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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

A mudança de estado, a companhia e intimidade de um bom marido, o desempenho dos deveres domésticos, talvez produzissem no espírito da moça uma revolução salutar, e a restituisem à vida e à alegria. A dificuldade estava na execução desse pensamento. Se a causa de seus sofrimentos era, como pensava, a violenta paixão que havia concebido por Eduardo, bem difícil seria induzi-la a aceitar um marido, fosse ele quem fosse.

Todavia Joaquim Ribeiro não recuou diante de tal dificuldade, e deliberou envidar os últimos esforços para levar a efeito seu pensamento. Não tinha necessidade de procurar um noivo para sua filha; desde a infância de Paulina e Roberto havia como que um compromisso tácito entre ele e os pais de Roberto, seus parentes e vizinhos, um projeto de família para casá-los, caso não aparecesse algum ulterior obstáculo; não tinha mais, pois, do que abreviar um negócio, que já estava meio conchavado. Roberto, apesar de sua simplicidade e rudeza era bom moço, bem apessoado, e tinha um excelente coração; aquelas maneiras broncas e asselvajadas eram efeito da educação, e facilmente as iria perdendo com o traquejo do mundo. Este casamento ele o proporia também a Paulina como um ponto de honra, como um compromisso, a que nem ele nem ela poderiam faltar sem quebra de sua lealdade.

Logo no dia seguinte ao em que concebeu aquele projeto, Joaquim Ribeiro procurou sua filha para lhe comunicar sua resolução, disposto a empregar todos os meios, até mesmo a autoridade paterna para induzi-la a dar esse passo. Não foi preciso tanto; Paulina relutou muito, porém não tanto quanto ele receava.

– Pois bem, minha filha; – disse-lhe o pai depois de muita insistência de parte a parte; – propunha-te esse casamento porque acredito que é o único meio de salvar-te; mas já que queres morrer e arrastar-me contigo à sepultura, faça-se a tua vontade.

– Não, meu pai, – exclamou a moça tomando a mão de seu pai, beijando-a com ternura e banhando-a em lágrimas; – já que meu pai assim o quer, e assim acha conveniente, farei o que meu pai determina, visto que esse casamento,– murmurou ela em voz mais baixa e como a medo, se não pode me fazer feliz, também não me tornará mais desgraçada do que sou Paulina, que já tinha renunciado a toda a esperança de felicidade no mundo, não quis e nem pôde recusar-se ao sacrifício que dela exigia seu pai quase com as lágrimas nos olhos. Se não tinha amor a seu primo, também não lhe tinha aversão. Casada ou não, teria de sofrer sempre até morrer. Resignouse portanto e curvou-se à vontade de seu pai, porque assim tinha ao menos o prazer, embora fosse por pouco tempo, de alentá-lo com a esperança de um futuro no qual ela mesma pouca ou nenhuma confiança tinha.

Nesse mesmo dia Joaquim Ribeiro despachou um próprio com um bilhete a Roberto, pedindo-lhe que o mais breve que fosse possível chegasse a sua casa. Escusado é dizer, que no outro dia à hora de almoço Roberto apeava-se ofegante e ansioso de curiosidade à porta da casa de seu tio, e largando à porta o animal batendo virilha e pingando suor, de dois pinotes galgou a escada da varanda; e se não chegou mais cedo, é porque não tinha asas.

Cumpre-nos aqui dizer que Roberto, depois da partida de Eduardo, não tinha perdido nem um ceitil da paixão que tinha por sua prima, e não deixava de fazer reiteradas visitas à fazenda de seu tio, e ora em caçadas, ora campeando uma rês perdida, ora por qualquer outro pretexto, que sabia inventar, lá ia quase sempre esbarrar e pernoitar. Vendo-a triste e indisposta perguntava-lhe o que tinha. Ela sempre meiga e afável respondia-lhe, ora que era uma indisposição de estômago, ora uma constipação, e o simples do rapaz acreditando piamente estava longe de suspeitar, que tudo aquilo não era menos do que o efeito de uma paixão profunda, da qual ele não era o objeto, e lá de si para si julgava, que a moléstia de Paulina não era senão vontade de se casar, pois tinha ouvido dizer a muita gente que algumas moças adoecem e morrem por não se casarem a tempo. Roberto, além de ser muito moço, – pois teria vinte anos quando muito, – não tivera educação alguma; demais, vivendo sempre na roça, não tinha a menor experiência de mundo, e muito menos desse pequeno mundo tão cheio de problemas e mistérios, que se chama coração humano. Era um simplório, mas tinha um excelente caráter, e muita sensibilidade. Há muito tempo desejava falar ao tio no seu casamento com Paulina; mas tinha vergonha e acanhamento como uma moça. Todas as vezes, que ia a casa do tio, ia na firme resolução de falar-lhe francamente no negócio, mas apenas chegava à sua presença, a coragem o abandonava, falava muito, contava mil histórias, e por fim nunca dizia ao que ia.

(continua...)

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