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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Ah! ela estava no caso de fazê-lo feliz, porque o amava! Oh! Se o amava! Seria talvez uma loucura; talvez viessem a censurá-la; — ela mesma não sabia explicar o que aquilo era, como aquilo acontecera! Mas, dava a sua palavra de honra, jurava pela memória de seu pai — em como nunca sentira por ninguém o que então sentia por Coqueiro! Ah! sabia perfeitamente que bem poucos compreenderiam a sua paixão! Sabia que muitos haveriam de ridicularizá-la, haveriam de escarnece-la; ela própria, até ali, nunca imaginara que se pudesse amar tanto!... Durante a sua vida , nunca se sentiu possuída por uma idéia, tão escrava, tão vencida, como naquele instante! Contudo, se desejava o casamento não era decerto pelo fato de possuir um homem. — Oh, não! — deixava isso para as almas grosseiras... e Coqueiro bem sabia o quanto seu coração tinha de espiritual e de puro!... Desejava aquele enlace para licitamente [pode aplicar todo o seu esforço, toda a sua coragem, todas as sua diligências, na conquista de um bom futuro para o esposo. Queria casar-se, porque entendia que isso se tornava necessário à felicidade de Coqueiro. Toda a sua vida, todos os seus recursos dela, seriam empregados para o mesmo fim: — facultar ao marido os meios de estudar, os meios de crescer, desenvolver-se, luzir. Alcançasse ele um nome, uma posição brilhante, uma atitude gloriosa, e tudo o mais lhe seria indiferente. Que lhe importava o resto?... Se ela, porventura, fosse esquecida, fosse desprezada, se viesse mesmo a falecer daí a pouco tempo — que valia tudo isso, se o objeto de seus extremos era ditoso e vivia cercado de admiração e aplauso?...

E Mme. Brizard , depois de lhe falar na posteridade e depois de convencer ao Coqueiro de que aquele casamento era um dever sagrado, pois que não realizá-lo eqüivalia a privar o Brasil de uma de suas glórias futuras e ao século um de seus vultos talvez mais grandiosos, Mme. Brizard, depois disso, entrou nos pormenores de seu plano.

— Uma vez casados, ressuscitariam a antiga casa de pensão. Ela dispunha de algum dinheiro; o outro dispunha de um prédio: — era restaurá-lo e dar começo à vida! Coqueiro abandonaria o emprego e voltava de novo aos estudos;” ela encarregava-se da gerência da casa e, nesse ponto, deitando de parte a modéstia, supunha-se mais habilitada que ninguém.

Até já tinha projetos, já tinha asa suas idéias sobre a instalação da casa!...Sentia-se de disposta a trabalhar por vinte!...Coqueiro havia de ver! Seu estabelecimento seria uma casa de pensão modelo! Coisa para dar “uma fortuna e render à Amelinha um bom casamento. Um casamentão!” Ah! Ela , a francesa, sabia perfeitamente como tudo isso se arranjava no Brasil.

E concluiu , jurando inda uma vez, que — para si não queria nada! Que só desejava a felicidade do Coqueiro e de sua irmã dele.

Era assim que entendia o amor!

Três meses depois estavam casados.

Boquejou-se alegremente sobre isso na Escola Politécnica . Os amigos do Coqueiro acharam ocasião de rir, e a tal mulher do ministro plenipotenciário, a gloria da família, escreveu à mãe uma carta carregada de recriminações, declarando que nunca lhe perdoaria semelhante loucura — Loucura , de que para o futuro haveria Mme. Brizard de se arrepender muito seriamente.

Os recém-casados fecharem , porém ,ouvidos a tais palavras e cuidaram de ir pondo em prática os seus novos planos de vida

Meteram mãos à obra. Coqueiro deixou o emprego, contratou um empreiteiro para restaurar o seu velho prédio da Rua do Resende, e a casa de pensão de Mme. Brizard (como teimosamente insistiam em lhe chamar a mulher) surgiu ameaçadora, escancarando para a população do Rio de Janeiro a sua boca de monstro.

CAPÍTULO VI

Foi justamente três anos depois disso que Amâncio chegou ao Rio de Janeiro.

A casa de Mme. Brizard estava então no seu apogeu; de todos os lados choviam hóspedes, entre os quais se notavam pessoas de importância. Pelo tempo das câmaras reuniam-se ali alguns deputados da província, homens sérios, em geral gordos, o ar discreto, um sorriso infantil à superfície dos lábios e um fraseado imaginoso, cheio de poesia. Fazia-se política no salão, depois da comida, em chinelas de tapete, ao remansado soprar do fumo da Bahia.

A dona da casa gozava para eles de muita consideração; só um ou outro, mais atirado à pilhéria, ousava atribuir a algum dos seus “nobres colegas ”os sorrisos de Mme. Brizard.

Outros entusiasmavam-se por ela.

— Não! diziam. — Aquela mulher devia ter sido um pancadão no seu tempo! Tudo que era pescoço e ombros ainda se podia ver! Quem dera a muitas novas um colo daqueles!

De uma feita, um deputado de Minas, criatura baixa, socada, rosto curto, poucas palavras e muita barba, empalmou-lhe a cintura, quando a pilhou sozinha na sala de jantar.

A francesa abaixou os olhos, afastou-se dignamente e foi logo dizer ao marido que era necessário pôr aquele homem na rua.

— O Moura! Por quê?

— Não te posso dizer por que...mas afianço que o Moura não nos convém!...

— Fez-te alguma?

— Faltou-me ao respeito!

— Hein?!

(continua...)

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