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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Como o Sr. D. João, também os nossos dois imperadores preferiram, com razão, S. Cristóvão ao largo do Paço, e a necessidade de um palácio na cidade pareceu assim menos urgente.

Eis aí por que a casa, que a princípio se chamou dos governadores, tem podido atravessar mais de um século, merecido três promoções, pois que passou a ser casa dos vice-reis, depois palácio real e, enfim, palácio imperial, e se mantêm ainda com o mesmo título, apesar da sua insuficiência, da sua mesquinhez, do seu estado de ruína e, em uma palavra, apesar do cupim que a conquistou toda.

Entretanto, deve-se dizer, tal qual é, o palácio da cidade encerra já importantes recordações históricas.

Em relação ao passado, a lousa pesada do tempo esconde na sepultura do esquecimento, sem dúvida, muitas lembranças interessantes. Metade, porém, da nossa história contemporânea lê-se nas janelas e nas salas desse palácio.

Pelas salas daquela casa, a nossa imaginação, ruminando os anos do último século, vê passar vultos dos governadores e dos vice-reis, cuja bengala era o símbolo do despotismo do governo e da escravidão do povo. Há ainda quem suspire pelas delícias daquele tempo. Eu, porém, apesar dos Freires de Andrade, Lavradio e Luís de Vasconcelos, dou graças a Deus por ter nascido em uma época em que tenho direito de pensar, falar, escrever e proceder com toda a liberdade que me garante a Constituição do Império. São gostos...

De uma das janelas da face principal daquele palácio, o governador conde de Bobadela e o bispo frei Antônio do Desterro, em um dia do ano de 1759, estiveram olhando atentamente para o trapiche que havia no lugar onde depois se estabeleceu o arsenal de guerra, enquanto se embarcavam os padres jesuítas expulsos do Brasil por ordem de D. José I.

Em que pensava então o bispo, Deus o sabe. Rezava, talvez, pedindo o perdão daqueles que, depois de terem prestado tão grandiosos serviços ao Brasil, tinham esquecido pelos bens da terra a piedosa e simples missão dos missionários dedicados e civilizadores. O conde, porém, meditava, sem dúvida, no que pode conseguir a força de vontade e a energia política de um homem como foi o Richelieu português, o famoso marquês de Pombal.

A edificação da casa dos governadores coincidiu com o começo de uma época que se recomenda à memória agradecida dos fluminenses. Porque é exatamente desse tempo que data o empenho de alguns administradores pelo embelezamento e progresso da cidade do Rio de Janeiro: as nossas melhores obras públicas foram realizadas do meado do século décimo oitavo em diante, e as ordens para a execução delas assinaram-se naquela casa.

Em 1808, a monarquia lusitana asilou-se no palácio da Sebastianópolis, fugindo à pressão e ao ímpeto vitorioso das falanges do conquistador moderno; e então a antiga casa dos governadores foi o ponto onde se concentraram as vistas de todos os portugueses, e especialmente as mais ardentes esperanças dos brasileiros, que, entusiasmados ao ver a terra de Santa Cruz elevada de colônia a metrópole, não podiam mais admitir a idéia da perda dessa supremacia.

E dentro do palácio, em uma de cujas salas a realeza fizera levantar um trono onde até bem pouco se mostrava a cadeira pesada dos vice-reis, perdeu-se no mistério de secretas confidências e nos disfarces de intrigas cuidadosamente manejadas, a história de uma longa e porfiada luta entre a corte e o príncipe regente, depois rei. Entre a corte desmoralizada, interesseira e prepotente que oprimia o povo, procurava fazer do país uma fazenda sua, e via com olhar vesgo o rápido desenvolvimento da antiga colônia; e o rei, que amava o Brasil, que desejava o bem do povo, mas que, sem energia para atuar, sem vigor, tolerava a luta, aplaudia e sustentava uma ou outra autoridade que sabia corajosa resistir à influência dos grandes da corte e, no entanto, continuava a deixar-se cercado daqueles mesmos que abusavam, prevaricavam, zombavam das leis e riam-se dos clamores do povo.

Contai agora as janelas da face lateral do paço, que olham para o largo. Contai-as, começando da extrema que faz ângulo com a fachada principal. Contastes até sete? Parai aí.

Essa sétima janela recomenda-se por uma suave e patriótica recordação a todos os brasileiros e muito especialmente aos fluminenses.

Foi nessa sétima janela que apareceu, no dia 9 de janeiro de 1822, José Clemente Pereira, presidente do Senado da Câmara, à frente dos outros membros, seus colegas, aos olhos de uma multidão de patriotas, que esperavam ansiosos a resposta do príncipe regente à representação que a municipalidade lhe fora dirigir em nome do povo, pedindo-lhe que resistisse aos decretos do governo de Lisboa e que ficasse no Brasil.

Foi do alto dessa janela que José Clemente Pereira, como presidente do Senado da Câmara, falando ao povo, exclamou:

(continua...)

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