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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

— Oh! eu aprendi no vosso coração, e nas vossas menores ações. D. Antônio abraçou-a. 

— Ah! tenho uma coisa a pedir-vos! 

— Dize: há muito que não me pedes nada, e eu já tenho queixa disso. 

— Mandareis conservar este animal. Sim? 

— Desde que o desejas... 

— Será uma lembrança que teremos de Peri. 

— Para ti, que para mim a melhor lembrança és tu. Se não fosse ele, podia eu agora apertar-te nos meus braços? 

— Sabeis que tenho vontade de chorar só de pensar que ele se vai? 

— É natural, minha filha, as lágrimas são um bálsamo que Deus deu à fraqueza da mulher, e que negou à força do homem. 

O fidalgo separou-se de sua filha, e chegou-se à porta onde se achavam ainda sua mulher, Isabel e Aires Gomes. 

— Que decidistes, Sr. D. Antônio? perguntou a dama. 

— Decidi fazer-vos a vontade, para sossego vosso e descanso meu. Hoje mesmo ou amanhã Peri deixará esta casa; mas enquanto ele aqui estiver, eu não quero, disse carregando ligeiramente sobre aquele monossílabo, que se lhe diga uma palavra sequer de desagrado. Peri sai desta casa porque lho peço, e não porque isto seja-lhe ordenado por alguém. Entendeis, minha mulher? 

D. Lauriana, que compreendia o que havia de energia e resolução naquela imperceptível entonação dada pelo fidalgo a uma simples frase, inclinou a cabeça.  

— Incumbo-me de falar eu mesmo a Peri! Dir-lhe-ás de minha parte, Aires Gomes, que venha ter comigo. 

O escudeiro inclinou-se; o fidalgo que se ia retirando, voltou-se: 

— Ah! esquecia-me. Mandarás encher este lindo animal que desejo conservar; será uma curiosidade para o meu gabinete de armas. 

D. Lauriana fez à sorrelfa uma careta de nojo. 

— E servirá para que minha mulher se habitue com sua vista, e tenha menos medo de onças. D. Antônio afastou-se. 

A dama pôde então ir riçar os seus cabelos, e preparar o seu toucado domingueiro; tinha alcançado uma importante vitoria. Peri ia finalmente ser expulso dessa casa, onde na sua opinião nunca devera ter entrado. 

Enquanto isto passava, Cecília, ao separar-se de seu pai, voltara o canto da casa para entrar no jardim, e encontrara Álvaro que passeava inquieto e pensativo.

— D. Cecília! disse o moço. 

— Oh! deixai-me Sr. Álvaro! respondeu Cecília sem parar. 

— Em que vos ofendi eu para que me trateis assim? 

— Desculpai-me, estou triste; em nada me ofendestes. 

— É que quando se cometeu uma falta... 

— Uma falta? perguntou a menina admirada. 

— Sim! respondeu o moço abaixando os olhos. 

— E que falta cometestes vós, Sr. Álvaro? 

— Desobedeci-vos. 

— Ah! é grave! disse a moça com um meio sorriso. 

— Não zombeis, D. Cecília! Se soubésseis que inquietações isto me tem feito passar! Arrependo-me mil vezes do que pratiquei, e contudo parece-me que era capaz de praticá-lo de novo. 

— Mas, Sr. Álvaro, esqueceis que falais de uma coisa que ignoro; sei apenas que se trata de uma desobediência! 

— Lembrai-vos que ontem me mandastes guardar um objeto, que... 

— Sim, atalhou a moça corando; um objeto que... 

— Que vos pertencia, e que eu contra vontade vossa restitui.

— Como! que dizeis? 

— Oh! perdoai! foi uma ousadia! mas... 

— Mas enfim eu não entendo nem uma palavra de tudo isto! exclamou a moça com um movimento de impaciência. 

Álvaro vencendo enfim o seu acanhamento contou rapidamente o que tinha feito na véspera à noite. 

Cecília ouvindo-o, ia-se tornando séria. 

— Sr. Álvaro, disse ela num tom de exprobação, fizestes mal em praticar semelhante ação, muito mal. Que ninguém o saiba ao menos. 

— Eu juro pela minha honra! 

— Não basta; vis mesmo desfareis o que fizestes. Não abrirei aquela janela enquanto houver ali um objeto que não me veio de meu pai, e em que não posso tocar. 

— Senhora!... balbuciou o moço pálido e abatido. 

Cecília levantou os olhos, e viu no rosto de Álvaro tanta amargura e desespero, que sentiu-se comovida. 

— Não me acuseis do que sucede, disse ela com a voz meiga, a culpa é vossa. 

— Eu o sinto; e não me queixo. 

— Bem vistes que não podendo aceitar, pedi que a conservásseis como uma lembrança. 

— Oh! eu a conservarei ainda: ela me ensinará a expiar a minha falta, e ma recordará sempre. 

— Será agora uma triste recordação.

— E posso-as eu ter alegres! 

— Quem sabe! disse Cecília desentrançando dos seus cabelos louros um jasmim; é tão doce esperar! 

Voltando-se para esconder o rubor de suas faces, Cecília viu perto a Isabel que devorava esta cena com um olhar ardente. 

A menina soltou um grito de susto e entrou rapidamente no jardim, Álvaro apanhou no ar a pequena flor que se escapara dos dedos de Cecília e beijou-a julgando que ninguém ali estava. Quando o cavalheiro deu com os olhos na moça, ficou tão perturbado que deixou cair o jasmim sem sentir. 

Isabel apanhou-o; e apresentando-o a Álvaro, disse com um acento de voz inimitável:  

— É também uma restituição! 

Álvaro empalideceu. 

A moça, trêmula, passou diante dele, e entrou no quarto de sua prima. 

(continua...)

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