Por Franklin Távora (1879)
Maurícia não teve coragem para derruir com algumas palavras o risonho castelo que o poeta levantara no coração.
“Não serei eu, disse ela consigo, repassada em amargura, não serei eu quem destrua este grande amor, esplêndida ilusão, que é obra minha; que eu própria gerei.”
Obedecendo a esta ordem de idéias, julgou prudente ocultar a verdade; e o fez, dando nova direção ao pensamento capital da prática encetada por Ângelo.
— Senhor, eu não posso deixar de agradecer-lhe tanta solicitude.
— Por que não dá o devido nome ao que chama de solicitude? Por que não lhe chama antes de amor?
— Tem razão. Posso eu ser indiferente a estas demonstrações do amor, que me vota? Este amor me cativa. Dá-me prazer e orgulho. Nunca tive quem manifestasse tão afervorado afeto por mim. Encontro, enfim, a felicidade no meio da maior desventura. Não o duvide: a desventura é o meu estado atual, não obstante a grandeza que seu coração me oferece, e que é um tesouro que não tem preço. Mas o que o senhor propõe é atualmente impossível. Para escapar a companhia do meu marido há meios mais convenientes do que a fuga. Martins não lhe disse que eu lhe falara de divorciar-me por justiça.
— Neste sentido, nada me disse; mas para que há de pedir a senhora aos tribunais a separação que já uma vez levou a efeito, e se pode realizar agora mesmo sem intervenção de ninguém?
— Não concorramos para um resultado que a precipitação pode tornar fatal.
— Não há precipitação. Uma carruagem poderá vir em menos de meia hora receber a senhora e D. Virgínia, e conduzi-las para o lugar do embarque. Ao amanhecer, estaremos longe, e dentro de trinta horas poderemos aportar no cantinho feliz, onde tenho meus pais que hão de receber-nos com o mais vivo contentamento, como se todos fôssemos seus filhos.
Tinham chegado a certo ponto, onde a estrada formava um ângulo. Havia aí uma grande árvore. A estrada estava deserta. As sombras da noite estendiam-se rapidamente. A paisagem parecia lançar nos espíritos vagas confianças, misturadas de pavores — contradição gerada pela luz que fugia e pelas sombras que adiantavam.
Diante dessa natureza, que era uma incitação muda, posto que irresistível, ao que as paixões oferecem veemente e embriagante, Ângelo parou tomado de delicioso sentir.
Pegando as mãos de Maurícia, pousou nela os olhos que despediam grandes brilhos azulados como as estrelas. Maurícia estava pálida e abalada. Nada disse. Recebeu, não sem prazer, na face o fulgor dessa inspeção, que o bacharel parecia querer levar-lhe no íntimo da alma.
— Por que não aceita os meus serviços? Que pretextos são estes? Enquanto eu me sinto capaz de levar a efeito impossíveis para tê-la comigo, a senhora levanta escusas frívolas. É manifesta a causa de tais escusas. Cuidei que lhe merecia um afeto, mas o que a senhora sente por mim é simples curiosidade. Quer ver talvez, até onde irá o delírio de uma alma que teve a desgraça de se deixar vencer pelo esplendor de sua beleza.
Maurícia demorou-se um momento a dar-lhe a resposta. Parecia ter a voz presa e a respiração opressa.
— Como é injusto! o disse enfim. Não são escusas frívolas que levanto, são justas razões que aconselham a sermos prudentes; Que idéia daríamos de nós, se fugíssemos assim? E por que havemos de fugir? O senhor já refletiu maduramente na grave situação em que ficaria Virgínia, se realizássemos semelhante loucura?
— Chama a isso de loucura? - inquiriu Ângelo, sentindo as mãos geladas e trêmulas.
— E que nome se deve dar a tão arriscado plano?
— Diz a verdade - tornou o bacharel. Que sou, eu, senão um louco? Sinto que a razão se me desvaira; mas é à senhora que devo tal desvairamento; devo-o aos seus olhares magnéticos, à majestade das suas graças, ao brilho do seu talento. A senhora escravizou-me, e agora quer cortar o vôo da paixão que é obra sua, e que de suas mãos recebeu o impulso, que me atira para o imprevisto! Seja cordata e justa. A senhora deve acompanhar-me nesta vertigem, que pôs em minha alma, e cuja responsabilidade lhe pertence em sua maior parte.
— Acompanhá-lo-ei oportunamente. Agora, não. É impossível. Não vejo nisto indício de desamor. Como eu seria feliz, se pudesse ser desamorosa! Não duvide do meu amor; duvide da oportunidade das circunstâncias; duvide da conveniência deste modo de resolver uma dificuldade que é um laço de ferro, que me prende por toda a vida àquele que a fatalidade pôs no meu caminho para apavorar os meus sorrisos, e afugentar a chuva de flores em que se banhava a minha mocidade. Não duvide de mim. Escute. As minhas circunstâncias são melindrosas. Quem sabe o que neste momento não se estará pensando a meu respeito ao notar-se a minha ausência? Faço um apelo ao seu critério. Entreguemos ao futuro os nossos destinos. Terá coragem o senhor para proceder de modo diferente. Não há de ter. Volte à sua casa. Teremos ocasião de nos entendermos sobre este assunto.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.