Por Adolfo Caminha (1895)
Fez-lhe pena ver aquele pobre homem caído ali assim, no meio da rua, cercado de gente, estrebuchando como um animal sem dono. Aquilo apertou-lhe o coração, fê-lo estremecer, comoveu-o... Talvez fosse algum pai de família, coitado, algum infeliz... Um horror, a tal gota! já noutra ocasião salvara uma mulher bêbeda que ia sendo pisada por um bonde.
E o português da venda, o padeiro, os guardas, um doutor que passava casualmente, o dono do açougue, todos gabavam o pulso do negro.
“— Sim senhor, tinha força para desancar um burro! — Essa gente do mar é uma gente perigosa! — Dois guardas não puderam com o homem, no entanto só o negro fez tudo! — A marinha sempre é a marinha...”
Um soldado, que estava presente, ergueu o seu protesto:
— Não senhor, não era tanto assim. Cá e lá más fadas há... No exército também se encontravam homens de pulso, assim como na armada havia gente fraca, rapazinhos de papelão...
Ninguém disse mais uma palavra, e pouco a pouco o ajuntamento reduziu-se a duas ou três pessoas que ficaram por ali conversando.
Bom-Crioulo voltou imediatamente no seu passo largo, sacudindo os braços, o boné derreado como de costume, a face radiante. — Na verdade o homem pesava seu bocadinho, mas era uma vergonha dois guardas não poderem com ele. Olhe que eram dois guardas!
E, dirigindo-se ao vendeiro:
— Uma terça, faz favor...
O português, muito amável, sem despregar os olhos do marinheiro, encheu a medida. — Sim, era uma vergonha para o Brasil, murmurou sorrindo. Em Portugal...
Bom-Crioulo tossiu, escarrou, e escorropichando o copo: — Puah!... fez com repugnância. — Arre, diabo, que isto é mesmo que beber fogo!
Desatou a ponta do lenço, onde costumava trazer o cobre — um triste lenço enxovalhado, com desenhos na margem.
— São os últimos vinténs; resto do soldinho, do miserável soldinho... Felizmente eu não me aperto enquanto existir uma portuguesa chamada Carolina...
O bodegueiro piscou o olho: — Ahn, ahn!... Como era fino, hein?...
— Que quer, meu amigo, faz-se pela vida...
Tinha a cabeça muito fraca, muito leve: um gole de aguardente. uma dose insignificante de líquido espirituoso, um martelo de vinho punha-lhe os olhos em brasa, desequilibrava-o, subindo logo ao cérebro. E, quando bebia demais, em pândega, lá uma vez ou outra — santo Deus! ninguém podia com ele: redobrava de força, não conhecia os amigos, insultava a humanidade, ameaçando, brandindo o punho fechado, carregando o boné, gingando o corpo — medonho, terrível!
Nesse dia como que Bom-Crioulo resolvera se embriagar propositalmente. Pouco depois de engolir a cachaça, meio tonto, empinando-se para não demonstrar fraqueza, mas com a vista caliginosa e um azedume na língua, retirou-se da venda sem rumo certo, para os lados do cais do Pharoux. Ia triste, zarolho, vendo casas em duplicata e rodando em torno de sua cabeça, encostando-se à parede, monologando cousas imperceptíveis, transfigurado já.
Confundiam-se-lhe as idéias numa turva agitação de quem vai perder o juízo; os objetos começavam a parecer-lhe sombrios, tinha vontade de cometer loucuras, de se sentar no meio da rua e abrir a boca e dizer horrores como um alienado.
— Eu daqui vou direitinho, mas é para bordo, murmurava. Hei de mostrar à canalha! Vou porque quero, porque sou livre!
E batia com força no peito.
— ... que os pariu! Salvei o homem da gota, fiz um ato de caridade, agora podem falar! Papagaio de noite não tem olho, como dizia meu comandante... já não me lembra o nome...
Eram duas horas da tarde. As lojas tinham-se fechado: os armazéns de madeira, todas as casas de negócio, com exceção de raríssimos cafés, estavam trancadas àquela hora dominical.
Poucos transeuntes iam passando vagarosamente, ao sol, numa marcha lenta de gado que recolhe à tardinha, calados, pensando na vida...
Bom-Crioulo desceu rua abaixo, cambaleando, ziguezagueando, sem prestar atenção à ninguém. Mas, ao desembocar no Largo do Paço, um cachorro vadio começou a ladrar, atirando-se a ele, perseguindo-o, cercando-o. Outros cães vieram se juntar ao primeiro e fez-se logo em torno do negro um alarido infernal, que aumentava pouco a pouco, ensurdecedor e azucrinante. Garotos açulavam a canzoada com assobios e gritos. Houve um alarma entre os galegos do cais. — Ora quem havia de ser? Quem havia de ser?... O negralhão, o marinheiro!
No entanto, Bom-Crioulo caminhava sempre, aos tombos, equilibrando-se, investindo contra os cães, ameaçando-os à pedra, ganindo insultos: —... que os pariu!”
Viram-no se dirigir para o cais.
— Ó do escaler! gritou ele avistando uma pequena embarcação de guerra imóvel sob os remos, ao largo.
Ninguém respondeu.
Havia calma no mar. A água reluzia como aço polido. Abafava!
Defronte, lá muito longe, em Niterói, via-se a torre branca de uma igreja, pequenina, esguia como um obelisco.
Botes de ganho flutuavam silenciosamente, com o toldo aberto, amarrados uns aos outros, na lingüeta de mar, entre as estações das barcas, quietos, modorrentos...
— Ó do escaler! bradou o negro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.