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#Romances#Literatura Brasileira

Iaiá Garcia

Por Machado de Assis (1878)

— Sim; falemos de minha mulher. Saiba que rematou dignamente a obra de sua mãe; e mais uma vez me fez compreender o benefício do casamento. Logo depois de casado, propôs-me aceitar, em favor de minha filha, a parte com que a Sra. D. Valéria lhe manifestara sua afeição. Gostei de a ouvir, porque era sinal de desinteresse, mas recusei, e recusei sem eficácia. Cedi, enfim; e não podia ser de outro modo. Folgo de lhe dizer essas cousas porque são raras... Jorge fechou o rosto ao ouvir essas palavras de Luís Garcia. Adivinhara a causa do desinteresse de Estela.

— Eterno orgulho! pensou ele. Depois refletiu no caso e perguntou a si mesmo se a moça teria confiado ao marido alguma cousa do que se passara entre eles. Era difícil percebê-lo, mas não era acertado supô-lo. Nenhuma mulher o faria nunca, Estela menos que nenhuma outra. Interrogou o rosto de Luís Garcia; achou-o plácido e imóvel. Após alguns segundos de silêncio, estendeu-lhe a mão.

— Permite-me então que o felicite? disse ele.

— De coração, acudiu Luís Garcia. E depois de erguer-se: — Se eu tivesse o sestro de dar conselhos, dir-lhe-ia que se casasse.

— Pode ser.

— Não lhe pergunto pela outra paixão; creio que a esqueceu de todo.

— De todo.

Luís Garcia apertou-lhe cordialmente a mão e saiu, depois de lhe oferecer a casa. Jorge ficou alguns instantes pensativo. A notícia do dote de Estela causara-lhe certo vexame; a notícia da doação feita pela moça em favor da enteada, produzia-lhe agora um sentimento mesclado de admiração e despeito. Ele sentia arder no mais fundo do coração da moça um resíduo de ódio, e em seu próprio coração não podia deixar de aprovar o ato.

Sendo forçoso pagar a visita a Luís Garcia, Jorge demorou o cumprimento desse dever enquanto lhe foi possível fazê-lo sem reparo. Um dia, enfim, sabendo por intermédio do Sr. Antunes que a família não estava em casa, foi a Santa Teresa e deixou lá um bilhete de visita.

A vida de Jorge foi então dividida entre o estudo e a sociedade, à qual cabia somente uma parte mínima. Estudava muito e projetava ainda mais. Delineou várias obras durante algumas semanas. A primeira foi uma história da guerra, que deixou por mão, desde que encarou de frente o monte de documentos que teria de compulsar, e as numerosas datas que seria obrigado a coligir. Veio depois um opúsculo sobre questões jurídicas e logo duas biografias de generais. Tão depressa escrevia o título da obra como a punha de lado. Seu espírito sôfrego colhia só as primícias da idéia, que aliás entrevia apenas. Uma vez, uma só vez, lembrou-se de escrever um romance, que era nada menos que o seu próprio; mas esse gênero de escritos pessoais só é suportável à força de grande talento. Ao cabo de algumas páginas, reconheceu que a execução não correspondia ao pensamento, é que não saía das efusões líricas e das proporções da anedota. Faltava-lhe o engenho preciso para extrair do fato particular a lei universal e humana; e a sagacidade com que o reconheceu sobrelevava a todos seus méritos.

Quando mais disposto se achava a compor essa autobiografia, ocorreu vagar a casa da Tijuca, a mesma aonde fora uma vez com sua mãe e Estela, ponto de partida dos sucessos que lhe transformaram a existência. Quis vê-la novamente; talvez ali achasse uma fonte de inspiração. Foi; achou-a quase no mesmo estado. Entrou curioso e tranqüilo. Pouco a pouco sentiu que o passado começava a reviver; e a ressurreição foi completa, quando penetrou na varanda, em que da primeira vez achara o casal de pombos, solitário e esquecido. Já lá não estavam as pobres aves! Tinham voado ou morrido, como as esperanças dele, e tão discretamente que a ninguém revelaram o desastrado episódio. Mas as paredes eram as mesmas; eram os mesmos o parapeito e o ladrilho do chão. Mudam os homens, a vida varia seus aspectos; há porém nas cousas inanimadas a virtude de guardar as feições fugitivas do tempo; e a rua insignificante, o prédio denegrido, o muro escalavrado cativam os olhos da memória, reconstruindo a sensação que se foi.

Jorge encostou-se ao parapeito, onde estivera Estela, com os pombos ao colo, diante dele, naquela fatal manhã. O que sentia nesse outro tempo, posto frisasse o amor, tinha ainda um pouco de estouvamento juvenil. Contudo, a vista das paredes nuas e frias da varanda abria-lhe na alma a fonte das sensações austeras, e ele tornou a ver os olhos férvidos e o rosto pálido da moça; pareceu até escutar-lhe o som da voz. Viu também a sua própria violência; e, como em meio de tantas vicissitudes, trazia ainda a consciência íntegra, a recordação fê-lo estremecer e abater. Jorge fincou os braços no parapeito e fechou a cabeça nas mãos.

— Olá, senhor dorminhoco! São horas de almoçar.

(continua...)

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