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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Agarrou-me a cintura e ter-me-ia beijado o pescoço ,se eu lho permitisse.

Esta última parte da queixa fazia mais honra ao espírito inventivo de Mme. Brizard do que ao seu espírito de verdade; ela, porém, não resistia ao gostinho de falar no seu rico pescoço, sempre que se oferecia a ocasião.

E o Moura teria posto os ossos na rua, se a própria Mme. Brizard não intercedesse por ele no dia seguinte, alegando que o pobre homem havia na véspera carregado um pouco mais no virgem.

Também foi só. Nunca mais, que constasse palpitou ali sombra de escândalo, e a famosa casa de pensão continuava a sustentar a melhor aparência deste mundo. Até se dizia à boca cheia que, por mais de uma vez, já se hospedaram verdadeiras celebridades, e eram todos de acordo que no Rio de Janeiro ninguém fazia espetadas de camarão tão saborosas como as da simpática irmãzinha do João Coqueiro, a Amelita. Uma verdadeira especialidade. Constava até que vinha gente de longe ao cheiro daqueles camarões.

A casa tinha dois andares e uma boa chácara no fundo. O salão de visitas era no primeiro.

— Mobília antiga, um tanto mesclada; ao centro, grande lustre de cristal, coberto de filó amarelo; três largas janelas de sacada, guarnecida de cortinas brancas, davam para a rua; do lado oposto, um enorme espelho de moldura dourada e gasta inclinava-se pomposamente sobre um sofá de molas; em uma das paredes laterais, um detestável retrato em óleo de Mme. Brizard, vinte anos mais moça, olhava sorrindo para um velho piano, que lhe ficava fronteiro; por cima dos consolos vasos bonitos de louça da Índia, cheios de areia até à boca.

Imediato à sala, com uma janela igual àquelas outras, havia uma gabinete, comprido e muito estreito, onde Coqueiro tinha a sua biblioteca e a sua banca de estudo. Via-se aí uma pasta cheia de papéis, um tinteiro e um depósito de fumo, representando o busto de um barbadinho; ao fundo, uma conversadeira de palhinha, encostada à parede, por debaixo de um pequeno caixilho de madeira com o retrato de Victor Hugo em gravura.

Seguia-se o aposento de Mme. Brizard e mais do marido, onde também dormia o menino César, que teria então doze anos; logo depois estava o quarto de Amelinha e da tal viúva histérica, Leonie, a quem a família só tratava por “Nini”.

Vinha depois a grande sala de jantar, forrada de papel alegre; nas paredes distanciavam-se pequenos cromos amarelados, representando marujos de chapéude- palha, tomando genebra, e assuntos de conventos, frades muito nédios e — vermelhos refestelados à mesa ou a brincarem com mulheres suspeitas. Um guarda-louça expunha, por detrás das vidraças, os aparelhos de porcelana e os cristais; defronte — um aparador cheio de garrafas, ao lado de outro em que estavam os moringues.

Ainda havia um corredor, a despensa, a cozinha, uma escada que conduzia ‘a chácara, outra ao segundo andar, e mais três alcovas para hóspedes, todas do mesmo tamanho e numeradas.

A numeração dos quartos principiava aí nesses três par continuar em cima. Em cima é que estava o grande recurso da casa, porque Mme. Brizard dividira todo o segundo pavimento em oito cubículos iguais; ficando quatro de cada lado e o corredor no centro. Os da frente davam janelas para a rua e os do fundo para a chácara. As paredes divisórias eram de madeira e forradas de papel nacional.

* * *

João Coqueiro, quando saiu do Hotel dos Príncipes na manhã do almoço, ia preocupado; o Simões, que caminhava à sua esquerda um pouco sacudido pelos vinhos, em vão tentou, repetidas vezes, puxá-lo à palestra; o outro respondia apenas por monossílabos e, na primeira esquina, despediu-se e correu logo para casa.

Ao chegar foi direito à mulher, dizendo-lhe em voz baixa, antes de mais nada: — Olha cá, Loló...

E encaminhou-se para o quarto. Mme. Brizard largou o que tinha entre as mãos e segui-o atentamente.

— Sabes? Disse ele, sem transição, assentando-se ao rebordo da cama. — É preciso arranjarmos cômodo para um rapaz que há de vir por aí Domingo.

— Um rapaz! Mas tu sabes perfeitamente que os quartos acham-se todos ocupados. Se tivesses prevenido... o n° 2 ainda ontem estava vazio...Mas quem é?

— Há de se arranjar, seja lá como for! Disse o Coqueiro.

— Mas quem é?...insistiu Mme. Brizard.

— É um achado precioso! Ainda não há dois meses que chegou do Norte, anda às apalpadelas! Estivemos a conversar por muito tempo: — é filho único e tem a herdar uma fortuna! Ah! Não imaginas: só pela morte da avó, que é muito velha, creio que a coisa vai para além de quatrocentos contos!...

Mme. Brizard escutava, sem despregar os olhos de um ponto, os pés cruzados e com uma das mãos apoiando-se no espaldar da cama.

— Ora , continuou o outro gravemente. — Nós temos de pensar no futuro de Amelinha... ela entrou já nos vinte e três!... se não abrirmos os olhos... adeus casamento!

— Mas daí ... perguntou a mulher, fugindo a participar da confiança que o marido revelava naquele plano.

(continua...)

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