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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

Elias aceitou o oferecimento mais para se ver a sós com o seu desespero, do que por necessidade que tivesse de auxílio algum. Seu coração, que até ali se enchia a transbordar de esperanças e venturas, sentiu-se subitamente atracado entre as garras da mais cruel decepção. Mil projetos desencontrados lhe tumultuavam na cabeça. Ora queria ir imediatamente ver Lúcia, exprobrar-lhe sua perfídia, e apunhalar-se à sua vista. mas isso seria uma triste vingança: não convinha deixa-los vivos e felizes sobre a terra. Iria procurar primeiro o infeliz sedutor, esbofeteá-lo, cuspir-lhe no rosto e depois arrancar-lhe as entranhas, e com o mesmo punhal, ainda fumegante do sangue do vil, imolar-se aos olhos da pérfida. . . Mas. . . ele era inocente talvez; ignorava que aquela embusteira já tinha penhorado a outrem por um juramento sagrado o seu amor e a sua mão. A vítima devia ser ela, somente ela. Mas como vingar-se dela? . . . mata-la? . . . semelhante idéia lhe repugnava. . . derramar o sangue de uma fraca mulher é a mais infame das cobardias, o mais monstruoso dos atentados. Despreza-la? . . . mas o desprezo só é um castigo, quando recai sobre pessoa que nos ama, e Lúcia! exclamava o infeliz estorcendo-se em ânsias de desespero, Lúcia não me ama; Lúcia nunca me amou; senão, jamais se teria tão facilmente esquecido de mim para se entregar a outrem. E assim não há remédio! nem o consolo da vingança me é dado! e a vítima de todos estes embustes e perfídias serei eu, somente eu!

Elias foi interrompido em suas febris maquinações por seu hóspede, que lhe trazia o vinho quente, enquanto uma escrava lhe preparava a cama em uma alcova imediata à sala. Depois de trocarem algumas palavras banais, o negociante julgou conveniente deixa-lo só, visto o seu incômodo de saúde, e depois de tê-lo cuidadosamente deitado em seu leito despediu-se recomendando-lhe que se abafasse bem.

Apenas porém o moço achou-se só, arrojou para longe de si coberturas e lençóis, saltou fora da cama, e começou a passear a passos precipitados ao comprido da sala. Assim passou grande parte da noite com a idéia de sua desgraça a devorar-lhe o cérebro, e a fustigar-lhe o coração.

Por fim, à força de pensar, ou antes, à força de delirar, começou a duvidar da realidade de seu infortúnio; achou que tinha sido demasiado leviano em dar tão depressa inteiro crédito às palavras do negociante, e apelou para o dia seguinte.

Embalado nessa dúvida consoladora, que o céu como que lhe enviara para dar algum repouso à sua imaginação tresvairada, adormeceu quando os galos já começavam a amiudar seus cantos.

IX – ALÉM DE QUEDA,COICE

O dia amanhecera esplêndido.

Os vultos das grandes árvores isoladas, restos da floresta, que o machado tinha poupado, debuxavam-se em um céu puro e rico de fulgores, e balanceavam os topes verdes- negros, como velhos caciques sacudindo os cocares nas danças sagradas.

As brisas, que sopravam frescas, traziam mil perfumes de flores selváticas, e rumorejavam pela encosta, mesclando seu sussurro ao marulho das cachoeiras e à vozeria alegre dos garimpeiros, cujos almocafres e alavancas retiniam no cascalho das grupiaras. Toda a povoação despertava alegre e cheia de vida, como garça que à beira do lago se espaneja aos raios do sol, sacudindo das brancas asas as pérolas matutinas.

Quando Elias despertou, o sol já batia em cheio por ambas as margens do ribeirão. Abriu a janela, e deu com os olhos naquele magnífico e risonho espetáculo, que tão cruel e pungente contraste formava com o estado reamargurado de seu coração. O golpe que recebera na véspera repercutia-se agora em sua alma, ainda mais rude e doloroso. Ali esteve por mais de uma hora pensativo, perplexo e mergulhado no mais profundo abatimento. Não atinava com o que deveria fazer, e desejaria ali ficar para sempre mudo, imóvel, petrificado como uma estátua.

Por fim resolveu-se a procurar na agitação do corpo alguma diversão aos pensamentos que lhe escaldavam o cérebro. Pegou no chapéu, e saiu à toa e sem destino pelas ruas da povoação. Encontrou muitos amigos e conhecidos que o cumprimentavam, e da boca dos quais, sem que o perguntasse, ouvia a confirmação da fatal notícia do casamento de Lúcia. Esse casamento andava de boca em boca, e era o acontecimento que então mais preocupava a imaginação do público. Elias andava como que atordoado; aquele movimento e burburinho da população como que lhe causava vertigens. Os cumprimentos e felicitações de seus amigos o perturbavam, e pareciam-lhe um sarcasmo cruel. Assim vagou maquinalmente pelas ruas. Quando se recolheu a casa, era já meio- dia.

Logo ao chegar à casa do negociante, veio-lhe ao encontro o seu arrieiro a pedir-lhe dinheiro para pagamento do milho e mais despesa da tropa. Tirou da carteira uma nota de 20$000 e apresentou- a ao caixeiro da casa, pedindo-lhe que a trocasse por miúdos. O caixeiro, depois de examinar a nota por um instante, devolveu- a a Elias.

- Perdão, meu amo, disse-lhe o caixeiro, não lhe posso servir: esta nota é falsa.

(continua...)

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