Por Inglês de Sousa (1891)
— Será possível?! murmurou Macário, fazendo esforços para certificar-se da verdade. Sim, não havia dúvida. De punhos rotos, seboso e mal vestido, com as botinas sem graxa, o cabelo sem óleo, pequeno e desagradável, o Chico Fidêncio ali estava. O arrojo do professor desnorteava o sacristão. O Chico Fidêncio ali, o ateu, o troscista, o incorrigível Chico Fidêncio, era realmente para um homem dar o cavaco! Viessem o capitão Fonseca, o Mapa-Múndi e o Costa Silva, todos os que haviam protestado contra o dever da confissão, isso era o que Macário desejava. Viesse mesmo o professor Aníbal Americano, que jurara não ouvir missa dita por padre Antônio de Morais. Apesar de livres-pensadores, apesar de desviados da senda direta por onde o vigário os queria levar para o céu, Macário tinha certeza de que se converteriam facilmente, e para eles se preparava a grande surpresa daquele dia. Mas com o tratante do Chico Fidêncio a coisa era diferente. Esse sujeito já estava em vida condenado ao inferno, era um pecador impenitente. Com ele eram infrutíferas todas as tentativas de conversão, o patife tudo metia a ridículo. Macário não podia se defender dum certo respeito supersticioso pela inteligência maligna e irreligiosa do professor, que tanto amargurara os últimos dias do defunto padre José. O Fidêncio era o diabo. Se ele se metesse a levar a surpresa para o lado da gaiatice, estava tudo perdido. Apesar da confiança de Macário no talento e nas virtudes de padre Antônio, receava o resultado da luta entre a unção do santo vigário e o sarcasmo do patife que, no dizer de padre José, fora expulso do corpo de permanentes do Pará por maus costumes, pecados contra a natureza... Nesse combate que se iria talvez travar, dali a momentos, ao pé do altar de Nossa Senhora, o padre e o professor representariam os dois princípios opostos, o Bem e o Mal, o Anjo do Senhor e o Inimigo da Alma. Macário estava muito inquieto. A seu pesar não podia tirar os olhos da carinha enfezada de Fidêncio, sarcástica e diabólica, por trás da porta lateral da rua. Por que coincidência fatal, o Chico Fidêncio que nunca vinha à missa, se apresentava ali naquele dia quando a sua presença só podia ser prejudicial à salvação de Silves? O segredo da surpresa fora rigorosamente guardado por Macário, nem à vizinha o dissera. Teria o Fidêncio adivinhado, ou estaria ali só por curiosidade de assistir ao casamento do Cazuza Bernardino? Terrível incerteza que mergulhava o sacristão num mar de conjeturas e de receios.
— Sursum corda, balbuciou padre Antônio num murmúrio de êxtase.
Macário já não sabia o que fazia. O demônio do Chico Fidêncio viera ali de propósito para o tentar, distraindo-o do serviço santo. Felizmente Macário estava muito prático, fazia aquilo todos os dias, e maquinalmente, preocupado da súbita aparição do correspondente do Democrata, mudava o missal, trazia as galhetas, sacudia o turíbulo e fazia genuflexões, como se estivesse todo entregue ao mistério. Mas no fundo da alma pungia-lhe o remorso dum pecado, e quando padre Antônio acabou de ler o Evangelho de S. João, Macário, atarantado, esqueceu o Deo gratias.
— Estava distraído, Macário, disse S. Rev.ma, entrando atrás dele pela sacristia dentro, carregando o cálice coberto com a bolsa dos corporais.
— Saberá V. Rev.ma que foi uma tentação do demônio, respondeu descansando o missal.
Padre Antônio despiu a casula e a alva, vestiu a capa-magna e voltou para a igreja, seguido pelo sacristão.
Os noivos, os padrinhos e os convidados aproximaram-se. O matrimônio começou a celebrar-se. O Cazuza Bernardino, satisfeito e risonho, acariciava os copos da espada prateada e nova, virgem de combates. A D. Mariquinhas das Dores continuava a morder o lencinho de rendas, corada e vergonhosa, com uma lágrima no canto do olho esquerdo.
Quando padre Antônio perguntou se fazia gosto naquele casamento com o senhor tenente José Bernardino de Santana, respondeu com voz ininteligível. Quando lhe tocou a vez o Cazuza Bernardino sorriu e disse com segurança:
— Pois não, padre-mestre, é de todo o meu gosto.
Nenhum dos assistentes da missa se retirara, todos, mesmo os que não haviam sido convidados para assistir ao casamento, detinham-se fazendo roda, seguindo com um sorriso vago os movimentos dos nubentes. O capitão Manuel Mendes da Fonseca, grave e sério, não sorria. O Neves tinha lágrimas, muito comovido. D.
Eulália assoava-se repetidas vezes. O Mapa-Múndi, asfixiado pela multidão, suava. Quando a cerimônia acabou, o Valadão ao ouvido do Costa e Silva:
— Estão conjugados!
Os noivos abraçavam os parentes. D. Mariquinhas desatara em pranto, abraçada ao pescoço de D. Eulália ofegante. Neves Barriga, pernas abertas, cabeça pendida, lenço espalmado na mão, sorvia uma grande pitada de Paulo-Cordeiro, disfarçando emoção profunda.
— Agora, disse ele para o capitão Fonseca, agora é que o Urubus vai ficar de todo insuportável para mim. Por meu gosto mudava-me para a vila. Mas D. Eulália, coitada, tem muito amor aos xerimbabos!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.