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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

Sentia-se incapaz de amar; carecia-lhe a fraqueza sublime, essa languidez atributiva da função da mulher no amor, a passividade pudica, ou aviltante da fêmea submissa ao macho, forte e dominador, irresistível, como aprendera na intuitiva lição da natureza; essa comovente timidez de novilha ante a investida brutal do touro lascivo, sem prévios afagos sedutores, sem carícias de beijos correspondidos, como nos idílios das rolas mimosas. Não; não fora destinada à submissão. Dera-lhe Deus músculos possantes para resistir, fechara-lhe o coração para dominar, amando como os animais fortes: procurar o amor e conquistá-lo; saciar-se sem implorar, como onça faminta caindo sobre a presa, estrangulando-a, devorando-a. Não era mulher como as outras, como Teresinha, para abandonar a família, o lar, a honra, por um momento de ventura efêmera, escravizando-se ao homem amado, contente do sacrifício, orgulhosa do crime, insensível ao vilipêndio, sem olhar para trás onde ficaram os tranqüilos afetos, para sempre perdidos; e, por fim, consolada à torpeza do repúdio infame, à margem da estrada da vida, como um resíduo inútil, condenado a vis serventias, trapo que foi adorno cobiçado, molambo que vestiu damas formosas, casca de fruto saboroso e aromático.

Não; não fora feita para amar. Seu destino era penar no trabalho; por isso, fora marcada com estigma varonil: por isso, a voz do povo, que é o eco da de Deus, lhe chamava Luzia-Homem.

CAPÍTULO XII

A velha dormia tranqüilamente, e as duas moças continuavam a conversar no alpendre.

Queria você muito bem ao Cazuza? – perguntou Luzia a Teresinha, de súbito emergindo de um vago cismar.

— Se queria!... – respondeu-lhe ela, com saudoso suspiro. Por ele larguei pai, mãe e irmã de quem eu era um ai-Jesus! Era o seu tudo e sentia-me tão feliz com ele que, desde o dia em que Deus o levou, fiquei insensível como uma pedra, vivendo por viver, rolando à toa pelo mundo...

— Nunca teve inclinação para outro?

— Eu, não. Vendo-me sozinha e desacostumada a trabalhar para comer, não tive remédio senão me resignar à minha sorte e estar por tudo. Quando algum homem se engraçava de mim, eu fingia gostar dele. Encontrei um desalmado que me queria como uma fera; tinha maus bofes e me trazia, ciumento como o demônio, que nem negra cativa. Aquilo não era homem; era o cão em figura de gente. Por qualquer suspeita ficava danado como se me quisesse comer viva. De uma feita, arranchou-se na casa em que morávamos como marido e mulher, um moço rico e bonito, que se pós a olhar muito para mim; e eu, ao levar-lhe o café, cai na asneira de sorrir para ele. Ah! Luzia, se você me visse naquele tempo!... Não é por me gabar, alva como uma imagem, com duas rosas nas faces e carnes rijas como pau!... Meus cabelos pareciam de oiro e meus olhos eram azuis e claros como duas contas. O mundo e a pobreza estragam a gente. Hoje, veja como estou murcha, engelhada, cheia de sardas... Mas, para encurtar razões, quando o moço foi embora, o homem pôs-me de confissão; e, não sabendo eu o que lhe dizer para me desculpar de falta que não me passara pela cabeça, disse-me uma porção de desaforos porcos, nomes de mãe; chamou-me sem-vergonha, safada, deslambida, e, agarrando-me pelos cabelos, deu-me tabefes...

— E você? – perguntou Luzia, indignada.

— Eu chorei muito; lamentei a minha desgraça; jurei por todos os santos do céu, que era inocente, até que ele, com um pontapé, me atirou para dentro da camarinha, berrando possesso: "Anda, peste!... Amanhã não me ficas aqui em casa; ponho-te fora na estrada, onde te apanhei como uma cachorra vadia... "E fechou, com estrondo, a porta. Fiquei na escuridão, imaginando no que faria de mim, quando amanhecesse. Ao mesmo tempo que me fervia o coração, estava contente com verme livre de semelhante bruto; mas tive medo de apanhar outra vez, e esperei quieta o que desse e viesse. – Que me importa – disse comigo – Hei de achar quem me queira ... E, pensando no moço causador daquela desgraceira, peguei no sono, deitada numa rede velha que ali estava armada. Quando os galos estavam amiudando, ouvi bulir na porta; levantei-me de um pulo; fui deitar-me no mesmo lugar onde havia caído e pus-me a soluçar baixinho. Abriu-se a porta, e a claridade do copiar, alumiado por uma vela, deu em cheio sobre mim. Eu estava derreada, no chão, sustendo o corpo com a mão esquerda, enquanto tapava os olhos com as costas da direita, olhando por baixo. O desalmado entrou devagarinho; chegou perto de mim; ficou alguns minutos parado e disse-me, depois, em voz sumida e zangada: "Vá se deitar no seu quarto... " Eu não respondi, nem me mexi; entrei a soluçar mais forte. Tocou-me, então, de mansinho, no braço, dizendo, já com outra voz, manhosa e adocicada – "Teresa, você está zangada comigo?" Repeli o agrado com um safanão do cotovelo. Ele continuou, procurando abraçar-me: — "Este meu gênio!...

(continua...)

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