Por José de Alencar (1860)
Luís – Mais do que nunca.
Meneses – E que futuro tem semelhante amor?
Luís – É justamente sobre isso que desejo conversar contigo. Araújo não deve tardar; mandei-o chamar!
Meneses – Se não me engano ouço a sua voz.
Luís – É ele.
CENA V
(Os mesmos e Araújo)
Araújo – Por que razão o teu criado não me quis deixar entrar pelo teu gabinete?
Luís– Foi ordem que lhe dei.
Araújo – Pois deves revogá-la... É maçada!...
Luís – É por hoje unicamente.
Araújo (a Meneses) – Como vais?
Meneses – Já me estás com uns ares de capitalista.
Araújo – Infelizmente são ares apenas.
Meneses – A realidade não tarda: o mais difícil já conseguiste, estás estabelecido.
Araújo – Por falar nisto, adivinha quem me apareceu hoje querendo que o tomasse para caixeiro do balcão.
Meneses – Quem?
Araújo – O Vieirinha.
Meneses – Ah!...
Luís – Fala mais baixo; Carolina pode ouvir-te.
Araújo – O engraçado, porém, é que depois do não redondo que lhe preguei na bochecha, a dois passos da porta foi recrutado.
Meneses – Não merecia essa honra. A missão de defender o seu país é muito nobre para ser confiada ao primeiro tratante que se agarra na rua.
Araújo – Que te importa isso? O país não ganhará um soldado, porém ao menos ensinará um velhaco.
Luís – Não percamos tempo. Senta-te!
Araújo – É verdade! Por que me mandaste chamar?
Luís – Para comunicar-te, e a Meneses, uma resolução minha.
Araújo – Que solenidade!
Luís – O objeto exige.
Araújo – Pois então fala de uma vez.
Luís – Tu me tens acompanhado desde o princípio da minha vida, sabes qual foi o meu primeiro amor. O que porém não sabes, é que apesar de tudo, apesar da vergonha e do escândalo, nunca deixei de amar Carolina. Combati essa paixão louca e extravagante; não pude extingui-la; consegui apenas dominá-la.
Araújo – Mas hoje é ela que te domina.
Luís – Não, Araújo; Carolina nem suspeita! Habituei-me por tanto tempo a reprimir os meus sentimentos, que eles me obedecem facilmente. Não é pois o coração, é a razão que ditou a resolução que tomei.
Araújo – Que resolução, Luís?
Luís – Vou casar-me com Carolina.
Araújo – Como teu amigo, não consentirei que dês semelhante passo.
Luís – Por quê? Dois anos de expiação e de lágrimas remiram essa alma que se extraviou. À força de coragem e de sofrimento ela conquistou a virtude em troca da inocência perdida. O mundo já não tem o direito de a repelir: mas exigente como é, quer que o nome de um homem honesto cubra o passado.
Araújo – E tu fazes o sacrifício?
Luís – Sem a menor hesitação. Tenho morto o coração; todo o amor que havia em minha alma dei-o a Carolina; a fatalidade quis que ele se consumisse em desengano: era o meu destino. Que posso eu fazer agora de uma vida gasta e sem esperança? Não é melhor aproveitá-la para dar a felicidade a uma criatura desgraçada, do que condená-la à esterilidade? Que dizes, Meneses?
Meneses – Digo que terás de sustentar contra o mundo um combate em que muitas vezes sentirás a tua razão vacilar. A sociedade abrirá as portas à tua mulher: mas quando se erguer a ponta do véu, hás de ver o sorriso de escárnio e o gesto de desprezo, que a acompanharão sempre. Toda a virtude de Carolina, toda a honestidade de tua vida, não farão calar a injúria e a maledicência. Tens bastante força e bastante coragem para aceitar esse duelo terrível de um homem só contra uma sociedade inteira?
Luís – Tenho!
Meneses – Então, faz o que te inspira o amor; é um nobre mas inútil sacrifício.
Araújo – Carolina já sabe da tua resolução?
Luís – Não; e só deve saber no momento. Conheço-a e temo uma recusa! Por isso dispus tudo em segredo; ali está preparado um altar...
Araújo – Para hoje?
Luís – Sim; é preciso não deixar um instante à reflexão.
Meneses – Pensas bem!
Araújo – Contudo essa precipitação...
Luís – A vida não é tão longa que valha a pena gastá-la em calcular o que se deve fazer.
Araújo – Na minha opinião nunca é tarde para fazer uma loucura.
Meneses – Vamos conversar com Carolina. O Sr. Ribeiro e Luís naturalmente desejam ficar sós.
CENA VI
(Luís, Ribeiro e uma menina)
Ribeiro – Custou-me a cumprir minha promessa.
Luís – É sempre triste separar-se um pai de sua filha.
Ribeiro – Oh! Não faz idéia... Mas virei abraçá-la todos os dias.
Luís – Perdão, Sr. Ribeiro! De hoje em diante esta menina deixa de ser sua filha!
Ribeiro – Que diz, senhor?... Podia eu consentir em semelhante coisa?
Luís – Falta à sua palavra?
Ribeiro . Entendi mal. Julguei que me pedia deixasse minha filha em companhia de sua mãe, podendo vê-la quando quisesse.
Luís – O senhor ignora que amanhã Carolina terá um marido. A sociedade exige que esse marido seja reputado o pai de sua filha.
Ribeiro – Um marido!... Quem?...
Luís – Eu, senhor!
Ribeiro – Ah!
Luís – É com esse título que reclamo o cumprimento da promessa que ontem me fez.
Ribeiro – Um pai não pode deixar que sua filha passe como filha de um estranho.
Luís – Então esse pai deve legitimar o seu direito.
Ribeiro – Que quer dizer?
Luís – Quero dizer que em vez do meu, Carolina pode ter o seu nome.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.