Por Aluísio Azevedo (1884)
Foi aí, nesse canto ignorado da velha Espanha despojada, ao ciciar das brisas do Guadalquivir e à sombra murmurosa dos gigantescos loureiros e dos sicômoros, que Filomena se identificou pela primeira vez com o marido. E fê-lo sem a mais leve reserva, nem o mais ligeiro rebuço, chegando até a amá-lo com transporte, com delírio, chamando-lhe "seu raptor, seu amante!" Refugiando-se nos braços dele, cheia de ternura e de medo, unidos, sobressaltados, como dois criminosos que ardessem na chama da mesma paixão clandestina,
O bom homem não desejava melhor; "assim não fosse ela tão caprichosa"!
Filomena agora o obrigava a longos passeios por entre canaviais bravios por entre matagais de cactos, escolhendo lugares difíceis, quase intransitáveis, onde às vezes era preciso que ele a carregasse nos ombros para vadear pequenos regatos, coalhados de nenúfares, ou levá-la ao colo pelo meio de barrancos perigosos, cobertos de limo e salsas espinhosas. Outras vezes lhes sucedia perderem-se, e os dois tinham de descansar sobre a relva, sofrendo sede e fome, sempre foragidos, evitando as vistas de quem quer que fosse, como se fugissem de inimigos implacáveis.
Borges, temendo contrariá-la, submetia-se a tudo isso de cara alegre. Fingia desfrutar o mesmo encanto que ela desfrutava; fazia-se entusiasmado pela natureza, amando as águas do regato, admirando os passarinhos, correndo atrás das borboletas e deitando-se de bruços à beira do rio; o queixo na palma das mãos, a balbuciar versos; os olhos perdidos no serpentear monótono da corrente.
Mas no fundo sentia-se muito mal à vontade e extremamente contrariado. — Por que não havia sua mulher de ser como as outras?... Seria tão bom que os dois, àquela hora, estivessem gozando juntos, numa boa casa, em plena segurança e em plena dignidade do lar, a mais completa e a mais doce felicidade a que tinham direito por todos os motivos! Oh! ele, porém, amava-a tanto, tanto, que seria capaz de todos os sacrifícios para vê-la alegre e satisfeita! — Além de que, Filomena com o tempo havia de mudar de gênio!... Estava ainda muito moça, muito cheia de fantasias, porém tinha o principal, que era — boa índole e bom coração.
E ele subordinava-se, abafando os seus ressentimentos, sem um olhar de queixa, sem um gesto de desgosto, sem nunca desmentir aquele bom humor primitivo, aquela mesma condescendência delicada e simples, aquela mesma extrema amizade, leal e generosa.
Mas os caprichos de Filomena multiplicavam-se a cada momento. Era já a idéia de acompanhar os pescadores ao rio, à noite, munidos de archotes e vestidos como eles; era já a fantasia de uma caçada pela Serra-Morena, em horas de calor, ou então a mania de uma pastorada nos vales sombrios e pacíficos, acompanhando o gado, a cantarem de mãos dadas pelas ribanceiras, ou então deitados na grama, nos braços um do outro, à espera que o sol acabasse de descer no horizonte a sua escadaria de fogo.
De repente veio-lhe uma febre de viajar — viajar muito, sem destino, não pelas cidades muito conhecidas e palmilhadas cotidianamente por centenas de estrangeiros taciturnos, encapotados nos seus ulsters, de binóculo em bandolin e chapéu de sol encapado de verniz. — Não! nada disso! Queria lugares totalmente imprevistos, que ainda não tivessem sido muito decantados pelos poetas como a "sua Itália" e que lhe deparassem comoções inesperadas. — Queria os verdadeiros perigos, as fadigas dos desertos arenosos, a cólera dos simouns, o risco das florestas virgens, as jornadas por ínvios sertões desconhecidos, os horizontes eternos e as longas noites perdidas nos cumes silenciosos das montanhas, ouvindo o sanhudo sibilar dos ventos e os roncos desesperados das feras que tem fome!
O Borges sentiu um calefrio percorrer-lhe o corpo inteiro ao receber dos lábios da mulher aquela terrível sentença.
— Precisamos de uma vida mais agitada! explicou ela, vendo o gesto surpreso do marido.
— Mais agitada?!... ..... — balbuciou este.
— Sim! mais agitada! Sinto-me morrer de inanição! Basta de repouso! É preciso dar começo a uma nova existência!
O Borges esteve a perder os sentidos.
— Pois agora é que ia principiar o exercício?! pensou ele numa verdadeira vagabundagem?!... Mas então que não será ela?! — Se até aqui descansei, qual não será minha pobre vida de hoje em diante?!...
Filomena não percebeu o sobressalto do marido, porque estava já a cismar no Oriente.
Julgava-o numa desordem de impressões recebidas de Antony Rich, René
Menard e principalmente de Lady Anna Brunt, cuja originalidade e cujo espírito másculo a fascinavam. Não lhe era estranho também o Dicionário Arqueológico de E. Bosc e por mais de uma vez folheara o itinerário do Dr. Emilio Isambert.
Com todo esse combustível a fumegar-lhe dentro da cabeça, via-se já dentro das muralhas venerandas de Jerusalém; sonhava o consagrado Sinai, a Abissínia, Malta, a Núbia e — o Egito.
O Egito! o longo e tortuoso Egito, cheio de passado e relumbrante de
tristeza.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.