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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

- Tu bem sabes que não sou, e sabes igualmente que serei muito capaz de lhe fechar a porta, se o ordenares.

- Deixa-te disso, filha!

- É porque não me amas...

- Talvez.

O rapaz, com efeito, nada sentia do que ela experimentava por ele. Deixava-se adorar com uma indiferença de verdadeiro ídolo: tanto se lhe dava que aquilo acabasse logo.

- Deixa-te estar, profetizava ela; deixa-te estar, que algum dia serei vingada! Deus é grande! Hás de encontrar uma mulher que judie contigo ainda mais do tens judiado comigo!

E as angústias e dissabores de D. Ernestina foram crescendo à proporção que Teobaldo ia conhecendo a corte e à medida que ele se relacionava e desenvolvia.

Dentro de um ano grandes modificações se operaram na vida dos dois rapazes. Teobaldo concluíra os preparatórios e matriculara-se na Escola de Medicina, esperançoso de largála de mão logo que descobrisse melhor carreira; ao passo que o Coruja não conseguira passar em nenhum dos seus exames, se bem que estivesse deveras senhor nas matérias.

E, no entanto, fora ele, o Coruja, quem fornecera ao outro os elementos daquele sucesso; fora ele quem o preparara, quem lhe metera alguma coisa na cabeça!

Teobaldo ficou furioso com as reprovações do amigo.

- Ora entendam lá esta gente! exclamou entre um grupo de colegas. A mim, que passei pelos livros, como gato por brasas, - distinção! Ao Coruja, que estudou por vinte, - tome bomba! Ora bolas! Pois então reprova-se um pobre rapaz, só porque ele é acanhado?...

O Coruja, ainda assim procurava desculpar os examinadores:

- Coitados! dizia ele; não fizeram isso por mal; supunham naturalmente que eu de fato não sabia as matérias. Quem me mandou a mim não ser mais desembaraçado?...

- Qual! Nada me convencerá de que este nosso escandaloso sistema de exames é só aproveitável para os charlatas e pomadistas! Os estudantes de tua ordem fazem sempre má figura! Ali só o que se quer é presença de espírito!... E, fica sabendo, tomei tal embirrância a tudo isto, que vou escrever ao velho, dizendo-lhe que estou resolvido a seguir para a Europa. Formo-me em Ciências naturais!

- Em ciências naturais!

- Em grande peralta é que ele se está formando! afirmava o Sampaio, à vista do dinheiroque Teobaldo retirava por mês de sua casa. É pândega, pândega e mais pândega! O pai afinal não é nenhuma Índia! e se o doido do filho não mudar de rumo, há de dar com a família em pantanas!

O Coruja havia então conseguido, com muito custo em razão da sua tremenda antipatia, arranjar alguns discípulos, cujo produto, ligado ao do trabalho de revisão, dava-lhe já para as primeiras despesas.

Escrupuloso como era, tratou logo de conduzir a sua vida de modo a não ser pesado a ninguém, ainda que tivesse para isso de sacrificar as suas pretensões de formatura. Dava uma parte do dia aos seus discípulos e uma parte da noite ao serviço do Jornal. Deitava-se impreterivelmente à uma hora e acordava às cinco da madrugada; não tinha vícios de espécie alguma; não comia senão ao almoço e ao jantar e nem sequer pensava em mulheres.

- É um esquisitão! é um selvagem! diziam a respeito dele os amigos de Teobaldo, enquanto que a este qualificavam de "bom rapaz".

O Coruja não se incomodava com aquele juízo e, quando o forçavam a prestar contas de suas virtudes, desculpava-se humildemente, como se estivesse a pedir perdão para elas. Se lhe ofereciam charutos: "Desculpe, não fumo". Se lhe ofereciam bebidas: "Não posso, queira desculpar"

E todo ele parecia envergonhado de ser tão puro.

Ao lado da amizade que lhe dedicava, Teobaldo ia criando por ele um certo respeito, que era o freio único para os seus excessos. Às vezes o bonito moço reunia em casa uma troça de amigos, fazia vir o que beber e, entre o fumo dos charutos, discutiam-se todos os assuntos, diziam-se todas as asneiras e a casa transformava-se em um verdadeiro inferno. Mas, sempre que algum dos rapazes se aproximava da mesa de André, que estava ausente, Teobaldo exclamava desviando-o:

- Não! aí não mexam! É a mesa do Coruja!

Quando também levava à noite para casa algum companheiro meio ébrio, a quem oferecia hospitalidade, dizia-lhe sempre, ao subir as escadas:

- Agora, toda a atenção!... O Coruja está dormindo! É preciso não o acordar...

E, em completa antítese de gênios e de costumes, iam os dois todavia vivendo juntos. André descobriu um colégio de certa importância, que lhe dava bom ordenado, casa, comida e roupa lavada, com a condição de que ele, além do serviço de professor, havia também de fiscalizar os rapazes à hora do recreio e fazer a escrituração da casa. Consultou Teobaldo e, depois de ouvir a opinião deste, resolveu mudar-se para o colégio. Agora podia abandonar o trabalho de revisão e tomar ainda alguns discípulos para as horas vagas, porque nele o gosto pelo professorado começava a assumir as proporções de uma verdadeira paixão.

Ensinava latim, francês, português, história e geografia do Brasil; tudo isso com muito método, muita paciência e sem nunca parecer fatigado. - E a respeito de tua formatura? perguntou-lhe o amigo.

(continua...)

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