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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

E teria caído no chão, desfalecida, se Ângelo a não amparasse nos braços.

Acudiram todos e se apoderaram dela.

O presbítero puxou de novo o seu capuz sobre o rosto, deu o braço à outra sombra, e começaram os dois de novo a seguir o seu caminho.

Ângelo tinha afinal compreendido bem a verdadeira causa da sua perturbação.

A sua perturbação era o amor.

CAPÍTULO XV

Duas vezes enjeitado

Ângelo chegou a Monteli, acompanhado por Ozéas, às sete da manhã.

Veio recebê-lo à porta da casa uma velha chamada Salomé, antiga criada que fora do falecido pároco do lugar.

— Então? então, meu filho?... perguntou-lhe o egresso. Que em ti significa tamanha tristeza?... Pareces-me um vil criminoso sobrecarregado de remorsos!...

Vamos! Não te convém esse aspecto! Dize-me com franqueza o que sentes...

— Nada! Nada, meu pai! São íntimas tristezas sem razão de ser!... são desgostos só meus, que só eu mesmo compreendo! ... A viagem fatigou-me. Preciso repousar... Bem sabe que ainda não estou bom de todo ...

— Pois sim, recolhe-te! Ali está o teu quarto. Já mandei pôr lá a imagem da Virgem. Eu ficarei aqui. Até breve. — Até breve, meu pai.

E Ângelo, arrastando a sua melancolia, entrou no pequeno aposento que lhe era destinado.

Um triste quarto, em que a formosa imagem da Virgem se destacava, como na outra cela do convento de S. Francisco de Paulo. Paredes nuas e velhas, teto esborcinado e sem forro.

Ângelo sentou-se no catre que havia a um canto, e começou a soluçar, com o rosto afogado nas mãos.

Chorava, e não sabia dizer por quê. Sofria e não se animava a confessar a si mesmo de onde lhe vinha aquela dor, que assim lhe arrancava tão quentes lágrimas do coração.

Mas seu desejo era poder naquele momento apertar nos braços alguém, cujo nome seus lábios não se atreviam a balbuciar, receosos de magoarem a candidez da sua alma virginal, branca noiva de Deus! O seu desejo era poder dizer o que lhe ensinara a Bíblia, era poder cantar a capitosa música do Cântico dos Cânticos, que nunca alma nenhuma jamais no mundo sonhou e repetiu sozinha. O seu desejo era poder dizer: "Eu te amo!" e sentir a miragem desta doce palavra refletida inteira nuns lábios de mulher, que lhe não falavam, porque já não tinham voz senão para soluçar de amor.

O seu desejo era Alzira!

Era Alzira de carnes brancas e olhos negros! O seu desejo eram longos cabelos nus, soltos no vendaval de todos os desejos. O seu desejo eram lábios trementes e vermelhos, eram doces braços de veludo, eram a funda morte do supremo gozo, bebido de barco sabre um níveo colo de Eva paradisíaco!

O seu desejo era o pecado.

E Ângelo chorava.

Mas, de repente, como se o espetro do dever lhe tocara no ombro, ele ergueu-se estremunhado e trocou um olhar, ansioso e suplicante, com o triste e quieto olhar da Virgem.

Correu para junto dela e ajoelhou-se a seus pés, mesquinho de remorso e trêmulo de arrependimento.

— Valei-me! disse, erguendo para a imagem os olhos lacrimosos. Valei-me a mim, a mais desgraçada de todas as vossas criaturas!

E soluçava.

— Maria! Maria puríssima! exclamou ele depois, como um desprezado amante aos pés da sua cruel amada. Vede! Atendei, flor dos céus! Vede bem que sou eu quem aqui vos fala e quem vos chama neste momento!

E arrastando-se de joelhos, com os lábios estendidos para alcançar-lhe a fímbria do vestido:— Mãe casta! mãe sempre virgem, valei-me! Vós sois o meu último recurso, a minha última salvação! Escondei dentro da urna de marfim da vossa misericórdia a pureza da minha pobre alma, que a besta imunda a cerca, farejando! Salvai-me, virgem mãe sem mácula; abrigai-me numa das dobras do vosso manto azul, constelado de estrelas! Defendei-me contra mim próprio e contra o meu sangue traiçoeiro! Vós, que sois o eterno prodígio da castidade, protegei a minha castidade contra os meus íntimos inimigos! Não me deixeis cair em pensamentos depravados! Exorcizai de dentro do meu corpo o demônio que me morde as carnes e cospe fogo no meu sangue! Enxotai a luxúria, que baba minha alma para sorvê-la depois!

Salvai-me! Salvai-me, rainha de bondade! Se quereis abandonar-me assim, à mercê dos meus sentidos, por que pois me aninhastes carinhosa, durante tanto tempo, sob as asas brancas da vossa divina graça?... Se a vossa intenção era atirar-me assim às garras do pecado, por que pois, me ensinastes a amar-vos tão castamente desde a minha infância mais inocente?... Dormi tão confiante em vossa guarda, respirando as rosas místicas do vosso divino amor, e de repente acordo, sobressaltado, entre uivos de fera que me cerca, para devorar-me!

"Onde estais vós, mãe puríssima, onde, que desde aqueles malditos olhos tão formosos e tentadores, já me não ouvis as súplicas e já me não enxugais, com o vosso alvo sudário cor de neve, as lágrimas deste desespero?

(continua...)

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