Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
“O príncipe regente, atendendo à representação que em nome do povo o Senado da Câmara acaba de ter a honra de dirigir-lhe, respondeu pelo modo seguinte: – Como é para bem de todos, e felicidade geral da nação, diga ao povo que fico.”
O Fico era a revolução gloriosa da independência do Brasil, revolução que estava já acesa nos corações dos brasileiros; que se dirigia, encaminhava e desenvolvia nas lojas maçônicas, nos clubes dos patriotas e até no convento de S. Antônio, na cela de frei Sampaio, que se fazia já sentir nas ruas e nas praças, onde o povo se reunia exaltado, e que, enfim, rebentava dentro do próprio palácio adotada pelo príncipe, que tinha de soltar o brado independência ou morte nas margens do Ipiranga.
Do dia 9 de janeiro em diante, a causa da revolução nacional contou os dias por acontecimentos e por triunfos, e no palácio imperial não se trabalhava menos por ela do que nos clubes. Quando o príncipe chegou à margem do Ipiranga, a 7 de setembro, em São Paulo, já tinha passado o Rubicon no Rio de Janeiro.
A 12 de outubro de 1822, o príncipe regente foi aclamado imperador constitucional e defensor perpétuo do Brasil na capital do novo império; mas a essa grande e brilhante solenidade quase que ficou estranho o palácio imperial.
A aclamação teve lugar no campo que então se chamava de Santana, e que estava coberto de povo e tropa. O imperador mostrava-se radiante, na varanda do palacete que havia nesse campo. A chuva caía com violência, mas apesar dela veio o imperador a pé e embaixo de pálio, seguido por toda a corte vestida de gala e pela multidão entusiasmada, para a capela imperial, onde foi entoado o Te-Deum em ação de graças pela regeneração política do Brasil e aclamação do seu imperador.
Com água às vezes pelos joelhos, esse préstito magnífico seguiu pela rua dos Ciganos, praça da Constituição, rua hoje do Teatro, largo de S. Francisco de Paula, rua do Ouvidor e rua Direita até à capela. Com a chuva do céu, caíam ao mesmo tempo enchentes de flores sobre o pálio, e as aclamações estrepitosas não deixavam ouvir o ruído da tormenta.
Entre os entusiastas, que eram todos, tornou-se notável uma turma de mancebos, alguns dos quais ainda vivem hoje. O imperador os vira à porta do palacete, sorrira-se encontrando-os à entrada da rua dos Ciganos, saudara-os, vendo-os cada vez mais entusiasmados, junto ao teatro de São João, que logo depois se chamou de S. Pedro, e enfim, esbarrando de novo com eles à porta da capela, parou um instante e disse-lhes:
“Os senhores tiveram hoje o dom da ubiqüidade. Foi milagre do patriotismo.”
No dia 1º de dezembro de 1822, efetuou-se o ato solene da sagração do primeiro imperador do Brasil; e então ficaram gravadas no palácio imperial lembranças faustosas desse notável acontecimento. Foi no palácio publicada a lista dos primeiros agraciados com a ordem imperial do Cruzeiro do Sul, primeira ordem americana, instituída nesse dia, e com a qual o imperador agraciou muitos dos mais notáveis propugnadores da independência. Antônio Carlos, Cipriano Barata, o Sr. Montezuma, hoje Visconde de Jequitinhonha, e alguns outros mereceram essa bela distinção, não ficando também esquecido o benemérito Capitão-mor José Joaquim da Rocha, cujos serviços à causa da independência foram tão relevantes, como grande a sua modéstia. O Sr. D. Pedro I, ao entrar no saguão do palácio imperial na manhã daquele dia, viu, entre os cidadãos que em número extraordinário se achavam ali, um filho do Capitão-mor José Joaquim da Rocha, e parando diante dele, perguntou-lhe alegremente:
– Seu pai já chegou ao paço?
– Já aí está, senhor – respondeu o mancebo.
– Pois se o encontrar primeiro do que eu, diga-lhe que foihoje agraciado com a dignitária da imperial ordem do Cruzeiro do Sul, como prêmio justo e devido a um dos patriarcas da independência da nossa pátria.
O povo respondeu com um viva estrepitoso às palavras do imperador, que assim honrava o cidadão patriota.
Do fim de 1833 a 1834, o palácio imperial foi durante algum tempo habitado por S. M. o Imperador, ainda menor e por suas augustas irmãs. A mudança de sua residência, da Quinta da Boavista para o palácio da cidade, traz-nos à memória dias tormentosos e uma página triste de nossa história.
Os excessos do partido restaurador, que perturbava a ordem e conspirava contra o governo, provocaram excessos ainda mais lamentáveis do partido dominante e do próprio governo. Às maquinações e violências dos restauradores respondeu o governo, deixando, em dezembro de 1833, as turbas mais ardentes e menos escrupulosas do seu partido atacarem impunemente a Sociedade Militar, que era a representante dos restauradores, quebrarem e destruírem toda a mobília e, em seguida, levarem igual destruição às tipografias, de cujos prelos saíam jornais infensos à política que então dirigia os negócios públicos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.