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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

O velho levou o moço ao fundo da câmara, e com precaução e cuidado correu a cortina. O quarto de Mariana não tinha luz. No de Celina ardiam três velas em um candelabro de bronze.

Cândido viu primeiro um leito virginal defendido por cortinados de cassa branca, e através deles três moças encantadoras, cujas elegantes formas se desenhavam ainda na sombra.

E não pôde ver mais nada, porque Celina começava a falar.

A “Bela Órfã” pronunciou algumas breves palavras; mas olhando para as duas amigas e lendo-lhes no rosto a curiosidade com que estavam, corou, e hesitando, disse:

– Ora... é uma puerilidade... um sonho de criança, que parece loucura contar.

– Não, não, d. Celina; conte sempre.

– Há de ser por força muito bonito.

– Sem dúvida; pois que além de tudo, é um sonho com flores.

Celina, com os olhos pregados no colo, principiou a contar a história do botão de rosa.

– Foi no dia em que eu fiz treze anos: jantaram e passaram a noite comigo duas companheiras de colégio, ambas dois anos mais velhas do que eu. D. Luisinha e d. Leopoldina. Leopoldina era viva como você, d. Felícia; Luisinha maliciosa como você, d. Mariquinhas.

– Obrigada pelo elogio, disse esta.

– Deixe-a falar, acudiu Felícia.

Celina continuou.

– Três moças que se conhecem desde a infância, que brincaram juntas, e juntas estudaram, têm sempre tantas coisas para se dizer, que a certa hora nós nos escapamos da sala, e fugimos para conversar sem testemunhas, escondidas no meu quarto. Foi neste mesmo quarto! disse a moça, cortando com um suspiro sua narração.

– Neste mesmo quarto! murmuraram como admiradas daquela coincidência, as duas ouvintes.

– Passamos muito tempo, prosseguiu a “Bela Órfã”, a rirmo-nos muito, lembrando-nos do passado e de nossas travessuras; e depois misturamos com essas alegrias tantas saudades... tantas... e tão grandes, que estivemos a ponto de chorar. Depois sonhamos também com o futuro, e nossas cabeças de meninas o iam desenhando sempre tão bonito... tão bonito!... enfim tivemos vontade de falar no presente, e Luisinha deu-me um beijo e me disse:

– Já estás moça, Celina!

– É verdade, disse Leopoldina; já estamos todas três moças; e, continuou ela rindo-se, aqui para nós, somos bonitas.

– E como é bom ser moça, quando se é bonita, tornou Luisinha; os velhos nos admiram, as outras senhoras nos invejam, e os moços nos amam.

– Antes todos nos amassem, disse eu.

– Como ela é!... exclamou Leopoldina rindo-se muito.

Eu fiquei admirada daquele tanto rir, que me parecia muito fora de tempo.

– Em parte também eu sou assim, tornou Luisinha; não amo a ninguém ainda; mas quisera que todos bebessem os ares por mim. Quando eu passo junto de um homem, a quem vejo mesmo pela primeira vez, e ele me olha de certo modo e acompanha com a vista, ou me segue, eu gosto... confesso que gosto.

– Oh! sim, disse Leopoldina; mas é tempo de fazermos um ajuste.

– E qual? perguntei.

– Logo que uma de nós amar, di-lo-á em confidência às outras.

– Eu comecei então a pensar que havia algum grande mistério na vida, que essa palavra – amar – queria dizer.

– Pois bem, tornou Luisinha, eu estou pronta... é um belo ajuste; porque eu nunca terei vergonha de o dizer. Quando amar, hei de amar bem, e a quem bem o merecer.

– Sim!... e também eu, disse a outra.

– Não há de ser com seu ouro e suas riquezas que poderá um homem agreste, frio, e sem espírito, comprar o meu coração.

– Oh! sim!... exclamou Leopoldina.

– Nem há de ser o velho que poderia ser meu pai, quem, a preço de suas carruagens ou de sua brilhante posição na sociedade, de suas comendas ou de seus palácios, ganhará a minha mão.

– Oh!... sim!...

– Há de ser um moço... bem moço, pouco mais velho que eu... bastam quatro ou cinco anos; um moço bonito, com cabelos anelados, olhos brilhantes, dentes claros, sorrir gracioso, e mãos finas; com espírito cultivado, gênio alegre, e...., não precisa ser rico.

– Ora! para que dinheiro?... acudiu Leopoldina.

– E tu que dizes, Celina?... indagou Luisinha, dirigindo-se a mim.

Eu fiquei em silêncio por algum tempo. Mas enfim, corando muito de minha ignorância, perguntei:

– O que é amar?

Minhas duas amigas começaram a rir tanto... tanto... que por fim lhes causou piedade a perturbação em que me punha a hilaridade que eu provocara.

– Pois não sabes o que é amar?...

– Amo a meus pais, a meus parentes, a minhas amigas, e aos amigos de meus pais. O mais não sei.

– Coitada! murmurou Leopoldina.

– Pobre criança!... acrescentou a outra.

Eu me achava realmente confundida.

– Luisinha, explica-lhe o que é amar, disse Leopoldina.

Então Luisinha tomou uma de minhas mãos entre as dela, e me falou assim:

(continua...)

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