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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

Havia em face da casa do Sr. R... um miserável botequim, onde ela alugara um quarto a fim de passar a noite vendo-me. Era sublime de delicadeza, e contudo esta prova de afeição, que em outra circunstância me comoveria, pareceu-me uma perseguição insuportável, e esteve quase fazendo transbordar a minha cólera concentrada. 

 

— Não gosto nada destas extravagâncias, que dão em resultado comprometer-me. 

 

— Ninguém me conhece ali; e não podem adivinhar o que me trouxe. Agora mesmo, se a rua não estivesse deserta, me animaria a falar-lhe? Fique certo de uma coisa: não há nada neste mundo que eu deseje tanto como vê-lo; e me privaria desse prazer se ele pudesse trazer-lhe um dissabor. 

 

— Com que fim vieste a essa casa? Não posso sair uma noite sem que me veja espiado! Hás de confessar que não é muito agradável; se pensas que é este o meio de me prender, estás completamente enganada. Aprecio muito a minha liberdade; deves te lembrar que entre nós não existem compromissos. 

 

— Nem um decerto! 

 

— Portanto não temos que espiar-nos um ao outro.  

 

— Perdoe-me: fiz mal, não o farei nunca mais.  

 

Calei-me.  

 

— Diga-me ao menos que não está agastado! 

 

— Boa-noite! 

 

Lúcia precipitou-se para impedir-me o passo; vi um instante brilhar na sombra o seu olhar cintilante, mas logo deixou pender os braços, curvando a cabeça:  

 

— O coração me adivinhava! O Sá!... 

 

Continuei o meu caminho.  

 

Era a primeira noite, depois de um mês, que passava no hotel, e longe de Lúcia; como me achei só no deserto da nova existência que ia começar!

XII 

 

Meio-dia a dar no sino das torres, e eu entrando em casa de Lúcia. 

 

Tinha refletido: essa amizade não podia continuar; se havia de desatar mais tarde, depois de me ter feito curtir mil dissabores, bom era que cessasse desde logo. Não julgue porém que estava resolvido a separar-me por uma vez de Lúcia; minha coragem não chegava a tanto. O que eu desejava era demitir de mim um título que me esmagava na minha pobreza, o título de amante exclusivo da mais elegante e mais bonita cortesã do Rio de Janeiro. 

 

Ela recebeu-me com brandura. Tinha os olhos rubros e pisados de lágrimas; apertando minha mão, beijou-a. Que pretendia ela exprimir com esse movimento! Seria a imagem viva da humilde fidelidade do cão, afagando a mão que o acaba de castigar? 

 

Estivemos muito tempo sem trocar palavra. 

 

Enfim Lúcia fez um esforço, sorriu como se nada houvesse passado, e veio sentar-se nos meus joelhos, acariciando-me com a ternura e a graciosa volubilidade que ela tinha quando o júbilo lhe transbordava d'alma. Aproveitei o momento para alijar o peso que desde a véspera me acabrunhava. 

 

— Sabes que eu não sou rico, Lúcia! 

 

Seu olhar luminoso penetrou-me até os seios d’alma para arrancar o pensamento que inspirava essas palavras; respondeu com um pálido sorriso: 

 

— Pensava ao contrário que era muito rico! 

 

Ela mentia! 

 

— Pois pensaste mal. Sou pobre, e não posso sustentar o luxo de uma mulher como tu. 

 

— Acha pouco o que me tem dado! 

 

— O que dei não vale a pena de ser lembrado. Falemos do que te  devia dar, e não pude, porque não tinha. Neste mês que se passou, a tua vida não foi tão brilhante como era antes. 

 

— Porque eu não quis, e não porque me faltasse coisa alguma. Nunca me achei tão rica como agora. 

 

— Não tens sido vista nos teatros e passeios; já não tens um carro; não és enfim a mulher do tom que eu ainda conheci! 

 

— Aborreci-me de tudo isto! 

 

— Não te podes aborrecer sem que o mundo repare! 

 

— Como! Não sou senhora de viver a meu modo, desde que com isso não faço mal a ninguém? Se apareço, é um escândalo; se fico no meu canto, ainda se ocupam comigo. 

 

— Que queres! Há certas vidas que não se pertencem, mas à sociedade onde existem. Tu és uma celebridade pela beleza, como outras o são pelo talento e pela posição. O público, em troca do favor e admiração de que cerca os seus ídolos, pede-lhes conta de todas as suas ações. Quer saber por que agora andas tão retirada; e não acha senão um motivo. 

 

— Qual? perguntou Lúcia com ansiedade. 

 

— Supõe que eu te sacrifico aos meus ciúmes; e não me perdoa, porque não sou bastante rico para ter semelhantes caprichos. 

 

— É isso que o incomoda! Meu Deus! Fique descansado: terei carro, aparecerei como dantes! Hoje mesmo!... Verá! Não sabe quanto me custa esse sacrifício; mas um só beijo me paga com usura! 

 

Estalou o lábio entre os meus. 

 

— Precisava dele para me dar coragem; agora sinto me forte. 

 

— Aonde vais? perguntei retendo-a. 

 

— Vou mandar a cocheira ver o meu carro; escrever à Gudin que me faça uma dúzia de vestidos os mais ricos; dizer ao caixeiro do Wallerstein que me traga para escolher o que ele tem de melhor em modas chegadas ultimamente! É verdade, esquecia-me de mandar tomar uma assinatura no teatro lírico, e encomendar uma nova parelha de cavalos. A minha caleça já está usada; preciso trocá-la por uma vitória, e renovar o fardamento dos criados. Até à noite tenho tempo para tudo. O Jacinto se incumbirá de uma parte das comissões.  

 

(continua...)

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