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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

''Ó peito de amor! entranhas de piedade! como é que assim vos fechais para quem vos ama?... Oh! volvei para mim os vossos lindos olhos misericordiosos! Voltai a ter comigo, a sós, na minha cela, como dantes, quando eu era um dos anjos rubicundos do vosso trono de nuvens!... Tornai a ter comigo, Maria, cheia de graça!

"Se tínheis de abandonar-me e perder-me num segundo, para que então vos dei toda a minha existência de vinte anos, mais brancos do que a torre de David?... Se assim tinha de ser, amada minha, não valia a pena então conservar-me tão puro e tão cândido!...

"Maria! Virgem amorosíssima! vida e doçura' esperança nossa! se não quereis vir em meu socorro, matai-me! eu aqui estou a vossos pés, e não me levanta rei dos meus joelhos senão por um ar da vossa divina graça! ... "

E Ângelo, de olhos fitos na Virgem, esperava um milagre, esperava alguma cousa que lhe restituísse a sua antiga tranqüilidade de espírito.

Nada! A imagem parecia surda ao seu desespero de salvação.

"Oh! por piedade! por piedade, minha mãe querida! envia-me do vosso peito de amor a inspiração do meu resgate!" Nada! Nada!

Ângelo deixou cair o rosto para a terra; abandonou os braços, com as mãos entre os joelhos, e quedou-se pensativo.

Infeliz! infeliz!

Não era a primeira mãe que o enjeitada! ...

E as lágrimas de abandonado correram-lhe tristes pelo mármore das faces, e o mísero deixou-se levar de rastos pelas garras da sua dor imensa, para o inferno da sua desesperança sem consolo.

Foi despertado pela velha criada, que, depois de bater várias vezes, resolveu-se a entrar no quarto.

— Perdão, senhor vigário. Queira desculpar interromper as suas orações, mas...

— Fale, minha irmã...

— É que está aí uma dama toda vestida de negro e coberta por um longo véu, que deseja falar a vossa mercê...

— Uma mulher?... E não disse quem era?...

— Não quis dizer, senhor vigário.

— Bem, minha filha, faça-a entrar para a capela e diga a frei Ozéas que tenha a bondade de vir cá.

A criada saiu e o egresso apareceu pouco depois.

— Há, aí, disse-lhe o presbítero, uma mulher que me procura. Devo escutá-la, meu pai?...

— Que estranha pergunta, Ângelo!... Deves, decerto! É talvez alguma desgraçada que precisa de quem a conduza ao arrependimento. A consciência pura e bem apoiada na fé jamais teme as ciladas do inferno. Vai! Fala-lhe! E, se for uma pecadora, suplica a Deus, noite e dia, até conseguires o perdão para sua alma.

— Bem, meu pai...

E Ângelo afastou-se lentamente, tomando a direção da capela.

CAPÍTULO XVI

Diabo, mundo e carne

Ângelo aproximou-se vagarosamente da misteriosa mulher que o esperava na capela, e perguntou-lhe a que vinha.

Ela, cuja comoção se percebia, apesar do espesso véu que a ocultava da cabeça aos pés, respondeu indicando-lhe o confessionário. Ele encaminhou-se então para lá, sentou-se, e, com um gesto, convidou-a a que se ajoelhasse a seus pés.

O vulto tremia todo, quando vergou os joelhos e abaixou o rosto, para rezar entredentes o confiteor.

— Não se amedronte, minha pobre irmã... disse o presbítero com a voz amiga; não trema desse modo, que por mais fundas que sejam as chagas do seu coração? e por maior que seja o remorso da sua alma, a misericórdia divina há de chegar até lá, se o arrependimento já lhe abriu o caminho e franqueou as portas. Não se assuste, porque não é a mim que vai falar, é a Deus, cujo seio de amor e de bondade jamais se fechou uma só vez aos que sofrem e pedem a remissão das suas culpas. Vamos! Abra-me a sua alma de par em par. Confie-me as suas dores, que eu as farei minhas, e ajudá-la-ei a carregá-las até aos pés do nosso pai supremo!

A embuçada, em vez de responder às palavras do confessor, deixou cair a cabeça sobre os joelhos dele, e abriu a soluçar desesperadamente.

Era um pranto convulso e sem tréguas, que lhe agitava o corpo inteiro, e que menos parecia a dor silenciosa e triste dos arrependidos, do que a explosiva revolta de quem chora pela ausência de uma ventura sensual e terrestre.

Ângelo, por sua vez, estremeceu perturbado e tolhido de alheios sobressaltas. Daquela misteriosa carne de mulher que palpitava a seus pés, erguia-se um quente eflúvio, traiçoeiro e lascivo, que lhe entontecia a alma, um odorante e luxurioso vapor de estranhos vinhos que o enleavam. Dir-se-ia que aquelas lágrimas recendiam a volúpia e que aqueles soluços eram soluços de amor, chorados no sigilo de uma alcova.

Ele ergueu-se, a embuçada segurou-lhe as mãos, cobrindo-as de beijos apaixonados.

Ângelo quis fugir. Ela, com um gesto rápido, rejeitou o véu que lhe rebuçava as formas, e ali, no sagrado retiro daquela pobre capela de aldeia, surgiu a perigosa Alzira, a terrível condessa de gelo, mais pálida e mais sedutora do que nunca, assim humilde e triste sob a dura violência daquelas queixas de amor.

— Ó meu Deus!... balbuciou Ângelo de si para si, abaixando os olhos, como se estivesse defronte do demônio. Ó meu Deus, dá-me coragem! dá-me coragem!

E recuou alguns passos, estendendo o braço, como para isolar-se daquele abismo.

(continua...)

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