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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

Elias, enfiou. Não podendo ficar mais pálido do que estava, tornou-se verde.

- Falsa! repetiu com uma voz que lhe saía do coração, e mal passava pelos lábios.

- Falsa, sim senhor; se duvida chamemos o patrão.

Não foi preciso chamá-lo; ele vinha entrando nesse momento pela loja.

- Oh! bom- dia, amigo; como passou? levantou-se cedo! então, por onde andou? andou matando saudades? decerto ainda não almoçou? passou melhor do seu incômodo de ontem?

O pobre moço naquele momento tinha talvez mais vontade de enforcar-se do que de responder àquela chusma de perguntas com que seu hóspede à queima- roupa o obsequiava.

- Já nada sofro; estou bom, respondeu Elias em tom breve. Apresentei esta nota a seu caixeiro para ma trocar, e disse-me ser falsa. Veja.

- Falsíssima! exclamou o negociante, depois de examinar a nota um momento. São notas falsas procedentes da Bahia. Há muito tempo o comércio está avisado, e o governo já tem expedido as mais terminantes ordens e tomado medidas enérgicas para descobrir os moedeiros falsos, e consta que as pesquisas feitas vão obtendo resultado.

- Bem! vou ver outra, interrompeu bruscamente Elias; e tirou da carteira uma nota de 50$000. E esta? também será falsa?

- Ainda mais falsa do que a outra, se é possível, exclamou o negociante, apenas olhou para a nota. Ah! meu caro senhor Elias, como é que foi deixar-se embaçar por essa maneira? . . .

- Falsa! falsa! . . . deveras? ! . . . murmurava o moço com voz rouca e abafada.

- É o que lhe digo, meu amigo; ninguém aqui na Bagagem dará cinco réis por qualquer dessas notas.

- Em que mundo andei eu, pois, meu Deus! ! meu Deus! estou perdido! perdido para sempre!

E, atirando-se sobre um tamborete, que estava perto do mostrador, apertava convulsivamente a cabeça entre as mãos.

- Perdido por tão pouca coisa? por uns 70$000! o caso não é para tanto, meu amigo.

- Prouvera ao céu fosse só isso! . . . soluçou Elias com voz apenas inteligível.

- Como diz? . . . então não é só isso? . . .

Elias já não ouvia mais; estava aniquilado debaixo da nova e horrível catástrofe que acabava de fulmina-lo.

Traído em seu amor, vira na véspera derrocado em um momento o formoso castelo de suas esperanças, construído com tanto enlevo nos sonhos de dois anos de inquietações e trabalhos. Quando ia colocar a pedra do remate na cúpula do edifício, ei-lo que de súbito se desmorona até os fundamentos. Restava-lhe ainda a fortuna, consistente em algumas dezenas de contos, que à força de vontade, inteligência e atividade adquirira no Sincorá.

- De que me serve este dinheiro? dizia ele na véspera. À força de muito querer e muito trabalhar eu o ganhei por amor de Lúcia e para Lúcia. Agora, que Lúcia me abandona, eu o veria queimar-se com a mesma impassibilidade com que vejo arder este cigarro.

Mas pensava o mancebo que de feito no outro dia, a uma só palavra, toda aquela riqueza ia esvaecer-se como o fumo! mas ah! no momento da catástrofe, essa impassibilidade com que contava também se esvaeceu em presença da cruel realidade. Quase todo o dinheiro que trazia do Sincorá era falso; consistia em notas do mesmo padrão e valor daquelas que acabava de apresentar. Estava pobre como dantes. O rochedo, que acabava de conduzir até o cimo da montanha em dois longos anos de fadigas e perseverantes esforços, acabava de rolar no fundo dos abismos.

Era preciso ter na alma uma tríplice couraça de estoicismo para poder suportar impassível aqueles dois rudes golpes, desfechados um após outro pela mão da fatalidade. Elias, posto que não fosse das almas mais fracas, sentiu-se humilhado, acabrunhado e recalcado nesse antro de desesperação, para sair do qual só há uma porta- o suicídio.

Elias sentia viva necessidade de desabafar-se, de contar a alguém seus infortúnios; parecia-lhe que, se não o fizesse, se lhe rebentaria o coração. Mas na Bagagem não tinha um só amigo de confiança a quem abrisse sua alma, a não ser o velho Simão. Esse, Elias não sabia por onde andava, e ninguém lhe poderia dar notícias dele. Tinha, pois, de concentrar em si mesmo a tempestade, que ameaçava romper-lhe o coração.

Todavia não lhe era possível dissimular a seu hóspede o horrível revés por que acabava de passar, vendo em um instante reduzida a fumo a fortuna que à força de tanto trabalho e perseverança tinha sabido adquirir, no espaço de pouco mais de ano.

(continua...)

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