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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

— Que me importa! que me importa !...

Os dous noivos nunca mais se tornarão a Ver, e até esse tempo Guilherme apenas uma ou outra vez tinha podido vir passar alguns dias em sua fazenda, dahi por diante uma distancia enorme o separou do seu amigo. Negocios da maior importancia o levarão á Europa, onde se demorou quinze annos.

Apezar desta longa separação, nem esfriou a amizade de Eugênio e Guilherme e de suas consortes, nem foi esquecido o ajuste do casamento dos filhos. Os dous noivos mandavão, sem mesmo o saber, lembranças e saudades um ao outro nas cartas dos pais, que parecião namorar-se em nome dos filhos.

A menina tornou-se moça, recebeu em França uma educação esmerada, e talvez se tornou um pouco romanesca ; o que porém se passava em seu coração, e o que pensava do projecto de casamento que seus pais acariciavão tanto, é um segredo que eu não posso descortinar. Quando sua mãi lhe fallava de Luciano, ella corava, sorria e calava-se.

Quem não se calava, era Luciano. A principio e emquanto foi menino, repugnou-lhe a idéa desse casamento, recordando-se das travessuras e das caretas da noiva: depois, quando cresceu em annos e acabou de estudar philosophia, tomou ao serio os direitos do homem, não comprehendeu mais um casamento que não tivesse por base o amor, acreditou que o fatal projecto era um attentado contra a sua liberdade ; revoltou-se pois, e declarou muito respeitosamente a seus pais que não se casaria com a Sra. D. Dyonisia.

As insistências provocarão dobrada opposi-ção de sua parte, e finalmente Luciano acabou por aborrecer Dyonisia.

A pobre moça era para elle um phantasma pavoroso que o perseguia por toda a parte : irritava-se só ao ouvir pronunciar o nome de Dyonisia.

E entretanto, e a pezar seu, não podia cha-mala feia : recebera o retrato de Dyonisia, e duas ou tres vezes que olhara para elle, não poude deixar de reconhecer que a moça era encantadora, teve medo de convencer-se demasiadamente dessa verdade, e fez presente do retrato á sua mãi; nunca mais o quiz vêr, esqueceu a imagem e continuou a aborrecer o original.

Esta revolta não era do coração, era da imaginação, e portanto mais violenta ainda, e tão violenta que levara Luciano a esquecer os deveres da mais simples cortezia.

Um mez antes dos exames do seu quinto anno, Luciano soube com verdadeiro pezar no paquete inglez acabava de chegar ao Rio de Janeiro Guilherme, com a sua familia, e foi bastante fraco para nem ao menos ir fazer uma visita ao primeiro amigo de seu pai; e recebendo deste por isso mesmo uma severa reprehensão e uma ordem terminante para ir abraçar o recémchegado, o estudante independente obedeceu, mas de um modo ainda mais reprehensivel : procurou Guilherme em sua casa de commercio, e merecendo um convite para ir jantar e passar alguns dias na chácara do negociante, desculpouse com os estudos prolungados do fim do anno lectivo, e nem uma só vez appareceu a Dyonisia.

De sua parte Guilherme pagou a Luciano a visita, e não o procurou mais.

Entrando no gozo de suas ferias e já de caminho fazenda de seu pai, o jovem estudante recebe uma noticia desesperadora : o seupagem que lhe viera trazer os cavallos para a viagem, annunciou-lhe que havia em casa grande alegria; porque Guilherme e sua familia tinhão na ultima semana chegado á sua fazendo, e que desde então os dous velhos amigos quasi que vivião juntos, vingando-se de quinze annos de separação.

O annuncio era pelo menos desagradavel. O estudante previo que tinha de entrar em novas luctas, de ser obrigado a encontrar-se com Dyonisia, de fallar-lhe e de tratal-a com a consideração que todo o cavalheiro deve a uma senhora, e finalmente de resistir ao mesmo tempo ás ordens e, mais do que ás ordens, aos pedidos de seus pais, e aos obséquios de uma familia interessada em chamal-o ao seu gremio.

Luciano concebeu mil projectos de opposição e de resistencia: lembrou-se de diversos typos que estudara nos romances e nos theatros; pensou em mostrar-se extravagante como o peior dos libertinos, frio como o mais profundo dos egoistas, grosseiro como um barão que tivesse começado por varredor de armazém ; mas por fim de contas, quando entrou no campo da fazenda de seu pai, desprezou como indignos todos esses planos, e disse cornsigo :

— Nada... nada: hei de mostrar-me tal qual sou, e resistir com um simples

— não quero

— que é a expressão da minha vontade, e a prova da minha independencia.

II.

O tempo das ferias ia correndo de um modo inteiramente diverso do que calculara o estudante, que por isso mesmo começava a sentir-se desapontado.

Luciano esperara ter de sustentar uma lucta incessante, oppondo-se aos projectos do seu casamento com Dionysia, e encontrara seus pais quasi indifferentes e semelhante respeito.

(continua...)

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