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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

- Para que, sabes? perguntou.

- Creio, respondeu André, que ela recebeu hoje a notícia da morte de algum parente...

Uma tia, se me não engano.

- Sim? E que diabo tenho eu com isso?

Mas, por curiosidade, Teobaldo sempre desceu ao primeiro andar. E, ao barulho de seus passos, ouviu gritar logo de um quarto.

- É o senhor, Sr. Teobaldo?

- Sou eu, sim, minha senhora.

- Venha até cá; entre. Tenha paciência!

Ele, que não conhecia ainda os quartos do primeiro andar, seguiu a direção da voz e achou-se pouco depois em uma alcova, meio atravancada de trastes, onde teve de andar às apalpadelas, tão completa lhe parecia a principio a escuridão.

Entrou a tropeçar nos móveis e, de braços estendidos, tateou casualmente alguma coisa que pela macieza, seriam talvez as faces de D. Ernestina.

- Fique! pode ficar! disse ela a um movimento de retração que fez o estudante; o senhor não é de cerimonia, fique!

Teobaldo, que acabava de esbarrar com as pernas em uma cadeira, assentou-se e, habituando-se pouco a pouco à escuridão, foi gradualmente distinguindo o que o cercava. Só então reparou que D. Ernestina conservava uma das mãos dele entre as suas, e que ela estava estendida em uma cama larga, de casados, onde apenas a cabeça e os braços se lhe viam por entre coberta e lençóis.

- Está doente? perguntou ele.

- Muito, Sr. Teobaldo, muito!

- Que foi isso?

- Ora! Imagine que recebi hoje pela manhã a notícia da morte da única parenta que me restava no mundo.

- Sua tia, disse-me o Coruja.

- Minha tia, não; não era só minha tia, era o meu tudo!

E a um rebote de soluços:

- Oh como aquela nunca mais encontrarei outra! Nunca encontrarei!

Dizendo isto, D. Ernestina ergueu os braços para o teto e, deixando-os cair em volta do pescoço do rapaz, encostou a cabeça no peito deste e assim ficou a chorar por longo tempo.

- Bem... resmungou ele um tanto constrangido. Mas a senhora não lucra nada em se afligir desse modo! Faça por conformar-se com o que sucedeu... Não há de ser à força de lágrimas que sua tia voltará à vida! Console-se! - Oh! mas é que eu não posso! mas é que eu não posso!

E, a cada exclamação, mais se estreitava contra o moço, a ponto de lhe fazer sentir nas faces, nas orelhas e afinal nos lábios o resfolegar ardente dos seus soluços.

- Não posso! não posso conformar-me com semelhante desgraça!

- Mas faça por isso.. . retrucou ele, quase que a soprar-lhe as palavras pela boca. Faça por ter um pouco de resignação ...

- Obrigada, muito obrigada!... suspirou a chorosa procurando conter o pranto.

E, como em agradecimento àquelas boas palavras de condolência, levou aos lábios as duas mãos do rapaz e cobriu-as de beijos que a outro qualquer surpreenderiam, não a ele, desde o berço amimado a cada instante.

Em Teobaldo era já um hábito muito antigo receber carinhos daquela espécie. Quase nunca os retribuía; aceitava-os friamente, sem comoção, como um proveito e glorioso artista recebe os elogios de um homem que lhe fala pela primeira vez.

III

Depois desta cena Ernestina passava a maior parte dos seus dias no segundo andar. Mas não gostava de lá ir enquanto o Coruja não tivesse saído para a rua.

É que ele a intimidava com o seu ar antipático e carrancudo e com aquela repreensiva gravidade de homem sério; defronte dele sentia-se acanhada e contrafeita, como se estivesse defronte de um velho intolerante e respeitável; sentia-se mais criminosa ao lado de André do que ao lado do próprio Almeida.

Quanto a Teobaldo, esse, longe de a constranger, fascinava-a, atraindo-a, dominando-a com a sua indiferença e com o seu orgulho gracioso e sedutor.

Ao tom senhoril das palavras dele, defronte daquele olhar fidalgo ou daquele frio sorriso de adulado, ela se sentia escrava e submissa, feliz em amá-lo, mesmo com a certeza de ser mal correspondida.

E, quanto mais passiva se tornava a pobre moça, mais senhor se fazia ele; tanto que afinal já lhe dava ordens e já a repreendia, como se estivesse a falar com o Sabino. Uma vez em que Teobaldo à secretária respondia às cartas da família, ela tomou-lhe a cabeça entre as mãos e beijou-lhe os olhos.

- Que é isso? perguntou ele.

- Não ralhes comigo...

- Vejo fogo!

Ernestina obedeceu e foi colocar-se depois ao lado dele.

- Queres que me vá embora?... perguntou no fim de algum silêncio.

- Pode ir.

Ela deu alguns passos para sair da sala, mas voltou na ponta dos pés.

- Por que me tratas assim!... disse encostando a cabeça na dele.

- Ainda? exclamou Teobaldo, sem levantar a pena do papel.- Estás farto de mim, não é?

- É.

- Ingrato!

Ele não lhe deu mais uma só palavra e continuou a escrever até que Ernestina se foi embora, a enxugar as lágrimas.

Entretanto, nem sempre a tratava assim; às vezes chegava até a mostrar-se carinhoso com ela. Nos bons dias, ao entrar da rua, corria-lhe a mão pelos cabelos e fazia-lhe festinhas no queixo. Dependia tudo do seu bom ou mau humor.

Uma noite, ela o fitou com mais insistência e perguntou-lhe se queria que o Almeida fosse para o olho da rua.

- Mas a senhora não disse que era casada com ele?

(continua...)

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