Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
A terra por este rio acima é muito boa, em que se dão todos os mantimentos que lhe plantam, muito bem, e pode-se fazer aqui uma povoação, onde os moradores dela estarão muito providos de pescado e mariscos, e muita caça, que por toda aquela terra há. Este rio vem de muito longe, e pelo sertão é povoado do gentio bem acondicionado, que não faz mal aos homens brancos, que vão por ele acima para o sertão. Aqui neste rio foi desembarcar Antônio Dias Adorno com a gente que trouxe da Bahia, quando por mandado do governador Luís de Brito de Almeida foi ao sertão, no descobrimento das esmeraldas, e foi por este rio acima com cento e cinquenta homens, e quatrocentos índios de paz e escravos, e todos foram bem tratados e recebidos dos gentios que acharam pelo sertão deste rio das Caravelas.
C A P Í T U L O XXXVIII
Em que se declara a terra que há do rio das Caravelas até Cricaré.
Do rio das Caravelas até o rio de Peruípe são três léguas. as quais se navegam pelo canal indo correndo a costa. Neste rio entram caravelões da costa, junto da qual a terra faz uma ponta grossa ao mar de grande arvoredo, e toda a mais terra é baixa. Do direito desta ponta se começam os abrolhos e seus baixos; mas entre os baixos e a terra há fundo de seis e sete braças, uma légua ao mar somente, por onde vai o canal.
Deste rio Peruípe ao de Mocuripe são cinco léguas, o qual tem na boca uma barreira branca como lençol, por onde é bom de conhecer, o qual está dezoito graus e meio. Por este rio Mocuripe entram caravelões da costa à vontade, e há maré por ele acima muito grande espaço, cuja terra é boa e para se fazer conta dela para se povoar, porque há nela grandes pescarias, muito marisco e caça.
Deste rio de Mocuripe ao de Cricaré são dez léguas, e corre-se a costa do rio das Caravelas até Cricaré norte-sul, e toma da quarta nordeste-sudoeste, o qual rio Mocuripe está em dezoito graus e três quartos, pelo qual entram navios de honesto porto, e é muito capaz para se poder povoar, por a terra ser muito boa e de muita caça, e o rio de muito pescado e marisco, onde se podem fazer engenhos de açúcar, por se meterem nele muitas ribeiras de água, boas para eles. Este rio vem de muito longe, e navega-se quatro ou cinco léguas por ele acima; o qual tem na barra, da banda do sul quatro abertas, uma légua e mais uma da outra, as quais estão na terra firme por cima da costa, que é baixa e sem arvoredo, e de campinas. E quem vem do mar em fora parecem-lhe estas abertas bocas de rios, por onde a terra é boa de conhecer. Até aqui senhorearam a costa os tupiniquins, de quem é bem que digamos neste capítulo que se segue antes que cheguemos à terra dos goitacases.
C A P Í T U L O XXXIX
Em que se declara quem são os tupiniquins e sua vida e costumes.
Já fica dito como o gentio tupiniquim senhoreou e possuiu a terra da costa do Brasil, ao longo do mar, do rio de Camamu até o rio de Cricaré, o qual tem agora despovoado toda esta comarca, fugindo dos tupinambás, seus contrários, que os apertaram por uma banda, e aos aimorés, que os ofendiam por outra; pelo que se afastaram do mar, e, fugindo ao mau tratamento que lhes alguns homens brancos faziam, por serem pouco tementes a Deus. Pelo que não vivem agora junto do mar mais que os cristãos de que já fizemos menção. Com este gentio tiveram os primeiros povoadores das capitanias dos Ilhéus e Porto Seguro e os do Espírito Santo, nos primeiros anos, grandes guerras e trabalhos, de quem receberam muitos danos; mas, pelo tempo adiante, vieram a fazer pazes, que se cumpriram e guardaram bem de parte a parte, e de então para agora foram os tupiniquins muito fiéis e verdadeiros aos portugueses. Este gentio, e os tupinaés, descendem todos de um tronco, e não se têm por contrários verdadeiros, ainda que muitas vezes tivessem diferenças e guerras, os quais tupinaés lhe ficavam nas cabeceiras, pela banda do sertão, com quem a maior parte dos tupiniquins agora estão misturados. Este gentio é da mesma cor baça e estatura que o outro gentio de que falamos, o qual tem a linguagem, vida e costumes e gentilidades dos tupinambás, ainda que são seus contrários, em cujo título se declarará mui particularmente tudo o que se pode alcançar. E ainda que são contrários os tupiniquins dos tupinambás, não há entre eles na língua e costumes mais diferença da que têm os moradores de Lisboa dos da Beira; mas esse gentio é mais doméstico e verdadeiro que todo outro da costa deste Estado. É gente de grande trabalho e serviço, e sempre nas guerras ajudaram aos portugueses, contra os aimorés, tapuias e tamoios, como ainda hoje fazem esses poucos que se deixaram ficar junto ao mar e das nossas povoações, com quem vizinham muito bem, os quais são grandes pescadores de linha, caçadores e marinheiros, são valentes homens, caçam, pescam, cantam, bailam como os tupinambás e nas coisas de guerra são mui industriosos, e homens para muito, de quem se faz muita conta a seu modo entre o gentio.
C A P Í T U L O XL
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.