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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

Maurícia tinha saído a visitar uma discípula que morava no povoado. Era sempre acompanhada de Virgínia que ela se dirigia ao Caxangá para tomar lição a várias alunas que ali tinha; mas Virgínia saíra a passeio com Alice e Paulo para as bandas de Apicucos, quando lhe vieram dizer que aquela discípula estava doente. Os dias que se tinham passado depois das cenas representadas nos aposentos de Maurícia, esta os vivera na mais acerba tristeza. Comunicada a sua heróica resolução a Albuquerque, ela não descera mais do sobrado senão para as refeições. Não tinha olhos, não tinha alma, senão para ver interiormente a sua desventura, e pensar na incerteza do seu destino. Quando uma semana antes voltara de estrada de João de Barros, o pensamento que prevalecia entre outros muitos que lhe tumultuavam no entendimento era o de sacrificar todas as conveniências à manutenção da sua independência. Evidentemente, esta criatura estava fora do seu natural, quando não se dirigia por si mesma, quando era obrigada a aceitar o governo estranho para seus atos. Conhecendo o que valia, viera resoluta a defender a sua liberdade. Seu amor incipiente, mas já grande, fortificara-a neste intento e chegara a inspirar-lhe a carta que escreveu a Martins. Mas as circunstâncias tinham sido mais poderosas do que a sua vontade, tinham imposto cruelmente ao seu espírito a solução que ela mais temia, e que considerava a mais contrária ao seu futuro sossego.

Este golpe enfraqueceu as suas faculdades. Sobreviera o desânimo, e em conseqüência o isolamento. O piano, termômetro do estado dos seu afetos, tornarase silencioso. Enfim, Maurícia caíra nessa atonia moral, que parece indicar um estado mórbido do espírito, quando não passa de uma lenta consunção do coração. Mas aquela tarde uma como reação, proveniente talvez da impressão que produzia nela a notícia de estar enferma aquela amiga para quem tinha grandes preferências, viera dar-lhe novos alentos.

Se tal não foi a razão do seu procedimento, teve este por origem motivo diverso, mas correlativo. Bezerra, depois da última visita, por ocasião da qual Maurícia se negara a aparecer-lhe, não tornara ao engenho. Maurícia suspeitou que ele viria aquela tarde; e, pois não tinha ainda as forças que semelhante recepção exigia, aproveitou-se da aludida circunstância, no pressuposto, talvez falso, de diminuir uma dor que o espaçamento antes aumentava. O capricho natural da mulher, achou, então, ocasião para exercitar seu predomínio. Maurícia escolheu um dos seus melhores vestidos. Ao cabelo, que há três dias andava quase despenteado, deu ela forma graciosa que, ostentando a sua opulência, lhe deixou livre a ampla fronte, e descoberto o pescoço claro e esbelto. Maurícia estava encantadora.

Ângelo alcançou-a tanto que ela entrou na quadra deserta do caminho.

— Não podendo esquecer-me da senhora, vim pessoalmente receber suas ordens.

Maurícia não soube a princípio o que dizer. A sua surpresa fora grande. Confusão de prazer e descontentamento, de confiança e temor foi a primeira impressão do seu gesto, que ela não pode ocultar.

— Como eu estava longe de esperá-lo por aqui! — disse revelando com franqueza toda a sua violenta impressão.

A esse tempo Ângelo tinha-lhe oferecido o braço, e caminhavam juntos.

— Sabendo que todos aqueles de quem a senhora devia esperar auxílio tinha tomado o partido de seu marido, julguei do meu dever vir oferecer-lhe os meus serviços. Está tudo pronto. A viagem já está contratada. Nada nos há de faltar. Embarcaremos hoje mesmo, se o quiser. Tenha confiança em mim. Meu coração está com a senhora. Defendê-la-ei em toda parte. Sacrificar-me-ei, se tanto for preciso, por lhe ser agradável. Oh! nada me agradeça, nada me agradeça. Nada me deve. Eu, sim, tudo lhe devo. Não obstante as apreensões, as preocupações que me dominaram durante esta semana. tenho vivido mais nestes últimos dias do que vivi em todos os meus vinte e dois anos. Não percamos tempo. A senhora não tem uma pessoa por si, a não ser eu. Se demorar mais um dia no engenho, já não lhe será possível, talvez, escapar, às garras de seu marido.

Para que Maurícia ajuizasse do estado moral do bacharel não era preciso mais do que acabava de ouvir. Estas palavra veementes e desconexas acusavam tal excitação em seu amigo que produziam nela certa impressão de pavor. Conheceu que a paixão que inspirara a Ângelo tinha nascido com força descomunal como a criança mitológica que sufocava no berço as serpentes. Esta grandeza lisonjeou o seu amor próprio, e, ao mesmo tempo, assustou-a. A lembrança da sua última resolução, ela ainda a trazia na memória como sombra agoureira, e foi motivo para que os seus temores aumentasse ainda mais. Procurou em si forças para revelar-lhe esta decisão, e não as encontrou. Que não faria Ângelo, quando fosse sabedor de semelhante desenlace, que importava o aniquilamento da fé imensa que enchia os eu espírito e dava ao seu afeto as proporções de um poder sobrenatural?

(continua...)

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