Por Bernardo Guimarães (1872)
O delíquio foi passageiro; durou apenas alguns instantes. Com o coração ralado de angústia o mancebo foi procurar sua mãe, a ver se debaixo da asa maternal poderia encontrar abrigo contra os rigores inexoráveis da autoridade paterna, e algum alívio e conforto às amarguras de sua alma.
Achou de feito palavras de consolação e conforto nos lábios maternos; mas se a, mãe o tratou com menos rigor e aspereza, todavia a sua resolução de fazer Eugênio tomar ordens sacras não era menos inabalável que a do pai. A cena fatídica da cobra enleada na Margarida estava altamente gravada em seu espírito, e a senhora Antunes estava intimamente persuadida de que aquela serpente era o demônio, que viera insuflar no seio de Margarida o espírito maléfico para tentar seu filho, e que somente o hábito sacerdotal podia preservá-lo do caminho da perdição.
As doces palavras, as afetuosas exortações e conselhos da mãe trouxeram momentâneo lenitivo às amarguras do filho, mas não conseguiram desvanecer a nuvem sombria, que lhe envolvia o espírito e lhe pesava sobre o coração.
O sopro da brisa matinal pode varrer a névoa ligeira que touca o cabeço da montanha, mas não o vulcão carregado que traz no seio a tempestade.
CAPÍTULO XIV
Eugênio passou uma noite febril entre cruéis insônias e ansiados pesadelos. Mal despontou a primeira alva do dia levantou-se e pôs-se à janela.
O dia levantou-se cheio de serenidade e esplendor. O sol que surgia por detrás das colinas do levante coroadas de arvoredos, brilhando através da ramagem, orlava o horizonte como de uma rede de ouro. Do lado fronteiro, em uma encosta longínqua, os troncos vetustos, que o machado respeitou aqui e acolá no meio de um vasto roçado, verberados pelos primeiros raios do sol pareciam colunas de bronze, que ficaram em pé no meio dos escombros de um templo derruído. Vapores diáfanos coloridos pelos fogos da aurora, erguendo-se da valada e despregando-se das colinas, dispersavam-se nos ares como pétalas de rosa que uma virgem desfolhasse às brisas da manhã. Os arbustos da vargem recamados de flores balanceavam-se brandamente ao sopro das aragens, e sacudindo da copa orvalhada uma chuva de pérolas abandonavam às auroras matinais as primícias de seus perfumes. Bandos de papagaios e periquitos garrulando alegremente atravessavam o espaço azul como nuvens de folhas verdes levadas pelo vento. Em derredor da casa também tudo era vida, prazer e animação. Tudo acordava pulando de alegria e de amor ao primeiro beijo do sol esplêndido do céu americano. Cada árvore era uma orquestra de pios, trinados e gorjeios, onde o sabiá, o gaturamo, o pintassilgo e outros mil passarinhos pareciam disputar entre si a palma da harmonia.
A viração trazia dos pomares aromas inebriantes de flores de laranjeira, de maracujá, de jambo e de jasmim, e do mato os suaves eflúvios que destilam uma multidão de plantas balsâmicas e flores sem nome, que vegetam à sombra de nossos bosques.
Entretanto, nessa hora de magia, de prazer e de esplendores, em que a terra parecia sorrir-se para o céu, que a envolvia em ondas de luz tépida e serena, só Eugênio estava triste, sombrio e abatido, só ele pendia para o chão a fronte esmorecida, como a planta mimosa que a geada crestou, e a quem o calor vivificante do sol, nem o beijo da brisa matinal pode mais reerguer o colo desfalecido.
O olhar do moço enfiava-se imóvel pelo longo do vale, que acompanhando o córrego entre dois espigões ia-se perder no pitoresco vargedo, em que se achava a casa de Umbelina. Um boleado da colina lhe encobria a casa desta, e apenas lhe acordavam n'alma tão suaves recordações, agora amarguradas pelo fel do presente.
Seu olhar estava fito sobre esses topes, sua alma conversava com eles, e lhes murmurava um doloroso adeus.
Largo tempo esteve ali Eugênio na mesma posição, mergulhado nas mais acerbas e pungentes reflexões. A energia dos sentimentos havia despertado com extraordinária precocidade na alma do mancebo, que apenas púbere já sentia fundamente todos os violentos transportes da paixão, todos os seus inefáveis gozos, e raladoras angústias.
Ao sair dali, Eugênio foi direito procurar sua mãe.
— Minha mãe, não poderei ao menos hoje ir à casa da tia Umbelina despedir-me dela e de Margarida? Sabe Deus se não será a última vez que tenho de vê-las!...
— Não fales assim, meu filho; Deus há de permitir que as veja ainda por muitos e muitos anos
— Não sei, minha mãe, mas...
— Mas o que queres lá fazer? temos muito que arrumar para a tua viagem, que é amanhã sem falta. Eu te desculparei para com elas...
— Oh! minha mãe! temos muito tempo para isso. Eu não me demorarei mais de uma hora, meia hora mesmo, se Vm. quiser. Tenho de me ir embora por seis ou sete anos, ou mais... talvez para sempre, e me ficará um grande prazer se lhes puder dizer adeus.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.