Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

É verdade que no dia seguinte ao da sua chegada, Eugênio lhe fallára sobre aquelle assumpto; logo, porém, que ouvira suas primeiras palavras annunciadoras de opposição e de repugnancia, não só deixara de insistir, mas ainda lhe affirmára que não se affligia com isso.

E sua mãi, abraçando-o, lhe dissera ao mesmo tempo: « Não seremos nós, meu filho, que exigiremos jamais de ti um sacrifício doloroso : um casamento que te repugna, não poderia fazer a tua felicidade, que é tudo quanto no mundo desejamos. »

Luciano receiára também ser obrigado a entrar em estreitas relações com a familia de Guilherme, e ter portanto de cumprir para com Dionysia pelo menos os deveres de cortezia; e no entanto apenas foi com seu pai visitar uma vez aquelle bom amigo, e ainda nessa oceasião não encontrou em casa nem Dionysia nem sua mãi; depois um incommodo soffrido por esta impedia as visitas que ella poderia fazer á sua amiga, a mulher de Eugênio, que pela sua parte nunca levou o filho em sua companhia quando ia á fazenda de Guilherme.

Por outro lado, o pai de Dionysia encontrandose muitas vezes com Luciano, jamais deixou de tratal-o com estima, e mesmo com carinho ; mas também nunca lhe dirigio uma unica palavra que fizesse lembrar a idéa daquelle mento, que tão afagada tinha sido pelo sentimento generoso da amizade.

A principio Luciano applaudio-se desta situação pacifica, que elle attribuio a uma victoria brilhante alcançada pela força da sua vontade : em breve, porém, começou a sentir-se fatigado de uma paz tão inalterável, e contrariado por não ver uma só demonstração de sentimento pela sua decisão que destruirá um plano de futuro.

Em seu orgulho estava convencido de que pelo menos o pai de Dionysia devia mostrar-se exasperado por não ter podido felicitar sua filha dando-lhe um noivo de tanto merecimento.

O contentamento ou a serenidade das duas familias pareceu-lhe indifferença, e a indifferença amargou-lhe como um insulto.

O estudante incommodou-se, e principiou a aborrecer-se das férias que estava gozando; queria ouvir dizer que Dionysia estava furiosa contra elle, e ninguém lhe fallava delia ; desejava que seus pais de novo se esforçassem por obrigal-o a casar com a tal noiva da infancia, e seus pais mostravam-se absolutamente esquecidos de semelhante projecto.

Os dias foram parecendo a Luciano pesados e tardos, e o máo humor do estudante tornou-se bastante sensível para que um dia seus pais lh'o fizessem notar, sorrindo.

Esse sorriso foi um tormento novo ; Luciano suspeitou que seus pais adivinhavão a causa do seu mal-estar, e revoltando-se contra essa idéa, que offendia o seu orgulho, resolveu-se a ostentar uma alegria que estava longe do seu coração, e a procurar no movimento e no trabalho uma distracção.

Ganharão com isso os doentes pobres das circumvizinhanças, a quem Luciano prestou com ardor os soccorros da sua sciencia; e com isso perderão os veados e as pacas dos bosques vizinhos, que forão perseguidos pelo estudante, que se tornou em um novo e infatigavel Nemrod.

Mas, pobre orgulhoso! a idéa de Dionysia, a lembrança e o nome da Sra. D. Dionysia forão perseguil-o no meio das suas nobres occupações de medico dos pobres e das suas caçadas fatigadores.

Na caça, as longas horas passadas em solidão na espera erão forçosamente aproveitadas pela imaginação dominadora, irresistivel, que traçava aos olhos do estudante quadros quasi nunca verdadeiros, e onde sempre apparecia a senhora dona Dionysia zombando dos desprezos do estudante, e essa imagem chegava ás vezes a ser formosa, e podia sem inconveniente parecer tal, visto que Luciano já nem de leve se lembrava dos traços physionomicos da sua antiga noiva.

Nas visitas dos doentes pobres a perseguição da senhora dona Dionysia tornou-se muito mais séria: parecia haver um accordo geral para recommendar a filha de Guilherme ao coração de Luciano.

Uma vez, o estudante encontrara abatido pela enfermidade um pobre velho a quem a miseria privava de todos os meios de tratamento, e quando no dia seguinte, ao fazer-lhe a segunda visita, lhe levava todos os soccorros precisos, achou o velho em um excellente leito, e sem mais experimentar a menor privação.

Quem precedera o estudante naquella obra de caridade?... Dionysia.

Uma infeliz e pobre viuva, que tinha perdido havia dous mezes seu marido e único protector, morrera dando á luz uma menina. Luciano chegara tarde para soccorrer a mãe, e nem pudera depois cuidar da recemnascida, porque esta tinha sido logo adoptada... por Dionysia.

Na humilde cabana a que chegava, o estudante, emquanto procedia cuidadoso ao exarne de um doente, ouvia perto o nome de Dionysia, abençoado pelos rudes, mas agradecidos lavradores, que a chamavão.

— O anjo dos pobres.

Dominando-se ainda, o estudante mostrava-se indifferente aos elogios que ouvia; nunca dirigia uma pergunta sobre Dionysia; mas a sua imaginação recolhia pressurosa tudo quanto a voz da gratidão espalhava a respeito delia.

Um dia perguntárão-lhe :

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2526272829...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →