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#Romances#Literatura Brasileira

Ubirajara

Por José de Alencar (1874)

Ubirajara tomou a esposa aos ombros (65) e levou-a à cabana do casamento.

O jasmineiro semeava de flores perfumadas a rede do amor.

O outro sol rompia, quando os tapuias estenderam pela campina a multidão de seus guerreiros.

Na frente assomava Agniná, a montanha dos guerreiros, ainda mais feroz do que o irmão, o terrível Canicrã.

De um lado e do outro seguiam-se os chefes, cada um à frente de seus guerreiros.

Ubirajara escolheu mil guerreiros araguaias e mil guerreiros tocantins, com que saiu ao encontro dos tapuias.

Depois que desdobrou sua batalha pela campina, o chefe dos chefes caminhou só para o inimigo.

Quando chegava a meio do campo, os tapuias levantaram a pocema de guerra, que atroou os ares, como o estrépito da cachoeira.

Um turbilhão de setas crivou o longo escudo do herói, que ficou semelhante ao grosso tronco de juçara, eriçado de espinhos.

Ubirajara embraçou o escudo na altura do ombro, e com o pé brandiu sete vezes a corda do grande arco gêmeo.

As setas vermelhas e amarelas subiram direitas ao céu e perderam-se nas nuvens.

Quando voltaram, Agniná e os chefes que obedeciam a seu arco, tinham cada um fincado na cabeça o desafio do formidável guerreiro.

Enfurecidos mais pelo insulto do que pela dor, arremessaram-se contra o inimigo que os esperava coberto com seu vasto escudo.

Agniná era o primeiro na corrida e o primeiro na sanha. Após ele vinham os outros a dois e dois, lutando na rapidez.

Quando o esposo de Araci viu que eles se estendiam pela campina, como dois ribeiros que se aproximam para confundir suas águas; o herói empunhou a lança de duas pontas e soltou seu grito de guerra, que era como o bramir do jaguar, senhor da floresta.

Seu pé devorou o espaço; e a lança de duas pontas girou em sua mão, como a serpente que enrosca-se nos ares, silvando.

Caiu Agniná do primeiro bote; após ele caíram aos dois os chefes tapuias, como caem os juncos talhados pelo dente afiado da capivara.

Então o herói soltou seu grito de triunfo, que era como o rugido do vento no deserto

— Eu sou Ubirajara, o senhor da lança, o guerreiro invencível que tem por arma uma serpente.

"Eu sou Ubirajara, o senhor das nações, o chefe dos chefes, que varre a terra, como o vento do deserto."

O herói estendeu a vista pela campina, e não descobriu mais o inimigo, que sumia-se na poeira.

Ubirajara lançou-lhe seus guerreiros, que tinham fome de vingança; porém o terror de sua lança dava asas aos fugitivos.

Desde esse dia nunca mais um tapuia pisou as margens do grande rio.

Ubirajara voltou à cabana, onde o esperava Araci.

A esposa despiu as armas de seu guerreiro, enxugou-lhe o corpo com o macio cotão da monguba, e cobriu-o do bálsamo fragrante da embaíba.

Encheu depois de generoso cauim a taça vermelha feita do coco da sapucaia; e aplacou a sede do combate.

Enquanto nas grandes tabas se preparava a festa do triunfo e o herói repousava na rede, Araci foi ao terceiro e voltou conduzindo Jandira pela mão.

— Jandira é irmã de Araci, tua esposa. Ubirajara é o chefe dos chefes, senhor do arco das duas nações. Ele deve repartir seu amor por elas, como repartiu a sua força.

A virgem araguaia pôs no guerreiro seus olhos de corça.

— Jandira é serva de tua esposa; seu amor a obrigou a querer o que tu queres. Ela ficará em tua cabana para ensinar a tuas filhas como uma virgem araguaia ama seu guerreiro.

Ubirajara cingiu ao peito, com um e outro braço, a esposa e a virgem.

— Araci é a esposa do chefe tocantim; Jandira será esposa do chefe araguaia; ambas serão as mães dos filhos de Ubirajara, o chefe dos chefes, e o senhor das florestas.

As duas nações, dos araguaias e dos tocantins, formaram a grande nação dos Ubirajaras, que tomou o nome do herói.

Foi esta poderosa nação que dominou o deserto.

Mais tarde, quando vieram os caramurus, guerreiros do mar, ela campeava ainda nas margens do grande rio.

Fim

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