Por Bernardo Guimarães (1872)
Portanto compreende-se como lhe caiu a sopa no mel, quando Joaquim Ribeiro, francamente e sem rodeios, lhe declarou, que o mandara chamar com o único fim de comunicar-lhe, que era seu desejo efetuar com a maior brevidade possível o casamento dele com sua filha. O rapaz não cabia na pele de contente, e não pôde disfarçar aos olhos do tio sua alegria infantil e grotesca; estava como embriagado; beijou a mão do tio, e derretendo-se em protestos de gratidão e amizade tais parvoíces soltou, representou tantas farsas, que faziam sorrir o bom do velho, se não tivesse a alma tão carregada de graves e sombrios pensamentos.
Paulina não apareceu a seu primo senão muito tarde, à hora do jantar; desculpou-se com suas costumadas enxaquecas e indisposições; a coitada estava efetivamente mais pálida e desfeita que nunca. O primo desta vez já mais ousado não cessou de atormentá-la com um chuveiro de obséquios e galanteios impertinentes, a que a moça respondia com uma frieza e mesmo com um ar de displicência, que em vão se esforçava por dissimular. Só a nímia simplicidade de Roberto poderia não perceber quanto ela se achava constrangida e contrariada. É que no coração da infeliz dava-se então uma terrível luta, e começava a sentir, quanto era pesado o sacrifício, a que por condescender com seu pai se havia sujeitado.
À tardinha Paulina, a despeito da advertência ou do pedido de seu pai, foi, como tinha de costume, sentar-se debaixo dos ramos da grande gameleira do curral, sobre a mesa do carro. Como para disfarçar o motivo, que ali sempre a conduzia, levava um livro, que às vezes abria, mas nunca lia; a infeliz tinha muito que ler no livro negro de seu coração. Aquele lugar tinha para a alma de Paulina um doloroso encanto; ela o visitava como a mãe, que volta de contínuo ao túmulo do filho querido que perdeu, ou como a rola, que pousa arrulando gemidos de saudade sobre os destroços do ninho, donde o gavião arrancou-lhes os tenros filhotes.
Estava-se no mês de agosto; o sabiá cantava tristemente; abafado entre vapores, o sol sem raios pendia vermelho e abraseado sobre os últimos espigões, cujas formas envoltas em um véu fumacento se iam apagando ao longe como as sombras de um painel desbotado pelo tempo. Nem uma brisa agitava o ambiente perfumado e morno, e melancólico silêncio pousava sobre as solidões.
Havia um ano, que naquele mesmo lugar, em uma serena e silenciosa tarde como aquela, Paulina tinha ouvido sua sentença de morte dos lábios daquele mesmo, que pouco antes lhe tinha salvado a vida.
Paulina olhava para o caminho da Uberaba... dava o último adeus às suas esperanças, e dentro da alma como que lhe sussurrava um hino confuso, mais dorido e fúnebre como o eco, da campa que tomba sobre um cadáver.
Quando mais absorvida se achava em seu angustioso cismar, eis que se lhe apresenta em frente o rosto rubicundo e folgazão do seu bom primo, do seu noivo. Aquela aparição inesperada, que vinha quebrar de modo tão abrupto e cruel o fio de seus dolorosos pensamentos, causou-lhe a mais desagradável impressão, o mais horrível choque que imaginar-se pode. Mas forçoso lhe era dissimular.
– Prima de meu coração, – disse-lhe Roberto com toda a meiguice de que era capaz, – o que está fazendo aqui tão sozinha?!... vamos passear, e não aqui assim triste como uma juriti de asa quebrada.
– Ora primo!... respondeu ela esforçando-se por sorrir. – Estou tomando o fresco... faz tanto calor: e eu estou com tantas dores de cabeça.
– É do estômago, prima? eu não lhe disse que tomasse chá de losna?... a mana Josefina também costuma ter disso, e diz que para isso chá de losna é um porrete...
– Hei de tomá-lo logo ao deitar...
– Pois tome e verá... mas, mudando de conversa... a prima já sabe de uma?... ora também a quem vou eu perguntar!... decerto já sabe.
– De quê, primo?
– Ora! inda pergunta!.., pois não sabe para que seu pai mandou-me chamar?...
– Eu não...
– Ora deixe-se disso;... pois ele não lhe disse nada?...
– A respeito de quê, primo?...
– Ande lá! a senhora sabe bem; está se fazendo desentendida.
– Ah! pode ser... me parece que trata-se...
– De quê, prima? fale...
– Ora! também o primo sabe muito bem, e para que hei de ser eu a primeira a falar.
Então a prima quer... não quer?
– Casar-me com o primo, não é isso?... para que havemos de estar com mistérios, disse Paulina impaciente por terminar aquele incidente, que a mortificava.
– Isso mesmo, prima... quer, não quer?
– Quero, primo, porque meu pai assim o quer, e é meu dever obedecer-lhe.
– São todas assim; – pensou Roberto lá com os seus botões – estão mortas por se casarem, e sempre de boca dura. E sabe, continuou ele em voz alta, que seu pai quer que isso seja quanto antes?
– Sei tudo, meu primo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.