Por Aluísio Azevedo (1881)
E entraram a conversar sobre o escândalo das mulatas se prepararem tão bem como as senhoras. “Já se não contentavam com a sua saia curta e cabeção de renda; queriam vestido de cauda; em vez das chinelas, queriam botinas! Uma patifaria!” Depois falaram nos caixeiros, que roubavam do patrão para enfeitar as suas pininchas; e, por uma transição natural, estenderam a crítica até aos passeios a cano, às festas de largo e aos bailes dos pretos.
— Os chinfrins, como lhes chamava o meu defunto Espigão, acudiu Maria do Carmo, Conheço! ora se conheço!... Bastante quizília tivemos nós por amor deles!...
— É uma sem-vergonheira! Ver as escravas todas de cambraia, laços de fita, água de cheiro no lenço, a requebrarem as chandangas na dança!...
— Ah, um bom chicote!... disseram as duas velhas ao mesmo tempo
— E elas dançam direito?... perguntou a do Carmo,
— Se dançam!... O serviço é que não sabem fazer a tempo e a horas! Lá para dançar estão sempre prontas! Nem o João Enxova!
A indgnação secava-lhe a voz.
— Até parecem senhoras, Deus me perdoe! Todas a se fazerem de gente! os negros a darem-lhe excelência “E porque minha senhora pra cá! Vossa Senhoria pra lá!” E uma pouca vergonha, a senhora não imagina!... Uma vez, em que fui espiar um chinfrim, porque me disseram que o meu defunto estava lá metido, fiquei pasma! E o melhor é que os descarados não se tratam pelo nome deles tratam-se pelo nome dos seus senhores!... Não sabe Filomeno?... aquele mulato do presidente?... Pois a esse só davam “Sr. Presidente!” Outros são “Srs. Desembargadores, Doutores, Majores e Coronéis!” Um desaforo que deveria acabar na palmatória da polida!
Ana Rosa terminou a sua polca.
— Bravo! Bravo!
— Muito bem, D. Anica!
E estalaram palmas.
— Tocou às mil maravilhas!...
— Não senhor foi uma polca do Marinho.
Correram a cumprimentar a pianista. O Freitas profetizou logo “que ali estava um segundo Lira!”
Raimundo foi o único que não se abalou. Estava fumando à janela, e fumando deixou-se ficar. Ana Rosa, sem dar a perceber, sentiu por isso uma ligeira decepção. Esforçara-se por tocar bem e ele, nem assim! “Até parecia não ter notado nada!... E um malcriado!” concluiu ela, de si para si. E, com uma pontinha de mau humor, assentou-se ao lado de Lindoca. Eufrásia correu logo para junto da amiga.
— Que tal o achas?... perguntou em segredo, assentando-se, com muito interesse.
— Quem? disse Ana Rosa, fingindo distração e franzindo o nariz.
A outra indicou misteriosamente a janela com um dos polegares.
— Assim, assim...
E a filha do negociante fez um bico de indiferença. — Nem por isso!...
— Um peixão! opinou Eufrásia com entusiasmo.
— Gentes!... Que é isto, Eufrasinha?... — É uma tetéia!
E a viúva mordia os beiços.
— Sim, ele não é feio... tornou Ana Rosa, impacientando-se, Mas também não é lá essas coisas!...
— Que olhos! que cabelos! e que gestos!... olha, olha, menina! como ele brinca com o charuto!... olha como ele se encosta à grade da janela!... Parece um fidalgo, o diabo do homem!...
Ana Rosa, sem desfranzir o nariz enviesada os olhos contra o primo e Sentia melhor do que a amiga a evidencia do que esta lhe dizia. “Raimundo era com efeito elegante e bem bonito mas, que diabo, desde que chegara ainda lhe não tinha dispensado uma única palavra de distinção, um só gesto que a especializassem, quando ali, no entanto, era ela, incontestavelmente a mais chique, a mais simpática, e, além disso — sua prima! (Ana Rosa pouco ou nada sabia ao certo do grau do seu parentesco com ele) Não! Não fora correto! Falara-lhe como às outras, igualmente frio e reservado; não fizera como os rapazes do Maranhão, que, mal se aproximavam dela estavam desfeitos em elogios e protestos de amor!” Aquela indiferença de Raimundo doía-lhe como uma injustiça: sentia-se lesada roubada, nos seus direitos de moça irresistível. “Um pedante é o que ele é! Um enfatuado! Pensa que vale muito, porque se formou em Coimbra e correu a Europa! Um tolo!...” Nessa ocasião, entraram na sala, com ruídos, dois novos tipos - o José Roberto e o Sebastião Campos.
Foram logo apresentados a Raimundo e seguiram a cumprimentar as senhoras, dando a cada qual uma frase ou uma palavra ou um gesto de galanteio familiar: “D. Eufrasinha sempre bela como os amores, que pena ser eu já papel queimado! — Então D. Lindoca, onde vai com essa gordura? divida a metade comigo! — Quando se come doce desse casamento, D. Bibina?... E tinham sempre na ponta da língua uma pilhéria, um dito, para bulir com as moças; coisas desengraçadas e cediças, mas que as faziam rebentar de riso.
— Deus os fez e o diabo os ajuntou! explodiu, com um estalo de boca, a velha Amância quando os dois passaram por ela.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.