Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Em que se declara a costa de Cricaré até o rio Doce, e do que se descobriu por ele acima, e pelo Aceci.
Do rio de Cricaré até o rio Doce são dezessete léguas, as quais se correm pela costa norte-sul; o qual rio Doce está em altura de dezenove graus.
A terra deste rio, ao longo do mar, é baixa e afastada da costa; por ela adentro tem arrumada uma serra, que parece, a quem vem do mar em fora, que é a mesma costa. A boca deste rio é esparcelada bem uma légua e meia ao mar, mas tem seu canal, por onde entram navios de quarenta tonéis, o qual rio se navega pela terra adentro algumas léguas, cuja terra ao longo do rio por ali acima é muito boa, que dá todos os mantimentos acostumados muito bem, onde se darão muito bons canaviais de açúcar, se os plantarem, e se podem fazer alguns engenhos, por ter ribeiras mui acomodadas a eles. Este rio Doce vem de muito longe e corre até o mar quase leste-oeste, pelo qual Sebastião Fernandes Tourinho, de quem falamos, fez uma entrada navegando por ele acima, até onde o ajudou a ma é, com certos companheiros, e entrando por um braço acima, que se chama Mandi, onde desembarcou, caminhou por terra obra de vinte léguas, com o rosto a lés-sudoeste, e foi dar com uma lagoa, a que o gentio chama boca do mar, por ser muito grande e funda da qual nasce um rio que se mete neste rio Doce, e leva muita água. Esta lagoa cresce às vezes tanto, que faz grande enchente nesse rio Doce. Dessa lagoa corre este rio a leste, e dela a quarenta léguas tem uma cachoeira; e andando esta gente ao longo deste rio, que sai da lagoa mais de trinta léguas, se detiveram ali alguns dias; tornando a caminhar, andaram quarenta dias com o rosto a loeste; e no cabo deles chegaram aonde se mete este rio no Doce, e andaram nestes quarenta dias setenta léguas pouco mais ou menos. E como esta gente chegou a este rio Doce, e o acharam tão possante, fizeram nele canoas de casca, em que se embarcaram, e foram por ali acima, até onde se mete neste rio outro, a que chamam Aceci, pelo qual entraram e foram quatro léguas, e no cabo delas desembarcaram e foram por terra com o rosto ao noroeste onze dias, e atravessaram o Aceci, e andaram cinquenta léguas ao longo dele da banda ao sul trinta léguas. Aqui achou esta gente umas pedreiras, umas pedras verdoengas, e tomam do azul que tem, que parece turquesas, e afirmou o gentio aqui vizinho que no cimo deste monte se tiravam pedras muito azuis, e que havia outras que, segundo sua informação, têm ouro muito descoberto. E quando esta gente passou o Aceci a derradeira vez, dali cinco ou seis léguas da banda do norte, achou Sebastião Fernandes uma pedreira de esmeraldas e outra de safiras, as quais estão ao pé de uma serra cheia de arvoredo do tamanho de uma légua, e quando esta gente ia do mar por este rio Doce acima sessenta ou sententa léguas da barra, acharam uma serras ao longo do rio de Arvoredo, e quase todas de pedra, em que também acharam pedras verdes; e indo mais acima quatro ou cinco léguas da banda do sul, está outra serra, em que afirma o gentio haver pedras verdes e vermelhas tão compridas como dedos, e outras azuis, todas mui resplandecentes.
Desta serra para a banda de leste pouco mais de uma légua está uma serra, que é quase toda de cristal muito fino, a qual cria em si muitas esmeraldas, e outras pedras azuis. Com estas informações que Sebastião Fernandes deu a Luís de Brito, sendo governador, mandou Antônio Dias Adorno, como já fica dito atrás, o qual achou ao pé desta serra, da banda do norte, as esmeraldas, e da de leste as safiras. Umas e outras nascem no cristal, de onde trouxeram muitas e algumas muito grandes, mas todas baixas; mas presume-se que debaixo da terra as deve de haver finas, porque estas estavam à flor da terra. Em muitas partes achou esta gente pedras desacostumadas, de grande peso, que afirmam terem ouro e prata, do que não trouxeram amostras, por não poderem trazer mais que as primeiras e com trabalho; a qual gente se tornou para o mar pelo rio Grande abaixo, como já fica dito. E Antônio Dias Adorno, quando foi a estas pedras, as recolheu por terra, atravessando pelos tupinaés e por entre os tupinambás, e com uns e outros teve grandes encontros, e com muito trabalho e risco de sua pessoa chegou à Bahia e fazenda de Gabriel Soares de Sousa.
C A P Í T U L O XLI
Em que se declara a costa do rio Doce até a do Espírito Santo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.