazem o progresso e a civilização ao contemplar a paz dos campos, a felicidade serena do lar, a fortuna dos obscuros e ignorados filhos da província?
Riem-se grosseira e estupidamente.
A ingênua hospitalidade da província, a espontaneidade no obsequiar, a facilidade de amar, os desinteresse no servir, o desejo de agradar, o compadecer dos infelizes, o consolar os desesperados, a obrigação de proteger os fracos, o interesse pelo semelhante, e mil outras virtudes dos pequenos lugares, passam ridicularizadas se não desconhecidas nas grandes capitais, onde um dinheiro forma um centro de gravidade, em torno do qual, como formidável mundo planetário, gravitam, sujeitos e dominados pela força centrípeta, a moda, a aristocracia, a elegância, a vaidade, o orgulho, o egoísmo, a ambição, o desamor, a indiferença, a baixeza, o roubo, a mentira, a torpeza, a desonra e mil outros vícios brilhantes, cuja centelha são todas as vergonhas, todas as misérias, todas as corrupções sociais!
A hipocrisia é moeda corrente nos grandes meios e há como um comércio de ódios surdos entre os correligionários mais íntimos e comunicados desse círculo, dourado na superfície e podre no fundo.
Tudo ofusca! tudo luz! porém nada conforta porque nada tem valor sincero e real.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.