Por José de Alencar (1860)
Margarida – Por isso mesmo! O único motivo que ainda te separa de Antônio é a vergonha que ele tem...
Carolina – Vergonha?... De que, minha mãe?
Margarida – Do que fez!... bebia... tanto... Como tu viste.
Carolina – Então é só este motivo?...
Margarida – Só. Podes acreditar. Não conserva a menor queixa de ti.
Carolina – Perdoou tudo então?
Margarida – Tudo!
Carolina – Oh! Mas Deus não perdoou, porque a todo momento vejo...
Margarida – O quê?...
Carolina – Nada, minha mãe, nada!
Margarida – Não chores!... Falemos de outra coisa... Luís deve ter voltado. São cinco horas.
Carolina (enxugando os olhos) – Chorar não me entristece, minha mãe, ao contrário me consola.
CENA II
(As mesmas, Luís e Meneses)
Margarida (a Luís) – Chegaste enfim.
Carolina – Ah! Luís!
Margarida – Sr. Meneses...
Meneses – Adeus, Margarida. (à Carolina) Hoje está mais coradazinha!... Só falta o sorriso nos lábios.
Carolina – As lágrimas assentam-me melhor.
Luís – Por que choravas, Carolina?
Margarida – Começou a lembrar-se...
Luís – Não te é possível então esquecer.
Carolina – E que servia que eu esquecesse? Os outros se lembram.
Luís – Como estás iludida, Carolina! O mundo é inconstante mo seu ódio, como na sua simpatia. Não tem memória e esquece depressa aquilo que um momento o impressionou.
Carolina – Com os homens sucede assim! Com a mulher não: aquela que uma vez errou nunca mais se reabilita. Embora ela se arrependa; embora pague cada um dos seus momentos de desvario por anos de expiação e de martírio; embora, iluminada pelo sofrimento, ela compreenda toda a sublimidade da virtude, e aceite como gozo aquilo que para tantas é apenas um dever, um sacrifício ou um costume!... Nada disto lhe vale! Se ela aparecer o mundo arrancará o véu que cobre o seu passado.
Luís – Quando o arrependimento não é sincero, porque então a sociedade é severa.
Carolina – Não tem direito de ser! Deve lembrar-se que é a causa da alucinação de tantas moças pobres... Porque ao passo que atira a lama ao ente fraco que se deixou iludir, guarda um elogio e um cumprimento para o sedutor.
Meneses – E assim deve ser, Carolina.
CENA III
(Carolina, Luís e Meneses)
Carolina – O senhor defende esta injustiça?
Meneses – Defendo a lei social, que, na minha opinião, deve ser respeitada até mesmo nos seus prejuízos. Como filósofo, posso condenar algumas aberrações da sociedade; como cidadão, curvo-me a elas e não discuto.
Carolina – Mas por que razão toda a falta recai unicamente sobre a parte mais fraca?
Meneses – Porque a virtude de uma senhora é um bem tão precioso, que quando ela o dá a um homem eleva-o, rebaixando-se.
Carolina – E a sociedade aproveita-se desse erro, aplaude o vencedor e encoraja-o para novas conquistas?
Meneses – Toda a virtude que não luta, não é virtude; é um hábito. Se não houvesse sedutores, a honestidade seria uma coisa sem merecimento! Creia-me, Carolina, o mundo é feito assim; deixemos falar os moralistas: eles podem dizer muita palavra bonita, mas não mudarão nem uma pedra desse edifício social que as maiores revoluções não têm podido abater.
Carolina– Ouve, Luís; tudo se defende, menos a falta de uma pobre mulher.
Meneses – Não há dúvida! Fiz uma das minhas. Esse maldito costume de escrever folhetins!... Mas desculpe; não me lembrei que a afligia.
Carolina – Já estou resignada! Não pertenço mais a este mundo!...
Luís – Hás de voltar a ele. Eu te prometo!...
Carolina – Como, meu Deus!...
Luís – Não me acreditas?
Carolina – Desejava mas não posso...
Luís – Espera!...
Carolina – Por que não me explicas?
Luís – Vai ter com Margarida; preciso conversar com Meneses.
Carolina – E depois?
Luís – Depois eu te chamarei.
Carolina (a Meneses) – Até logo?
Luís – Ele demora-se.
Meneses – Mas, de agora em diante, pode acusar a quem quiser!...
Carolina – Eu só acuso a mim mesma, Sr. Meneses.
CENA IV
(Luís e Meneses)
Meneses – Pobre moça!... Quem diria que depois daquele delírio de prazer viria uma tão nobre e tão santa resignação!
Luís – Isto prova, Meneses, que nem sempre o mundo tem razão; que estas faltas que ele condena encerram, às vezes, uma grande lição. As mais belas almas são as que saem do erro purificadas pela dor e fortalecidas pela luta.
Meneses – Concordo; para Deus assim é, para o homem não.
Luís – Para os homens também. Eu hoje respeito e admiro a virtude de Carolina!
Meneses – Não duvido; há virtudes que se respeitam e admiram, mas que não se podem amar.
Luís – Por que razão?
Meneses – Porque o amor é um exclusivista terrível; foi ele que inventou o monopólio e o privilégio. Já vês que este senhor não pode admitir a concorrência nem mesmo do passado.
Luís – Julgas então impossível amar-se uma mulher como Carolina?
Meneses – Concedo que ela excite um desejo ou um capricho; mas um verdadeiro amor, não.
Luís – O que dizes é verdade se o amor aspira à posse; mas se ele é apenas um gozo do espírito?
Meneses – Não creio na existência de semelhante sentimento.
Luís – Entretanto é assim que amo Carolina.
Meneses – Ainda?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.