Por Machado de Assis (1878)
Jorge ergueu vivamente a cabeça e olhou para a chácara, donde pareceu que saíra a voz. Na chácara, a vinte passos de distância, estava um homem, que sorria para ele, com as mãos nas costas, seguras a uma grossa bengala. Jorge sentiu um calefrio, como se lhe descobrissem o segredo do passado. Só depois de desfeita a primeira sensação, aliás curta, respondeu sorrindo:
— Não durmo; estou pensando nos aluguéis.
— Muda-se para aqui?
— Não.
— A casa é sua?
— É. Suba cá.
O homem galgou os seis degraus da escada de tijolo e entrou na varanda, onde Jorge assumira exclusivamente o papel de proprietário, olhando atentamente para as paredes do edifício.
— Que faz por aqui, Sr. Procópio Dias, às dez horas da manhã? disse Jorge logo que o outro apareceu. — Passei a noite na Tijuca; soube que esta casa vagara, vim vê-la; não sabia que era sua. Está um pouco estragada.
— Muito.
— Muito?
— Parece.
Procópio Dias abanou a cabeça com um gesto de lástima.
— Não é assim que deve responder um proprietário, disse ele. Meu interesse é achá-la arruinada; o seu é dizer que apenas precisa de algum conserto. A realidade é que a casa está entre a minha e a sua opinião. Olhe, se está disposto a concordar sempre com os inquilinos, é melhor vender as casas todas que possui. — Ou fica perdido... Com
que então esta casa é sua? A aparência não é feia; há alguma cousa que pode ser consertada e ficará então excelente. Não é casa moderna; mas é sólida. Eu já a vi quase toda; desci à chácara, e estava a examiná-la, quando o senhor apareceu na varanda.
— Quer ficar com ela?
— Ingênuo! respondeu Procópio Dias batendo-lhe alegremente no ombro. Se eu confesso que ela não está muito estragada é porque não a quero para mim. É grande demais; e depois, fica muito longe da cidade. Se fosse mais para baixo...
— Mas no caso de que haja por aí algum namoro? ponderou Jorge sorrindo.
— Falemos de outra cousa, acudiu o outro faiscando-lhe os olhos.
Os olhos de Procópio Dias eram cor de chumbo, com uma expressão refletida e sonsa. Tinha cincoenta anos esse homem, uns cincoenta anos ainda verdes e prósperos. Era mediano de carnes e de estatura, e não horrivelmente feio; a porção de fealdade que lhe coubera, ele a disfarçava, quanto podia, por meio de qualidades que adquirira com o tempo e o trato social. Fazia às vezes um movimento que lhe descrevia na testa cinco rugas horizontais. Era uma das suas maneiras de rir. Além dessa particularidade, havia o feitio do nariz, que representava um triângulo de lados iguais, ou quase: nariz a um tempo sarcástico e inquisidor. Não obstante a expressão dos olhos, Procópio Dias tinha a particularidade de parecer simplório, sempre que lhe convinha; nessas ocasiões é que ria com a testa. Não usava barba; ele próprio a fazia com o maior esmero. Via-se que era homem abastado. As roupas, graves no corte e nas cores, eram da melhor fazenda e do mais perfeito acabado. Naquela manhã trazia uma longa sobrecasaca abotoada até metade do peito, deixando ver meio palmo de camisa, infinitamente bordada. Entre o último botão da sobrecasaca e o único do colarinho, fulgia um brilhante vasto, ostensivo, escandaloso. Um dos dedos da mão esquerda ornava-se com uma soberba granada. A bengala tinha o castão de ouro lavrado, com as iniciais dele por cima, — de forma gótica.
Jorge conheceu Procópio Dias no Paraguai, onde este fora negociar e triplicar os capitais, o que lhe permitiu colocar-se acima das viravoltas da fortuna. Travaram relações, não íntimas, mas freqüentes e agradáveis, e até certo ponto úteis a Procópio Dias, que obteve de Jorge mais de uma recomendação. Não obstante a freqüência das relações, estavam longe da amizade íntima; e isso, não por esforço de Procópio Dias, cujas maneiras fáceis assediaram por muito tempo a inexperiência de Jorge. O motivo de Procópio Dias cessou com a guerra, desde que com a guerra cessara também o interesse mercantil. Jorge não tinha motivo contra ele; quando o conhecera estava no período melancólico.
— Ainda não respondeu à minha suspeita, disse Jorge dando o braço a Procópio Dias. — O namoro?
— Sim.
— Nem sombras disso, meu caro! Ou antes... creio que vou entrar para um convento: é a minha última ambição. Procópio Dias tinha dous credos. Era um deles o lucro. Mediante alguns anos de trabalho assíduo e finuras encobertas, viu engrossarem-lhe os cabedais. Em 1864, por um instinto verdadeiramente miraculoso, farejou a crise e o descalabro dos bancos, e retirou a tempo os fundos que tinha em um deles. Sobrevindo a guerra, atirou-se a toda a sorte de meios que pudessem tresdobrar-lhe as rendas, cousa que efetivamente alcançou no fim de 1869.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Iaiá Garcia. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1878.