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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

Calculei que para salvar as aparências de caridade, ao menos durante alguns dias, não empregariam violências materiais contra mim no empenho de descobrir e tomar-me a luneta.

É assim a natureza humana: na minha última noite de tormentosa vigília, tive horror da luneta mágica e até por vezes o pensamento de quebrá-la, e agora a fúria dos meus inimigos que a todo o transe queriam privar-me do poderoso meio que me assegura a visão do mal, centuplica em meu capricho o valor desse tesouro, que eu só e nenhum outro homem talvez possui no mundo.

O homem é assim; menino mais ou menos malcriado toda sua vida.

O espírito de oposição, o prazer de contrariar os outros começam no berço e só acabam, quando chega a morte.

Se quiserem que algum homem grite: — "não!", ordenem-lhe que balbucie: — "sim".

XXX

Asseveram que estou doido, e eu me sinto no pleno e perfeito gozo de minhas faculdades mentais.

Mas de que me aproveita a consciência do meu estado, a certeza de que estou em meu juízo, se o mano Américo, a tia Domingas, a prima Anica, e toda a população do Rio de Janeiro me declaram doido ?

A opinião pública que dizem ser a rainha do mundo decretou que me acho vitima de alienação mental.

Vitima concordo que eu esteja sendo; mas alienado?... Protesto.

Doido por quê?... Porque tenho o privilégio de descobrir o mal que se dissimula; e porque não há máscara de hipocrisia, que resista à minha luneta mágica!

Doido! . . .

Ah! quantos homens de juízo não andarão por aí declarados doidos somente para que os golpes certeiros de suas palavras terríveis percam a força, com que devem ferir e despedaçar a imoralidade, os vícios ignóbeis e até os crimes de grandes figurões?...

Eu não creio, não posso mais acreditar na bondade ou na virtude de homem algum; todos são mais ou menos ruins, falsos, e indignos; há porém alguns que sem dúvida com o fim de ser mais nocivos aos outros, e para produzir maior dano, têm o merecimento de dizer a verdade nua e crua, e chamar as coisas pelos seus nomes próprios tornando-se verdadeiros e francos certamente ainda por maldade.

Pois bem: esses perigosos faladores são em breve denunciados ao publico sempre enganado, como — doidos.

Conversem um pouco e em voz baixa com a nossa capital, e hão de reconhecer os fundamentos desta observação.

Um exemplo: um desses homens de palavra solta e descomedida declara sem cerimônia e declinando nomes que tal e tal sujeitos que chegaram a titulares e são considerados, lisonjeados e adulados pela sua riqueza nas mais elegantes sociedades, mereciam antes estar ria casa de correção por terem enriquecido com abusos escandalosos e crimes, de que ele faz a história.—É doido.

Outro exemplo: um jornalista que escreve sem luvas de seda, chama na imprensa ao ministro que dilapida, dilapidador ao funcionário ou administrador que rouba, ladrão; e assim por diante sem limar o verso para que não fira. Que doido!

Terceiro exemplo: um desastrado falador diz a um pai cego e doido pelos filhos: — "os seus filhos são vadios e procedem indignamente;"—a um esposo de quem é amigo:—"a vida repreensível que vives, a depravação de teus costumes não só te nodoam, como talvez preparem a vergonha da tua casa... não desesperes tua pobre mulher: corrige-te". É doido, absolutamente doido.

E esses e outros semelhantes são doidos, e eu também estou doido; por que?...

Porque na sociedade a maior prova, o mais seguro sintoma de loucura é dizer a verdade sem rebuço, mesmo quando a verdade pode ser desagradável ou ofensiva.

XXXI

E em certos casos de que vale a consciência ao homem contra s guerra teimosa e perversa dos outros homens?...

Nem Hércules contra dois; que poderá um contra todos?...

Aqui estou eu certíssimo de me achar em meu perfeito juízo e com serias apreensões de ver-me obrigado a endoidecer em breve.

Os meus parentes, os meus conhecidos, e todos crêem ou fingem crer, e dizem, proclamam, gritam por toda parte que estou doido.

Há situação mais horrível e ameaçadora?...

Considere-se cada qual no meu caso.

Em casa apenas levantado da cama, e durante o dia todo a família os parentes com hipócritas aparências de compaixão a repetiram mil vezes: —"coitado! está doido..."

Os falsos amigos em suas visitas dizerem-me: —"trate-se! creia que a sua cabeça não está boa..."

Na rua, no passeio, no teatro, em toda parte uns a rir e a gritar: — "está doido!"; outros com voz lastimosa a murmurar: — "pobre moço! está doido".

Durante a noite guardas possantes velando no quarto do doido.

E oito, quinze dias seguidos, um mês, família amigos, conhecidos, desconhecidos, toda a população de uma cidade a repetir de hora em hora, de minuto a minuto, incessantemente: — "está doido! está doido! "

Quem seria, quem é capaz de resistir a semelhante impulso violento para a loucura?...

De que vale em tais casos a própria consciência contra esse acordo geral que a condena?... O homem mais forte cede exasperado à convicção de todos, e em breve prazo começa a duvidar de si...

E desde que começa a duvidar de si, começa a enlouquecer...

(continua...)

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