Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Ele e outros padres inconfidentes, graças a seu caráter sacerdotal, foram poupados à pena de morte na sentença da alçada, e, portanto, não entrando para o oratório na noite de 20 de abril, o Padre Toledo também não pôde aí passar aos companheiros de infortúnio a alentadora certeza, que lhe levara a maçã.
O Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade passou no oratório a noite de 20 para 21 de abril com um frade franciscano ao lado a prepará-lo para morrer contrito e resignado na forca algumas horas depois, e somente na manhã de 21 de abril (o que é histórico e incontestável) foilhe intimada ou declarada a comutação da pena de morte em degredo para os Pedras de Ancoche.
A tradição, que acabo de reproduzir tão fielmente como a ouvi ao fazendeiro de Minas Gerais, não é inverossímil, e nem foi comunicada com pretensões de que real e positivamente se dera o episódio da maçã.
Mas, verdadeira ou imaginária, a tradição pertence um pouco à Rua do Ouvidor; pois que de uma de suas casas se diz ter saído a maçã.
E para mim, se fosse verdadeiro o episódio, seria base sólida, e ainda não o sendo a crença popular que lhe deu origem, o faz argumento conjetura! para meu juízo sobre os motivos que determinaram a Carta Régia de 15 de outubro de 1790.
Graças à sua influência e aos seus empenhos, as famílias Freire de Andrade e Correia de Sá e Benevides conseguiram em Lisboa que não tivesse de morrer na forca o inconfidente que era um dos seus; esse, porém, o Coronel Francisco de Paula, era o chefe principal da conspiração, e para que lhe fosse comutada em degredo a sua pena de morte, tornou-se moralmente indispensável estender a graça a todos os outros chefes e cúmplices, exceto o caso (diz a Carta Régia) de ser isso inadmissível (a pena de morte) pela atrocidade do crime.
Por esse triste exceto o caso, foi enforcado e esquartejado o Tiradentes, que era apenas inconfidente cúmplice de segunda ordem, e até pouco recebido nas reuniões e conselhos secretos dos chefes principais; a alçada, porém, quis dar lição e exemplo ao povo e portanto mandou enforcar o Tiradentes, o qual por isso mesmo, de pequeno que era, ficou sendo gigante.
Eu peço perdão deste deslocado intrometimento de apreciação de um ponto de história pátria, que é desculpável por costume de oficio.
Agora dou nó de emenda na linha destas Memórias.
Em 1801 o Conde de Rezende chegou ao termo do seu atrabiliário e aborrecido vice-reinado, entregando o governo a D. Fernando José de Portugal, mais tarde Conde de Aguiar.
O povo saudou o novo vice-rei com a esperança e alegria de quem respirava livre de violenta opressão, e de povo que não era velho de Siracusa.
D. Fernando José de Portugal, que esteve longe de merecer comparar-se com o Marquês de Lavradio e com Luís de Vasconcelos e Souza, foi, todavia, muito considerado e aplaudido em seu governo suave pelo contraste com o abominável do seu sucessor.
Mas no vice-reinado de D. Fernando José de Portugal a Rua do Ouvidor teve de lamentar a dura e amargurada, porém merecida, sorte do seu herói da tradição do fundo da taberna à quina da Rua dos Latoeiros.
O Belo Senhor; abusando de sua extraordinária mestria caligráfica, depois de cem falsificações travessas e que passaram impunes, dobrando de ousadia, escrevera e formulara falso testamento de homem rico e finado na capitania de Minas Gerais, onde aliás ele (o falsificador) nunca tinha ido, e nunca em vida conhecera o suposto e mentido testador.
Com as letras a imitar à vista, o Belo Senhor vendido a aspirantes herdeiros de grande parte da fortuna do rico mineiro, que não deixara testamento, arranjou um falso, imitando perfeita e admiravelmente a letra do tabelião de Minas, a do testador, e as das diversas testemunhas!...
O crime foi denunciado e provado, e o Belo Senhor preso, processado e condenado a degredo para Angola, ou algum outro ponto da África, e, episódio célebre, quase que escapou da cadeia um dia com agravação do seu crime, apresentando ordem de soltura escrita e assinada pelo vice-rei, cuja letra falsificara!...
O Belo Senhor sofreu então muito, e por certo que teria maiores e infelizmente justificados rigores no degredo que merecera pelo seu crime; e também por certo que muitas vezes teve de lembrar-se do conselho que lhe dera Fuas na Rua do Ouvidor; depois da ceia e das apostas que ganhara.
De que modo, com que arte, mercê de que alta proteção escapou o Belo Senhor ao degredo, e ficou vivendo solto e livre na cidade do Rio de Janeiro, não o posso dizer; com certeza, porém, esse homem de notável inteligência desaproveitada e corrompida, e de surpreendente habilidade caligráfica, esse homem tradicional acabou morrendo na cidade onde tanto bem e mal se celebrizara na mais completa pobreza, e, por castigo da má celebridade, esquecido de todos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.