Por Aluísio Azevedo (1880)
— Sente-se por aí! Olhe, tenho só este madeiro; não faz lá muito bom assento, mas serve.
E empurrou para Miguel um tronco de nogueira, única mobília da casa.
Miguel sentou-se, ardendo de impaciência.
O homem foi ao outro quarto, bebeu água de um púcaro de barro, acendeu o cachimbo e fechou a porta com uma tranca de madeira pesada; depois, encostou-se à parede, com as pernas cruzadas e o indicador da mão esquerda engatilhado no cachimbo, e disse entre uma baforada de fumo e um bocejo:
— Agora vamos ao que serve!
CAPÍTULO XII
Às quatro horas da manhã, já no oriente passeava a aurora a sua alegria cor-de-rosa, contrastando com a terra toda tranqüilidade e sonolência; somente da choupana de Sombra da Noite uma claridade avermelhada empalidecia ao clarão matutino do dia.
Parece que a natureza ao acordar vai apagando com as brisas da aurora as luzes mesquinhas das alcovas do homem. Quão ridícula e miserável é a luz mortiça de uma vela em presença da luz vivificante do sol - dir-se-ia o espírito de um homem comparado ao espírito de Deus.
Também devem ser assim mesquinhas e pálidas as nossas almas em presença do incriado no tremendo dia do Juízo Final!
A portinha da choupana rangeu, depois da detonação que fez a tranca pesada de madeira ao cair na terra do chão e deu passagem a Miguel seguido de Sombra da Noite. O moço vinha transformado pela insônia e fadiga; o outro ajudou-o a montar o animal, que tosava fora os detritos da ladeira, dizendo-lhe secamente:
— Até amanhã...
— Então posso contar com o seu auxílio? volveu Miguel firmado nos estribos e segurando com uma das mãos o chapéu, que o vento se esforçava, por arrancar.
— Para a vida e para a morte! respondeu o pescador, recebendo dinheiro da mão que Miguel lhe estendia.
O cavalo disparou e sumiu-se com o cavaleiro na estrada. Pouco a pouco, foi-se perdendo o som metálico da ferradura pisando o chão. Fechou-se de novo a porta da choupana sobre Sombra da Noite, e desapareceu a luzinha vermelha. O sol acabava e levantar-se no horizonte trêmulo.
CAPÍTULO XIII
Nesse mesmo dia, Miguel, compondo boa sombra e bom gesto, se desfazia em razões por descontinuar em casa da família L...
— Já que está tão aferrado à sua resolução, parta, meu amigo, dizia o protetor de Miguel, entregando ao protegido o saldo dos seus salários; mas não se esqueça que aqui fica uma família que tanto o aprecia, como estima. Se algum dia suceder que volte, venha de novo ter conosco; prezamos contar para meus filhos com o mesmo mestre e para mim com o mesmo filho. Venha! O senhor será sempre recebido de braços abertos nesta casa; e pode, tanto disto, como da afeição sincera que nos inspirou, levar certa a vitória, mais ganha por direito que por conquista!
E levantando mais a voz, em cuja firmeza se percebia a experiência e a convicção, disse como um profeta:
— O senhor é um homem de bem!
— Obrigado, balbuciou Miguel comovido, e beijou-lhe a mão.
As crianças estavam boquiabertas.
— Mas o meu mestre vai para ficar? Perguntou Beppo.
— Espero que não, meu amiguinho; um dever de amigo constrange-me a partir para Nápoles, mas, logo que me seja possível voltar, continuaremos nossos estudos e os nossos passeios; quanto à boa amizade - ah! essa, garanto, em desfavor da ausência e do tempo, continuar na mesma altura.
Assim dizendo, Miguel abraçava Beppo e os irmãos.
Os meninos, entretanto, vestiam tal seriedade, que mais pareciam zangados que pesarosos. Convém notar que em Miguel não viam eles a carranca do mestreescola, mas o olhar inteligente e amigo do companheiro de folguedos; metera-lhes, é verdade, o bom moço, a carta do ABC nas unhas e na memória, mas em compensação ensinara-lhes a atirar funda, a lançar o pião, a nadar e vencer barrancos e finalmente instruíra-os na grande ciência de fazer armadilhas e laçar passarinhos e lagartos.
Ora, quem ensina destas artes às crianças é fatalmente adorado por elas, e, por conseguinte, mesmo barateando a simpatia natural de Miguel, os filhos do senhor L... tinham jus a estremecer o mestre, para, assim de coração tranqüilo, o verem partir tão inesperadamente.
A amizade das crianças, como toda afeição dos fracos, é egoísta; os pequenos constituíam para si um direito absoluto sobre o amigo. Tiravam-lho? Tanto pior! Por que? Não queriam saber de razões; fossem quais fossem as causas, o efeito era evidentemente desfavorável e mau. E tanto bastava para estarem enfiados e furiosos.
Jeovanito, o mais moço dos três, vendo que nada conseguia pelo suposto direito, achegou-se do mestre e disse-lhe, ameigando-lhe os dedos com a sua mãozinha gorda e rosada:
— Fica, meu mestrinho!...
Dito isto, ficou a olhá-lo suplicante, fazendo dos lábios, que talvez ainda cheirassem a leite, um biquinho de enfado e ternura.
Miguel respondeu negativamente com a cabeça, enquanto o beijava.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.