Por José de Alencar (1870)
Para ocupar as noites e distrair o espírito dessa constante preocupação amiudou as visitas à casa de D. Clementina. Ali com a influição do olhar profundo e da palavra eloqüente de Leopoldo, esquecia as contrariedades e inquietações. Na volta trazia algumas doces reminiscências, e sobretudo um certo arroubo do coração, que durava algum tempo, e a preservava de suas anteriores preocupações.
Já haviam passado doze dias depois da carta, e Amélia estava mais que nunca resolvida a romper com Horácio, quando se deu entre ambos um encontro.
Foi no teatro.
Amena que a princípio evitou as ocasiões de encontrar-se com Horácio, lembrou-se que sua presença podia provocá-lo, e obteve do pai que a levasse ao espetáculo. Subindo a escada do Teatro Lírico, avistou Horácio que vinha do lado oposto.
Apesar de estar prevenida, a moça teve um sobressalto; mas pôde recobrarse antes que o leão se apercebesse de sua presença. Foi com fria altivez e indiferença que ela correspondeu ao cumprimento de Horácio, sem demorar o passo enquanto ele trocava um aperto de mão com o Sales Pereira.
Esta indiferença porém, e sobretudo o gesto que Amélia fez para arregaçar o vestido quando subia o segundo lanço de escada, ataram de novo o leão ao jugo.
— Desta vez, pensou ele, se eu estivesse adiante, via ao menos a ponta do meu pezinho!
Teria Amélia simulado aquele gesto de propósito? É natural; ela queria subjugar outra vez o cativo que escapara; usava de todos os seus recursos.
Vencido, o moço acompanhou a família até à porta do camarote e demorouse aí a conversar com o negociante. Entretanto Amélia, sem dar-lhe a mínima atenção, percorria com o binóculo os camarotes trocando com a mãe observações a respeito das moças e seus lindos adereços.
Durante o resto da noite, a moça mostrou a mesma calculada indiferença, a ponto de irritar o mancebo. Apesar de se ter rendido, sentiu ele um ímpeto de revolta, e deixou sua cadeira junto à orquestra com intenção de visitar um camarote fronteiro ao do Sales Pereira. Lá estava uma linda moça de seu conhecimento, uma das estrelas de sua coroa de rei da moda.
Sentar-se-ia junto dela, e estabeleceria um diálogo entretecido de sorrisos, de olhares e meias confidências como por ai se dão tantos nos bailes e espetáculos: verdadeira cena mímica de amor representada perante o público. Com esse entretenimento, Horácio comprometeria seriamente a reputação de uma senhora; mas vingar-se-ia de Amélia, excitando-lhe ciúmes.
Chegava já o leão à porta do camarote quando ocorreu-lhe este pensamento:
Faltava apenas um ato para terminar o espetáculo; se ele mostrasse afastamento, Amélia irritada persistiria em seu desdém durante o resto da noite; e quem sabe que resolução tomaria sob a influência desse despeito?
Horácio teve medo e recuou. Já se tinha submetido no começo da noite; o melhor expediente era perseverar. Naturalmente Amélia, no fim do espetáculo, abrandaria o seu rigor.
Começara o ato. Horácio deixou passar algum tempo, e dirigiu-se ao camarote de Amélia. A moça que já tinha reparado na ausência do leão, cuja cadeira estava desocupada, adivinhou-lhe a presença, ouvindo abrir-se a porta. Seu primeiro movimento foi voltar o rosto; mas reprimiu-se a tempo, e disfarçou dirigindo o binóculo para o fundo da sala.
Apesar do império que tinha sobre si, Amélia estava ao cabo das forças. Se naquele momento Horácio fingisse uma retirada, ela não resistiria. Felizmente o leão não se lembrava disso e tinha resolvido esperar a saída para trocar algumas palavras com a moça.
Terminou o espetáculo afinal. Horácio ofereceu o braço a Amélia:
— Muito lhe ofendi com meu pedido, D. Amélia?
A moça calou-se.
— Não lhe mereço nem uma palavra?
— Parece que o senhor lhe dá bem pouco apreço.
— Que injustiça!
— Quem passou tantos dias sem ela pode bem esperar ainda os dois que faltam.
— Então sou eu o culpado dessa demora! Quem me condenou a ela?
— E o senhor nem ao menos procurou abreviá-la: achou mais cômodo esperar tranqüilamente! Pois continue a esperar.
— Mas, D. Amélia! Depois da resposta de seu pai, se eu me apresentasse em sua casa, tornar-me-ia importuno. Cuida que não sofri, passando tantos dias sem vêla? Ingrata! Quantas vezes, não podendo resistir, fui até à porta de sua casa, e passei, impelido pelo receio de indispô-la contra mim? Se ela me amasse, pensava eu, teria aceitado logo: não o fez; quer refletir; devo deixá-la tranqüila e respeitar a sua resolução. Que vou eu lá fazer? Obrigá-la a me aborrecer.
Horácio mentia; ele se ausentara da casa do Sales Pereira, somente para vencer a resistência da moça por uma simulada indiferença. O carro do negociante aproximou-se:
— Vai sem me deixar uma esperança?
— Não é aqui o lugar de pedi-la.
— Então amanhã?
— Se quiser!
No dia seguinte à noite o leão estava em casa do negociante. Amélia o recebera com um resto de ressentimento, que se desfez com os primeiros galanteios. Sucedeu o que era natural: depois de uma abstinência de tantos dias, esses corações tinham a sede de ternura, e beberam um no outro a largos sorvos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.