Por Bernardo Guimarães (1883)
Em um giráo firmado sobre quatro toscas e grossas forquilhas fincadas no chão, estava estendida a misera velha em cima de uma encherga de palhas de milho, tão esfarrapada e poida, que mais parecia um montão de lixo. Alli agonisava ella ha dous dias como um esqueleto embrulhado em andrajos asquerosos. Ao pé della á cabeceira o unico movel que existia, era um tamborete estropiado, sobre o qual se via uma tosca tigella de barro, vazia ! . . . Nem uma gotta de agua alli havia para a misera enferma ! . . . Em torno pelo immundo e estreito cubiculo não se viam sinão alguns trapos asquerosos espalhados pelo chão. A estes contristadores e repugnantes accessorios, si juntarmos a figura cadaverica e a physionomia repulsiva da velha, teremos um painel, que nenhum pincel humano é capaz de reproduzir em toda a sua lugubre e sinistra realidade. Para receber o hospede desconhecido, que tão inesperadamente a vinha visitar, a enferma se reanimou um pouco, e conseguio levantar algum tanto sobre um montão de roupas velhas, que lhe servião de travesseiro, o busto livido e descarnado.
A magreza, a velhice e a doença ainda mais fazião resaltar as linhas duras e angulosas de sua physionomia ignobil e repellente. Os olhos pequenos e extinctos mal se podião divisar por debaixo das arcadas superciliares proeminentes e ossudas. O que mais porém contribuia para dar-lhe ao semblante uma expressão de fealdade, que incutia terror e repugnancia, erão os dentes, que ella ainda os tinha todos, grandes, salientes e amarellos. Como seus labios finos e mirrados como duas tiras de velho per o•aminho, contrahidos pela macilencia e pela febre, não podendo serrar-se, conservavão-se entre-abertos, um certo sorriso funebre e sinistro parecia estar fixo sobre sua bocca agonisante.
Si não fosse o poderoso incentivo, que alli o levava, Conrado teria recuado diante de tão lastimoso e repulsivo quadro, e deixando uma generosa esmola á cabeceira da enferma ter-seia retirado immediatamente, Mas era instigado
por um motivo imperioso, pelo qual affrontaria mesmo todos as tramas e perigos, por mais temerosos que fossem.
— O senhor, quem quer que é, póde chegar, — disse com voz rouca e arquejante a infeliz velha, vendo Conrado parar ao limiar da entrada do quarto. — Não tenha susto ; eu sou uma pobre velha desgraçada, que em castigo de meus pcccados aqui vivo a penar desamparada por todos, e morrendo aos poucos no fundo desta cama. .. Senhor meu, tenha piedade desta pobre velha... foi Deus, quem o mandou aqui... Ha dous dias, que aqui não vem creatura viva nem para me dar um golo de agua pelo amor de Deus.
Apezar do exterior repugnante da velha, e do crime inqualificavel, de que era responsavel para com elle, Conrado não poude deixar de apiedar-se do estado de profunda miseria e desamparo, em que jazia aquella desg'raçada creatura, e exprobrou no intimo d'alma a dureza dos vizinhos que tão deshumanamentc assim a deixavão perecer.
— Sim, minha velha, respondeo elle avizinhando-se do leito ; — eu me compadeço sinceramente de sua disgraça, e é por isso que venho hoje aqui com disposição de procurar allivio a seus soffrimentos, e prestar-lhe todos os soccorros de que necessitar.
— Ah ! meu senhor ! Deus lhe dê muita saude e largos annos de vida ! Eu estou já com os pés na sepultura, e bem pouca cousa posso precisar neste mundo. O de que mais preciso é que Deus me perdoe os muitos e enormes peccados que commetti em minha vida. Ah ! meu Deus ! . . . quem me dera um padre para me confessar !
— Por esse lado socegue seu coração ; hoje mesmo lhe hei de trazer um padre, e estou prompto a fazer tudo o mais que a senhora exigir para allivio de seus soffrimentos e socego de sua consciencia.
Oh ! meu senhor ! .., meu bemfeitor ! . . . Deus lhe dará o pago por essa obra de caridade.
— Sim, mas quero tambem da senhora uma recompensa, que lhe é muito facil, e da qual depende todo o socego e felicidade de minha vida. Quero lhe pedir um favor. ..
— A mim, meu senhor ! . . . que favor l! posso eu fazer, eu pobre velha desvalida, com os pés na sepultura?...
— Eu lh'O vou dizer já sem mais rodeios, porque não devemos perder tempo. A senhora commetteo na sua vida um acto altamente criminoso, cujo segredo não póde levar para a sepultura sem causar a desgraça de toda a minha vida e a da innocente victima desse acto execrando. Não se lembra ?
— Ah ! meu Deus eu pratiquei tantas acções ruins qual dellas será ! . . .
— Eu lhe vou avivar a memoria. Não se lembra de que na noite de vinte e quatro para vinte e cinco de novembro, fazem agora justamente quatorze annos, — amanheceo exposta na porta de sua casa uma menina recém-nascida?...
Oh ! si me lembro ! meu Deus ! meu Deus ! e com que remorsos ! . . . é por essa e por outras muitas maldades, que pratiquei, que hoje me acho aqui penando desta maneira, ai ! meu Deus, e sem ter um confessor !...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.