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#Romances#Literatura Brasileira

O Cortiço

Por Aluísio Azevedo (1890)

Ele pôs-se logo a devorar, sofregamente, olhando inquieto para os lados, como se temesse que alguém lhe roubasse a comida da boca. Engolia sem mastigar, empurrando os bocados com os dedos, agarrando-se ao prato e escondendo nas algibeiras o que não podia de uma só vez meter para dentro do corpo.

Causava terror aquela sua implacável mandíbula, assanhada e devoradora; aquele enorme queixo, ávido, ossudo e sem um dente, que parecia ir engolir tudo, tudo, principiando pela própria cara, desde a imensa batata vermelha que ameaçava já entrar-lhe na boca, até as duas bochechinhas engelhadas, os olhos, as orelhas, a cabeça inteira, inclusive a sua grande calva, lisa como um queijo e guarnecida em redor por uns pêlos puídos e ralos como farripas de coco.

Firmo propôs embebedá-lo, só para ver a sorte que ele daria. O Alexandre e a mulher opuseram-se, mas rindo muito; nem se podia deixar de rir, apesar do espanto, vendo aquele resto de gente, aquele esqueleto velho, coberto por uma pele seca, a devorar, a devorar sem tréguas, como se quisesse fazer provisão para uma outra vida.

De repente, um pedaço de carne, grande demais para ser ingerido de uma vez, engasgou-o seriamente. Libório começou a tossir, aflito, com os olhos sumidos, a cara tingida de uma vermelhidão apoplética. A Leocádia, que era quem lhe ficava mais perto, soltou-lhe um murro nas costas.

O glutão arremessou sobre a toalha da mesa o bocado de carne já meio triturado.

Foi um nojo geral.

— Porco! gritou Rita, arredando-se.

— Pois se o bruto quer socar tudo ao mesmo tempo! disse Porfiro. Parece que nunca viu comida, este animal!

E notando que ele continuava ainda mais sôfrego por ter perdido um instante:

— Espere um pouco, lobo! Que diabo! A comida não foge! Há muito ai com que te fartares por uma vez! Com efeito!

— Beba água, tio Libório! aconselhou Augusta.

E, boa, foi buscar um copo de água e levou-lho a boca.

O velho bebeu, sem despregar os olhos do prato.

Arre diabo! resmungou Porfiro, cuspindo para o lado. Este é mesmo capaz de comer-nos a todos nós, sem achar espinhas!

Albino, esse, coitado! é que não comia quase nada e o pouco que conseguia meter no estômago fazia-lhe mal. Rita, para bolir com ele, disse que semelhante fastio era gravidez com certeza.

— Você já começa, hein?... balbuciou o pobre moço, esgueirando-se com a sua xícara de café.

— Olha, cuidado! gritou-lhe a mulata. Pouco café, que faz mal ao leite, e a criança pode sair trigueira!

O Albino voltou para dizer muito sério à Rita que não gostava dessas brincadeiras.

Alexandre, que havia acendido um charuto, depois de oferecer outros, galantemente, aos companheiros, arriscou, para também fazer a sua pilhéria, que o sonso do Albino fora pilhado às voltas com a Bruxa no capinzal dos fundos da estalagem, debaixo das mangueiras.

Só a Leocádia achou graça nisto e riu a bandeiras despregadas. Albino declarou, quase chorando, que ele não mexia com pessoa alguma, e que ninguém, por conseguinte, devia mexer com ele.

— Mas afinal, perguntou Porfiro, é mesmo exato que este pamonha não conhece mulher?...

— Ele é quem pode responder! acudiu a mulata. E esta história vai ficar hoje liquidada! Vamos lá, ó Albino! confessa-nos tudo, ou mal te terás de haver com a gente!

— Se eu soubesse que era para isto que me chamaram não tinha vindo cá, sabe? gaguejou o lavadeiro, amuado. Eu não sirvo de palito!

E ter-se-ia retirado chorando, se a Rita não lhe cortasse a saída, dizendo, como se falasse a uma criatura do seu sexo, mais fraca do que ela:

— Ora não sejas tolo! Deixa-te ficar ai! Se deres o cavaco é pior!

Albino limpou as lágrimas e foi sentar-se de novo.

Entretanto, a noite fechava-se, refrescando a tarde com o sudoeste. Bruno roncava no lugar em que tinha jantado. A Leocádia passara livremente a perna para cima da de Porfiro, que a abraçava, bebendo parati aos cálices.

Mas o Firmo lembrou que seria melhor irem lá para fora; e todos, menos o Bruno, dispuseram-se a deixar a sala, enquanto o velho Libório! pedia a Alexandre um cigarro para despejar no cachimbo. Servido, o filante desapareceu logo, correndo ao faro de outros jantares. Rita, Augusta e Albino ficaram lavando a louça e arrumando a casa.

Lá fora o coro dos italianos se prolongava numa cadência monótona e arrastada, em que havia muito peso de embriaguez. Junto à porta de várias casas faziam-se grupos de pessoas assentadas em cadeiras ou no chão; mas a roda da Rita Baiana era a maior, porque fora engrossada pelos convivas da das Dores. O fumo dos cachimbos e dos charutos elevava-se de toda a parte. Decrescera o ruído geral; fazia-se a digestão; já ninguém discutia e todos conversavam.

Acendeu-se o lampião do pátio. Iluminaram-se diversas janelas das casinhas.

Agora, no sobrado do Miranda é que era o maior barulho. Saia de lá uma terrível gritaria de hipes e hurras, virgulada pelo desarrolhar de garrafas de champanha.

— Como eles atacam!... observou Alexandre, já de novo sem farda.

(continua...)

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