Por José de Alencar (1875)
Seixas experimentou sensação igual à do homem que no meio de um sonho aprazível fosse arremessado a um pântano e acordasse chafurdando na torpe realidade. A palavra ajuste, ali naquele instante, quando acabava de santificar pelo juramento o eterno amor que votava a sua esposa; quando estava-se revendo em sua lembrança, de que a moça deixara impregnada a cada passo o luxo e elegância daqueles aposentos; essa palavra proferida sem intenção pelo velho, infligiu-lhe a mais acerva das humilhações.
Entretanto Lemos fechava as portas e gavetas que tinha aberto e terminou apresentando a Seixas a argola de chaves.
- Aqui tem, meu caro. Só uma chave não lhe posso eu dar; é dali.
O velho indicou na extrema de um breve corredor uma porta oculta por um reposteiro de seda azul com flecha dourada.
- Quando aquela porta abrir-se, não haverá em todo este Rio um maganão mais feliz!
E o velho repicando a sua fustigante risadinha de falsete, tornou ao salão, onde encontrou cinco negociantes, velhos camaradas, que a seu pedido se haviam demorado, e achavam-se um tanto embrulhados com a história.
- Ó Lemos, não dirás que fazemos nós ainda a esta hora aqui? Olhe, que para trapalhão temos conversado.
- Querem ver que brejeiro pretende fazer o negócio com toda a solenidade! Vocês não viram o aquele... o tabelião?
- É verdade; chamaram-no agora mesmo. E nós seremos testemunhas.
Aqui desafogaram-se os sujeitos em boas risadas.
- Quase que adivinharam vocês, disso o Lemos; venham cá e verão o que é.
Na saleta, onde introduziu seus amigos, estava sentado à mesa do centro um tabelião, que assistira a cerimônia como convidado e parecia agora em atitude de exercer algum ato do ofício.
Pela porta fronteira acabava de entrar Aurélia, em companhia de D. Firmina. A moça trazia nos ombros uma pelica de caxemira cinzenta, que disfarçava seu traje de noiva, cingindo-lhe a cabeça com o frouxo capuz.
A auréola de júbilo, que resplandecia-lhe a beleza quando ajoelhada aos pés do altar e ao lado do noivo, não se ofuscara; mas ia empalidecendo. Às vezes súbito eriçamento estremecia-lhe o talhe delicado; percebia-se nesses momentos um eclipse da luz íntima, como o vágado de uma lâmpada apagar-se.
Ela sentou-se defronte do tabelião; aos lados da mesa tomaram lugar Lemos e os outros negociantes.
- Peço aos senhores que me desculpem este incômodo; e aceitem meu reconhecimento pela sua bondade em acompanhar-me neste capricho.
Houve uns protestos murmurados.
- É minha última excentricidade! Tornou Aurélia com adorável sorriso. Ainda estou me despedindo da vida de moça; por isso mereço alguma indulgência. Demais, pensando bem, não é tão extravagante o que faço agora, pois o testamento também faz parte da confissão. Quero aproveitar este momento em que ainda sou senhora de mim e das minhas vontades, para declarar a última, que foi também a primeira de minha vida.
Apesar da garridice com que proferiu a moça estas palavras, e da graça jovial com que o seu mago sorriso espargia sempre em torno de si, um sentimento de vaga e indefinível tristeza pungiu as pessoas presentes; especialmente quando Aurélia entregou ao tabelião o testamento por ela escrito em uma folha perfumada de papel cetim, a gume dourado, com o monograma A. C. em relevo escarlate.
A associação de dois atos tão opostos, a aurora da existência e sua despedida; a idéia da morte a entrelaçar-se naquela mocidade tão rica de todas as prendas; a grinalda de noiva cingindo uma fronte a desfalecer; esse contraste era para deixar funda impressão no ânimo.
Aviou o tabelião o termo de aprovação com as fórmulas consagradas; e no meio do mais profundo silêncio restituiu à moça o testamento já cerrado com um torçal de seda e pingos de lacre dourado, cujo perfume derramou-se pela sala.
Nunca a abstrusa e rançosa algaravia de cartório se vira tão catita. O papel, com ser testamento, não desdizia da linda mão que traçara o contexto, e da alma gentil que talvez nele havia encerrado, com sua última vontade, o perfume de lágrimas ignotas.
Ao despedir-se da pupila, Lemos apertou-lhe a mão:
- Desejo-lhe que seja muito e muito feliz.
- Se não o for, será minha e minha só a culpa, respondeu a moça agradecendo-lhe.
D. Firmina quis acompanhar a moça ao toucador, para prestar-lhe os serviços de camareira de honra, que são de costume e privilégio da mãe, e na falta desta, da mais próxima parenta.
Recusou Aurélia; abraçando a velha senhora, disse-lhe comovida:
- Reze por mim!
Ficando só, a moça fechou à chave a porta da saleta e murmurou:
- Enfim!
Em todo aquele lado da casa não havia senão ela e seu marido.
XIII
Afastemos indiscretamente uma dobra do reposteiro que recata a câmara nupcial.
É uma sala em quadro, toda ela de uma alvura deslumbrante, que realçavam o azul celeste do tapete de riço recamado de estrelas e a bela cor de ouro das cortinas e do estofo dos móveis.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.