Por Adolfo Caminha (1896)
Furtado queria se abrir com Adelaide agora que estavam sós, dizer-lhe tudo quanto sentia por ela desde que a vira pela primeira vez, contar-lhe as suas insônias, o muito que a estimava, a extraordinária simpatia que ela lhe inspirava; mas uma timidez amordaçava-o, uma timidez de colegial, e, no fundo, um vago sentimento de compaixão pelo amigo, pelo Evaristo, seu velho contemporâneo do Liceu, cujas qualidades, ontem como hoje, eram dignas do respeito que se deve a um chefe de família honesto e exemplar. Além disso, temia qualquer movimento de indignação por parte de Adelaide; ela talvez o repelisse, dando escândalo num lugar público, desabafando ali mesmo em face do visconde e de sua mulher, inutilizando-
o. Mas logo esses temores desapareciam e voltava-lhe o ânimo, a coragem de homem useiro e vezeiro nas pugnas do amor fácil.
E já não pensava no Evaristo nem nas conseqüências de uma deslealdade infame, trancando o coração ao sentimentalismo e aos influxos nobres, abstraindo de tudo que não fosse o desejo criminoso e lúbrico de aumentar o número das suas conquistas. Porque, em verdade, a presença daquela mulher tirava-lhe o sossego íntimo, arrebatava-o como a presença de outras igualmente respeitáveis e a quem ele seduzira com os seus brilhantes e com as suas lábias, triunfando como um general invencível. Apontava-as a dedo; via-as passar na Rua do Ouvidor e saudava-as feliz e glorioso. Adelaide sorria-lhe e tanto bastava para que dentro dele se ateasse a chama rubra do desejo, lambendo-o vorazmente, como uma língua de fogo, queimando-lhe o coração, escaldando-lhe o cérebro.
Ele então apertava-a contra si, mordendo o beiço, ameigando o olhar, com ímpetos de explodir numa declaração formal, absoluta e suprema, como se estivesse de joelhos num confessionário, e pedir-lhe, pelo amor de Deus, por vida de seus olhos, por tudo! que soubesse corresponder àquela estima, àquele amor, àquela loucura.
Adelaide ia rindo, muito satisfeita, não completamente fora do círculo de idéias que preocupavam a Furtado; de algum modo ela não estava muito longe de preferir o secretário a Evaristo; iniciada nos segredinhos de alcova por D. Branca, que lhe abrira os olhos à vida fluminense, tumultuosa e desregrada, na rua como nos salões, vendo o exemplo de outras mulheres e da própria Branca, Adelaide insensivelmente ia-se deixando absorver pelo meio que a cercava, embora a educação que recebera na província, os hábitos ingênuos, a natural timidez, que ainda conservava, não cedessem logo a um primeiro impulso do coração. Ela notava as delicadezas de Furtado, via-o quase sempre de olhos cravados no seu rosto como se quisesse adivinhar o que lhe ia n'alma, guardava o caso da mobília e dos duzentos-mil-réis e muitas outras provas de generosidade e fineza do secretário; mas atribuía tudo a um sentimento de amizade para com Evaristo, a um impulso natural de velho companheiro de escola.
Iam por uma aléia sombria de bambus, cuja copa unia-se formando um túnel verde extenso, que se prolongava em ziguezague. Às vezes o banqueiro desaparecia numa curva com a mulher de Furtado, e o secretário conchegava o braço de Adelaide, numa pressão meiga e voluptuosa, como se a quisesse envolver de carinhos, o olhar medindo toda a singeleza do seu perfil, resvalando-lhe na cútis do rosto e caindo apaixonadamente no pescoço que as rendas do plissê guarneciam de branco.
As palavras dele, ungidas de ternura, ritmadas pela emoção, Adelaide ouviaas inquieta, e, instintivamente, apressava o passo, medrosa, de estar ali sozinha "com um homem!".
— Como é escura esta avenida! — exclamou, de repente, erguendo os olhos para a copa dos bambus.
Furtado estremeceu.
— Escura, mas muito agradável, não acha? — murmurou quase ao ouvido dela.
— Pelo contrário...
— Não diga pelo contrário... Leia os poetas. .. A solidão convida ao amor...
Adelaide estranhou aquelas palavras e calou-se.
O trajo branco do visconde assomou longe e tornou a desaparecer entre as árvores.
A esposa do bacharel queixou-se de uma dorzinha de cabeça; o champanha lhe fizera mal.
Ele tranqüilizou-a, dizendo que o champanha não fazia mal a ninguém; que era uma bebida inofensiva como água... O vinho do Porto, sim, o vinho do Porto estragava o estômago. Mas não tinham tomado vinho do Porto...
— Então é do sol.
— E do muito sol que apanhamos. Eu mesmo sinto um fogo na cabeça, uma quentura no cérebro.
De repente o secretário estacou; descobrira um pequeno inseto cor de ouro no ombro de Adelaide. Colheu-o na ponta dos dedos e mostrou-lho.
— Veja que bonito!
— É verdade: lindo!
— Naturalmente confundiu-a com alguma rosa..
— Que graça, senhor Furtado...
— E então? Admira-se de que eu a compare a uma rosa?
— Muito lindo! — repetiu Adelaide observando o insetozinho na palma da mão.
Estavam agora frente a frente ocupados com a descoberta do coleóptero, ele sem tirar os olhos dela, todo embebido na contemplação do seu rosto ideal.
— O Evaristo gosta muito de insetos, vou guardar para ele.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Tentação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16515 . Acesso em: 27 mar. 2026.