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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

Imaginava-se já de sandália e bombachas de brocado, assentada á japonesa no dorso empírico de um camelo, ao lado do Borges, que sumido no seu albornoz característico, as mãos esquecidas sobre o adequado kandyjar, e também de canelas em cruz, toscanejava orientalmente sobre o macio shedad. A imitação de sua querida Lady Brunt, sentia-se já preada por um formidável ghazú e conduzida aventurosamente ao castelo de Djot.

No dia seguinte, estavam de partida.

CAPÍTULO IX

VÔOS ALTOS

Desde então, foi um peregrinar sem tréguas.

Viram muito, atravessarem regiões inóspitas, extensões selvagens, participando de caçadas temerárias, fazendo léguas sobre elefantes, experimentando o enjôo de mil paquetes, a indiferença de mil povos diversos a monotonia das cidades desconhecidas, a dura insociabilidade dos hotéis e o tempestuoso embate de todas as paixões humanas.

E Filomena Borges tomou notas, escreveu memórias, fez apontamentos, criou gosto pelas investigações, pelo estudo; enfim, tornou-se filósofa e sentiu necessidade de compendiar em volume as impressões que recebia.

"O Egito", contava ela depois de longas considerações filosóficas, "desenrolou-se debaixo de meus pés, triste como um sudário. Ajoelhei-me com o meu companheiro (o companheiro era o Borges) defronte dos Spéus arruinados de Ibsambul e dos esborcinados templos d'Efu! Percorri os imensos labirintos subterrâneos de Silsilis, o templo d'Ombos; vi os monumentos da ilha de Philoe, contemplei a esfinge de Gizeh, surgindo da areia ardente do deserto, como um fantasma de granito, que se ergue a meio de um estranho oceano, com os olhos de pedra fitos no levante, o ar atento e concentrado de quem escuta e de quem espera! Que esperas, tu, sentinela do passado?! Monstro! que perscrutas com esse teu olhar imóvel de pedra?!"

"Minhalma", afirmava ela em ponto das memórias, "como que se dilatou ao sopro embalsamado das melancólicas lendas do Oriente. Pareceu-lhe ouvir ainda, perdidos no espaço, os últimos ecos dos coros religiosos dos sacerdotes de Horus e o cântico venerando dos escribas reais..."

Ouvisse ou não ouvisse, o fato é que, uma vez, depois da costumada excursão pelas ruínas, ela tomou de repente as mãos do marido e perguntou-lhe em segredo, com a voz trêmula de comoção:

— Meu amigo, não sentes alguns sons doces e lamentosos, que rumorejam neste vasto e profundo azul do deserto? ...

O Borges vergou a cabeça para o lado donde vinha o vento, concheou as mãos nas orelhas e, depois de escutar durante alguns minutos, disse que sim, por condescendência. — Que sim, supunha ouvir, qualquer coisa — assim como unia espécie de zunido! — Que vinha a ser isso?... perguntou ele, estimulado pelo olhar estranho da mulher.

— É, respondeu Filomena muito grave — é a alma errante do passado que chora as suas grandezas extintas, ou talvez sejam as notas derradeiras dos lamentosos salmos das adoradoras de Hathor!

— Ah!... fez o marido, fingindo interesse, mas sem compreender patavina.

E, enfronhados nas suas roupas egípcias, já iam aquelas duas almas perdidas, a jornadear dia e noite, de sol a sol, de ruína em ruína; ela em busca de comoções; ele em busca de coisa alguma, aborrecido, cansado, pedindo a Deus de instante a instante que fizesse a mulher desistir daquela terrível mania de andar a trocar as pernas, pelo mundo e fosse com ele repousar a um canto feliz e calmo de sua terra.

Contudo não se revoltava, nem lhe fugia às mais caras exigências. Na ocasião em que visitavam a quase extinta Menfis. ela mostrou desejos de que o marido chorasse defronte do colosso mutilado de Ramsés II, que jazia estendido na areia e o Borges choramingou para fazer-lhe a vontade. Quando desembarcaram no Luqzor, à margem direita de Tebas "a cidade de cem portas, decantada pelo sublime cego de Smyrna" como parafraseava ela, cheia de entusiasmo, o pobre homem já estava mais morto que vivo; Filomena, entretanto, não admitiu que se esbanjasse o precioso tempo com o repouso e exigiu que o Borges prestasse suma atenção às maravilhas que surgiam defronte de seus olhos.

— Sabes?... disse-lhe ela> atravessando com um passo solene o corpo principal do despojado templo de Luqzor — foi daqui que o solitário de Santa Helena levou o obelisco que orna hoje a praça da Concórdia, em Paris!

— Boa pedra para construção! respondeu o mestre de obras, batendo com a ponta ferrada de seu cajado no granito vermelho das velhas e consagradas esculturas de Secos. Boa pedrinha! Isto deita séculos!

Felizmente, a mulher não o ouvia, graças ao encanto melancólico daquelas relíquias, que a arrebatavam para as épocas esplendorosas de Sesostris e a faziam reconstruir mentalmente toda a extinta grandeza da margem ocidental de Tebas,

Neste dia, não houve um momento de descanso. Filomena não tinha ânimo de abandonar as ruínas, e como que as queria ver todas ao mesmo tempo. — Oh! Ó Karnak! Ó Karnak com a sua avenida de esfinges decimbradas e os monólitos gloriosos de Amenhotep III !

(continua...)

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