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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

Quando o leão se retirou, ele sabia que dois dias depois receberia oficialmente, por uma carta do negociante, o sim que ouvira naquela noite entre um sorriso e um rubor.

Quanto a Amélia, depois que a ausência do moço rompeu o encanto e deixoulhe unicamente a consciência do compromisso tomado, lembrou-se involuntariamente de Leopoldo, cuja imagem pálida e triste desenhou-se em sua imaginação.

— Ele há de sofrer muito! pensou a moça suspirando.

No dia seguinte havia reunião em casa de D. Clementina. Amélia recordou-se disso e fez tenção de ir. Naquele momento julgou-se obrigada a comunicar sua última resolução a Leopoldo. Pareceu-lhe que seria uma deslealdade deixá-lo na ignorância de seu casamento, até que viesse a sabê-lo por algum estranho.

Mais tarde surgiram os escrúpulos. Tendo aceitado a mão de Horácio, não era bonito animar uma afeição, que deixava de ser inocente. Embora nunca retribuísse a paixão de Leopoldo, podiam supor que não a repelias Demais, sendo natural que Horácio fosse passar a noite em sua casa, ela procederia muito mal, trocando sua companhia pela de um rival.

Enquanto as horas do dia se escoavam, estas e outras razoes disputavam no espírito da moça a decisão que ela devia tomar. Afinal interveio o coração.

— Tenho pena dele!

E às oito horas estava em casa de D. Clementina. Nessa noite a moça, cujo espírito jovial simpatizava com as cores frescas e risonhas, escolheu um vestuário sombrio. Era uma faceirice melancólica. Aquela menina de 18 anos, que na véspera, muito espontaneamente se prometera a um homem elegante de seu gosto e escolha, afigurava-se agora uma vítima do dever, sacrificando-se heroicamente ao compromisso contraído.

Essa convicção dominava Amélia ao entrar na sala, e ressumbrava não só nas fitas pretas de seu traje, como na languida flexão da fronte e no olhar cheio de mágoas. Ela se julgava sinceramente coagida por uma força irresistível, que a arrancava a um amor profundo e santo, como a flor que o vento arrebata ao tronco onde se enlaçara.

Leopoldo compreendeu a melancolia de Amélia, e adivinhou que essa mulher estava perdida para ele no mundo, mas que sua essência divina lhe pertencia, para todo o sempre. Sentiu pois a mágoa da saudade, que precede a longa ausência. Quando se tornariam a encontrar as duas metades dessa alma, separadas por uma contingência da matéria?

Pela noite adiante Leopoldo aproximou-se de Amélia, porém só lhe falou de coisas indiferentes, ao contrário do que ela esperava. Se o moço a interrogasse a respeito do casamento, aproveitaria o momento para confessar-lhe; mas ele nem de leve tocou nesse ponto.

Na ocasião de se despedirem a moça fez um esforço.

— Já sabe? perguntou com voz trêmula e quase imperceptível.

— Adivinhei! disse o mancebo fitando nela os olhos tristes.

Amélia ficou um instante indecisa, em face dele, como se esperasse mais alguma palavra; Leopoldo dissera tudo naquele olhar, em que difundira sua alma.

— Adeus! murmurou a moça afinal.

CAPÍTULO  XIII

A casa nobre de Azevedo resplandecia. A melhor sociedade da corte concorrera ao suntuoso baile.

Toda a aristocracia, a beleza, o talento, a riqueza, a posição e até a decrépita fidalguia, estavam dignamente representadas nas ricas e vastas salas, adereçadas com luxo e elegância: duas coisas que nem sempre se encontram reunidas.

Eram nove horas. Ainda o baile não começara, e notava-se na reunião a gravidade solene, o grande ar de cerimônia, que serve de prólogo às festas esplêndidas. Os cavalheiros percorriam lentamente as salas, observando o íris deslumbrante que formavam os lindos vestidos das senhoras; mas admirando especialmente as estrelas que brilhavam nessa via-láctea.

Amélia acabava de sentar-se.

Horácio foi logo saudá-la, e cumprimentou-a pelo bom gosto e delicadeza de seu traje.

Realmente não se podia imaginar um adorno mais gracioso. O vestido era de escumilha rubescente, formando regaços onde brilhavam aljôfares de cristal; nos cabelos castanhos trazia uma grinalda de pequenos botões de rosa, borrifados de gotas de orvalho.

Um poeta diria que a moça tinha cortado seu traje das finas gazas da manhã; ou que a aurora vestindo as névoas rosadas, descera do céu para disputar as admirações da noite.

— Dançaremos a primeira, disse Horácio.

A moça corou:

— Sim.

Laura passava. Amélia chamou-a, mostrando-lhe um lugar a seu lado. Horácio afastou-se para deixar as duas amigas em liberdade; mas principalmente para poupar a Laura a contrariedade de sua presença. Desde a noite do teatro o leão compreendera que a moça lhe votava antipatia.

Conversando com a amiga, Amélia descobriu defronte, no vão de uma janela, o vulto de Leopoldo, absorvido em contemplá-la com um olhar profundo e intenso, que servia de válvula às exuberâncias de sua alma. Sentindo-se sob a influência desse olhar, a moça inclinou a fronte, como um sinal de submissão, e abandonou-se à contemplação do mancebo.

De vez em quando procurava ler de relance no rosto de Leopoldo as impressões de seu espírito, os movimentos de sua alma.

(continua...)

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