Por Aluísio Azevedo (1881)
José Roberto, a quem só tratavam por “Seu Casusa” era moço de vinte e tantos anos; magro, moreno crivado de espinhas, olhos muito negros, boca em ruínas, uma enorme cabeleira, rica toda encaracolada e reluzente de óleo cheiroso, preta bem preta dividida pacientemente ao meio da cabeça. Usava lunetas azuis e cantava ao violão modinhas da sua própria lavra e de outros, apimentadas à baiana com o travo sensual e árabe dos lundus africanos. Quando tocava, tinha o amaneirado voluptuoso do trovador de esquina; vergava-se todo sobre o instrumento, picando as notas com as unhas cujos dedos pareciam as pernas de um caranguejo doido, ou abafando com a palma da mão o som das cordas, que gemiam e choravam como gente.
Tipo do Norte, perfeito, cheio de franquezas, com horror ao dinheiro, muito orgulhoso e prevenido contra os portugueses, a quem perseguia com as suas constantes chalaças, imitando-lhes o sotaque, o andar e os gestos. Tinha alguma coisinha de seu e passava por estróina. Gostava das serenatas, das pândega com moças; pilhando dança - não perdia quadrilha nem pulada, mas no dia seguinte ficava de cama, estrompado.
Havia muito que José Roberto procurava agradar a Ana Rosa, esta sempre o repelia a rir. Também poucos o tomavam a sério: “Um pancada” diziam mas queriam-lhe bem.
O Sebastião Campos, esse era viúvo da primeira filha de Maria Bárbara e, como aquele, um tipo legítimo do Maranhão; nada, porém, tinha do outro senão o orgulho e a birra aos portugueses, a quem na ausência só chamava “marinheiros puçás - galegos”.
Senhor de engenho, de um engenho de cana, lá para as bandas do Munim, onde passava três meses no tempo da colheita; o resto do ano passava-o na cidade. Devia ter quase o duplo da idade de José Roberto, baixote, muito asseado, mas com a roupa sempre malfeita. Usava calças curtas, em geral brancas, deixando aparecer, desde o tornozelo, os seus pezinhos ridiculamente pequenos e mimosos; barba cerrada, ainda preta, desproporcionada do corpo, beiços grossos e vermelhos, mostrando a dentadura miudinha e gasta, porém muito bem tratada, tratada a mel de fumo de corda, que era com que ele asseada a boca.
Bairrista, isso ao último ponto: a tudo preferia o que fosse nacional. “Não trocava a sua boa cana-capim — e o seu vinho de caju por quantos cognacs e vinhos do Porto havia por ai! nem o seu gostoso e cheiroso fumo de molho, fabricado no Maranhão, pelo melhor tabaco estrangeiro, ou mesmo importado das outras províncias! Ou bem que se era maranhense ou bem que se não era!”
Não cochilava com os seus escravos. Na roga era temido até pelo feitor, um pouco devoto e cheio de escrúpulos de raça. “Preto é preto; branco é branco! Moleque é moleque menino é menino!” E estava sempre a repetir que o Brasil teria ganho muito, se perdesse a Guerra dos Guararapes.
— A nossa desgraça, rezava ele, é termos caldo nas mãos destas bestas! Uns lesmas! Uma gente sem progresso, que só cuida de encher o papo e aferrolhar dinheiro!
Favores, de quem quer que fosse, não os aceitava “que não queria dever obrigações a nenhum filho da mãe!...” Mas também, quando dava para meter as botas em qualquer pessoa - era aquela desgraça! Não tinha papas na língua! Era nervoso e ativo; gostava todavia de ler ou conversar, escarranchado na rede durante horas esquecidas, em ceroulas fumando o seu cachimbo de cabeça preta, fabricado na província. Na rua encontravam-no de sobrecasaca aberta, coletinho de chamalote, camisa bordada, guarnecida por três brilhantes grandes; ao pescoço, prendendo o cebolão, um trancelim muito comprido, de ouro maciço, obra antiga, com passador. Adorava os perfumes ativos, as jóias e as cores vivas, para ele, nada havia, porém, como um passeio ao sitio embarcado, à fresca da madrugada, bebericando o seu trago de cachaça e pitando o seu fumo do Codó. Em casa muito obsequiador. Passava à farta.
Com a vinda destes dois, a reunião tornou-se mais animada. Reclamou-se logo o violão, e seu Casusa, depois de muito rogado, afinou o instrumento e principiou a cantar Gonçalves Dias:
“Se queres saber o meio Por que às vezes me arrebata Nas asas do pensamento A poesia tão grata;”
Nisto, rebentou uma corda do violão.
— Ora pistolas!... resmungou o trovador. E gritou: — Ó D. Anica! a senhora não terá uma prima?
Ana Rosa foi ver se tinha, andou remexendo lá por dentro da casa, e voltou com uma segunda. “Era o que havia.” O Casusa arranjou-se com a segunda e prosseguiu, depois de repetir os versos já cantados; ao passo que o Freitas, na janela, importunava Raimundo, a propósito do autor daquela poesia e de outros vultos notáveis do Maranhão “da sua Atenas brasileira” como a denominava ele. O cônego fugiu logo para a varanda, covardemente, com medo à seca.
— Não sou bairrista. não senhor... dizia o maçante, mas o nosso
Maranhãozinho é um torrão privilegiado!...
E citava, com orgulho, “os Cunha, os Odorico Mendes, os Pindaré e os Sotero etcetera! etcetera!'' O seu modo de dizer etcetera era esplêndido!
— Temos os nossos faustos, temos!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.