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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

Que diabo! um sujeito inteligente, com ares de fidalgo avarento, redator de um jornal, sempre trazendo a mesmíssima sobrecasaca! E o chapéu? Sempre o mesmo também, um triste chapéu de feltro com manchas oleosas! Oh! a respeitável sociedade cearense exigia primeiro que tudo decência no trajar, e aquilo assim, aquela sobrecasaca sórdida escandalizava-a como se escandaliza uma donzela diante duma estátua nua. Pois o Sr. José Pereira não podia, sem grandes sacrifícios, comprar um fato novo? Então, que diabo! não aparecesse entre pessoas de certa ordem, ficasse em casa, fosse mais modesto. Sim, porque todo o homem de talento, na opinião da sociedade cearense, deve acompanhar a moda em todas as suas nuances, em todos os seus requintes, deve ter sempre uma casaca à última moda, uma calça à última moda, e um chapéu à última moda, conforme os figurinos, para os “momentos solenes”, deve ser enfim um sujeito “correto” na acepção mais lata da palavra.

O Sr. Pereira sabia dar um laço na gravata, lá isto sabia, e também não ignorava como se calça uma luva; mas (e isto é que preocupava a sociedade cearense) o Sr. José Pereira, quer fosse a um baile de primeira ordem, quer fosse a uma festa inaugural, quer fosse ao teatro, levava sempre invariavelmente a mesma sobrecasaca surrada e o mesmo chapéu ruço! Um homem de talento sem gosto é o que não se admite. A sociedade cearense, porém, ignorava que o Sr. José Pereira era casado, tinha filhos e ganhava apenas o essencial para o seu sustento e o da família, cento e cinqüenta mil-réis por mês, uma ninharia.

Os seus amigos, às vezes, gracejando, propunham-lhe abrir uma subscrição para a compra de um paletó novo e de um chapéu idem. José Pereira, porém, tinha espírito e respondia-lhes ao pé da letra, mudando logo o rumo da conversa.

Nesse tempo o redator da Província ainda era calouro em política. Dava seu voto e nada mais. A literatura é que o absorvia. Um livro novo era para ele a melhor novidade; caísse embora o ministério, rebentasse uma revolução, ele conservava-se a ler, virando páginas, devorando a obra como um alucinado, defronte do abajur de papelão no seu modesto gabinete de escritor pobre. Conhecia Dumas pai de cor e salteado; fora o seu primeiro “mestre”. Depois entregou-se a ler os Miseráveis, declarando-se hugólatra incondicional em uma apreciação que fizera do grande poeta. O artigo concluía deste modo:

“Victor Hugo é o Cristo da legenda transfigurado em profeta moderno. Ele é todo um século. Tudo nele é grande como a natureza. Os Miseráveis são a apoteose de todas as misérias humanas. Victor Hugo, o Mestre, é o Sol da Humanidade. Amemo-lo como a um Deus!” isso produziu efeito entre os literatos contemporâneos que não dispensaram elogios ao “valente folhetinista” da Província.

A fama de José Pereira encheu depressa toda a cidade. Dizia-se — aí vai o José Pereira! como quem diz — aí vai um gênio. E ele saudava a todos convictamente, tocando de leve a aba mole do chapéu preto de massa.

Em fins de 1886 José Pereira conservava-se ainda na Província, como um dos principais redatores. A sua fama, se não decrescera, era a mesma com uma pequena e insignificante diferença — é que ele já não era simplesmente um “talento fecundo”, mas também um fecundíssimo canalha, um requintado “sedutor de mulheres casadas”, o que afinal de contas não o prejudicava assaz no conceito do mulherio. Havia as viúvas, casadas e solteiras que o defendiam tenazmente.

Não, diziam elas, o diabo não é tão feio como o pintam. José Pereira podia ser um rapaz alegre, divertidíssimo, jovial e espirituoso, amigo das mulheres — vá, mas, em suma, um excelente rapaz e um belo caráter. Porque o fato de um homem apaixonar-se facilmente por muitas mulheres ao mesmo tempo ou em épocas diferentes não quer significar que esse homem seja um sedutor e um patife. Demais, José Pereira era artista, e o artista, escultor ou poeta, pintor ou músico, não pode compreender a vida sem o amor...

— Mas é um homem casado, profligavam outras. — Bem; mas o casamento...

E demonstravam que o casamento, longe de ser um atentado contra o livrearbítrio das partes, é, ao contrário, uma instituição que concede, tanto ao homem como à mulher, plena liberdade de amar ao próximo como a si mesmo.

Entre as que adotavam a prática destas teorias tão abstrusas quanto originais, distinguiam-se a mulher de João da Mata e a do Dr. Mendes.

— Então, decididamente queres quebrar a cara ao redator da Matraca? dizia ele ao Zuza.

— Mas que dúvida!

Quem quer que fosse o verrinista havia de ficar sabendo de quantos paus se faz uma jangada.

— Mas olha que é uma imprudência pueril, homem. Quando o insulto vem de baixo, a gente deve responder com o desprezo. O desprezo é a arma invencível dos espíritos superiores. Eu é como tenho resolvido questões desta natureza.

— Qual desprezo! Não se mata com desprezo um réptil venenoso; pisa-se-o, reduz-se a papas. Isto é o que fazem os espíritos superiores. Sabes quem é o biltre?

(continua...)

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