Por José de Alencar (1878)
Uma manhã, Amália mandou mudar a disposição da mesa, colocando seu talher na outra cabeceira, para não ter o sol de face. Veio o marido, que tomou maquinalmente o seu lugar costumado. Pouco depois, reparando na alteração, lançou à moça um olhar de espanto; e saiu precipitadamente da sala, onde não voltou esse dia, dando-se por incomodado.
Amália adivinhou que era o lugar de Julieta na mesa. Hermano, não querendo que ela o ocupasse, lhe havia destinado outro. Daí a sua contrariedade. Não obstante a impressão que lhe causou o fato, a moça procurou disfarçar, e convidou o marido para jantarem nessa tarde à sombra das mangueiras.
O Abreu por seu lado continuava a ser para ela o mesmo homem de pau do primeiro dia. Em quinze dias, ainda não lhe tinha dirigido um olhar, nem uma palavra. Com a sua máscara impassível, isolava-se dela inteiramente.
Durante a viuvez de Hermano, foi o velho quem governou a casa, onde por seu intermédio as ordens de Julieta eram ainda executadas, como no dia em que ela as dera. Os outros criados obedeciam-lhe como a um chefe; e tinham-lhe senão mais respeito, decerto que mais temor do que ao amo. Era este que os pagava; mas era aquele que os alugava e os despedia.
A presença da nova dona da casa não alterou esse regime. Era preciso que alguém mandasse, e o ex-furriel levado pelo hábito ia determinando o serviço como dantes. Assim, quando Amália quis ensaiar a sua autoridade doméstica, achou uma resistência muda, mas tenaz.
Se mandava mudar um traste, ou fazer alguma leve alteração no arranjo da casa, ninguém lhe opunha a menor observação. Mas no outro dia as coisas voltavam ao estado anterior. Indagava a razão, os criados respondiam repetindo a palavra de Abreu: “É a ordem”. Isso queria dizer que assim se havia feito por vontade de Julieta.
Amália retraiu-se para evitar conflitos que a obrigariam a um ato de rigor. Muito a afligiria se a sua união com Hermano desse causa à expulção do velho criado, que era já um amigo da casa. Ela tinha bom coração; e lembrava-se de que o Abreu fazia aquelas coisas pelo muito amor à sua filha de criação.
Todavia, quando pensava na sua posição, não podia dissimular que era naquela casa uma intrusa, que estava ocupando o lugar de outra, não só nos atos da vida doméstica, mas também no coração do marido. A cada instante a realidade fazia-se, para mostrar-lhe que era demais ali.
D. Felícia não tardou em aperceber-se da tristeza da filha e interrogou-a. Nada colheu. Amália guardou o seu segredo. Não queria afligir a mãe; e ainda menos expor Hermano a uma censura ou queixa, que talvez ainda mais o separasse dela.
Uma noite, porém, a inquietação materna venceu o delicado escrúpulo da sogra, e D. Felícia, tomando à parte Hermano, perguntou-lhe o que tinha Amália:
— Nada. Ela queixou-se?
— Não, e é o que mais me aflige. Pois ainda não reparou na mudança que ela tem feito nestes últimos dias?
A senhora mostrou-lhe de longe a moça, que nesse momento, sentada de perfil e pensativa, era a mais bela estátua da melancolia que um artista poderia imaginar. O marido ficou a olhá-la compassivo.
— Eu lha dei, Hermano, para fazê-la feliz.
— E é o meu ardente desejo; e se bastasse o meu amor!...
A entrada do Sr. Veiga pôs termo a esse diálogo. D. Felícia aproximou-se da filha e tentou ainda surpreender a causa daquela mágoa. Desta vez não fez nenhuma pergunta direta; indagou disfarçadamente de mil coisas a ver se descobria algum arrufo. A moça, porém, não manifestava a mais leve sombra de ressentimento.
Eram dez horas.
Amália estava só e pensava no seu destino, quando Hermano veio, como costumava, sentar-se perto dela. Conversaram algum tempo.
— Anda triste, Amália? disse por fim o marido.
— E não tenho razão, Hermano?
Ele tomou a mão da mulher, e atraindo-a a si reclinou-se para beijar-lhe o rosto. Amália, cheia de rubores e júbilos, palpitante de emoção, abandonou-se ao doce impulso; mas de repente, faltando-lhe o apoio, o talhe descaiu sobre o recosto.
Hermano soltara-lhe as mãos, no momento em que seus lábios iam tocá-la; e erguera-se pálido, hirto, com a visão pasmada, como se um espectro surgisse a seus olhos.
— Perdão! murmurou com a voz abafada.
Esta súplica, porém, Amália conheceu que não se dirigia a ela, pois o olhar do marido passava por cima de sua cabeça e fitava-se além.
Afinal, dominando-se, sentou-se de novo, reportando à mulher aquela mesma exclamação com a voz mais livre.
Amália, sob a influência daquele estranho pavor, emudecera. O marido não se animou a quebrar esse doloroso silêncio. Depois de um instante de perplexidade, murmurou umas palavras de despedida, levantou-se e saiu do toucador.
O primeiro sentimento de Amália, depois da surpresa que lhe causara esse fato, foi a revolta contra o império que exercia a lembrança de Julieta no ânimo do marido, e a fraqueza desse homem que se deixara subjugar àquele ponto.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.