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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

Todavia, talvez que de nós duas fosse eu a mais comovida nesse momento. Quando me separei de Palmira, encerrei-me no quarto e chorei copiosamente. Por quê? Não sei dar a razão; só afianço que um doloroso sobressalto se apossou de mim, e uma dura e fria tristeza, tristeza de velho, encheu-me o coração e escureceume a vida.

Procurei consolar-me, refugiando-me na idéia da felicidade de minha filha. Ah! pobres corações de mãe! pobres corações, que tanto sofreis para depois ainda mais vos amesquinhardes, chorando sob o peso infamante e ridículo desta terrível palavra

— Sogra!

E apressei-me a procurar o meu amigo. Fui logo no dia seguinte à casa dele. César, ao receber-me, percebeu a minha tristeza; compreendeu-a talvez. Mas não me disse uma só palavra a respeito dela; apenas tomou-me a mão e afagou-a entre as suas, como de costume.

Para bem nos entendermos, os dois, bastava-nos o olhar!

Assentei-me junto à secretária, bem perto da sua cadeira e, em voz baixa e comovida, dei-lhe parte de tudo, e concluí, pedindo-lhe que viesse à minha casa na próxima reunião. — O pretendente lá estaria. César prometeu ir.

E não faltou com efeito.

Tínhamos muita gente essa noite em casa. Havia concerto e depois dança. Os uniformes da marinha, rebrilhantes de galões dourados, cruzavam-se em todas as salas, ofuscando as casacas pretas e dando àquela minha modesta Quarta-feira, oficiais realces de uma festa de corte. As damas afidalgavam-se, pareciam até mais amáveis e mimosas ao reflexo das refulgentes dragonas.

Minha filha cantaria ao piano, acompanhada pelo seu preferido. Ela resplandecia de sedução, naqueles primeiros arrulhos de pomba amorosa, que procura fazer ninho; estava alegre, saltitante, ébria de ilusões e de esperanças.

E pensar eu que, daí a algum tempo, toda aquela gárrula confiança no amor, toda aquela louçania de inocência e toda aquela frescura de mocidade, poderiam emurchecer e transformar-se no que eu sofri pouco depois que me casei!... Ah! mas eu lá estaria ao lado dela para vigiar-lhe o leito de recém-casada, como lhe vigilara, outrora, o berço de recém-nascida. E o meu coração de mãe tremia tanto agora, ao vê-la assim sorrir de ventura às primeiras pulsações do amor, quanto tremera dantes, aos seus primeiros vagidos e às primeiras lágrimas que lhe vi nos olhos.

O concerto correu bem, Palmira foi feliz no que cantou acompanhada pelo namorado, creio até nunca lhe ter ouvido cantar com tamanha expressão. Mal deixaram o piano, apontei o rapaz ao meu velho amigo, que começou logo a observá-lo disfarçadamente.

Daí a pouco apresentei-os um ao outro, e não os perdi mais de vista.

César, insinuante como é, ganhou logo a simpatia, e suponho até que a confiança do pretendente de Palmira. Vi-os passear juntos durante longo tempo, sem deixarem nunca de conversar com o mesmo interesse. Depois tomaram uma das janelas da saleta de estudo, e continuaram na palestra, mais à vontade. Eu, do lugar em que estava, podia observá-los. O médico com certeza falava já de coisas concernentes à boa disposição física, porque notei que o outro sacudia com desembaraço as pernas e os braços, empinando soberbo a cabeça e o peito como para dar idéia da sua perfeita compleição muscular.

Não pude deixar de rir, principalmente quando César, lá do fundo de sua janela, me fez sinal com os olhos de que a coisa caminhava bem.

O rapaz parecia com efeito muito bem constituído. Era delgado e forte, rico de espádua; boa estatura, pernas e braços bem proporcionados; bom cabelo, olhos vivos, de azul forte; tez limpa, de um moreno pálido, sadio e fresco; barba vigorosa, bem preta, luzidia e fina; unhas másculas e rijas. E os dentes pareciam-me de primeira ordem.

Já morria de impaciência quando o meu bom César, arranchando-se comigo para tomar chá a um canto da sala de jantar, me veio dar conta da sua missão.

— Creio que temos o homem! — declarou logo, antes de assentar-se ao meu lado. E segredou-me depois: — Mas não dou por enquanto a minha opinião definitiva...

Ah!...

— Ficamos amigos... acrescentou César. Ele, sabe? vai depois de amanhã à minha casa, e, como tem gosto pelos jogos e exercícios de força e faz grande vaidade da sua musculatura, creio que o convencerei de que deve por sistema tomar duchas no meu estabelecimento hidroterápico. Ah! então sim, poderei dar com segurança o meu veredicto!

Aqueles dentes?... Reparou se são verdadeiros?

São. Afianço!

Daí a dias, o meu zeloso ajudante-de-ordens procurava-me para dizer-me radiante:

— Completo sucesso! Auscultei e observei minuciosamente o rapaz. Creio até que o maganão adivinhou, ou compreendeu, qual era a razão particular que me dirigia, porque veio, por bem dizer, ao encontro do meu desejo e prestou-se ao exame, sorrindo, sem esconder a sua vaidade de homem forte, consciente da sua riqueza orgânica!

Estávamos a sós, na biblioteca, lá em casa. Aproximei-me mais do meu velho amigo, com interesse; e ele acrescentou, dando com ambas as mãos duas palmadas simultâneas nas próprias coxas.

(continua...)

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